Internacional

69 ANOS DA NAKBA PALESTINA

Há 69 anos da Nakba Palestina: antecedentes históricos pouco conhecidos

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

terça-feira 16 de maio| Edição do dia

No dia 15 de maio completam-se 69 anos da nakba palestina. Por “nakba” significa catástrofe, e lembra a expulsão dos palestinos de sua própria terra, em 1948, quando 711 mil árabes de acordo com os números oficiais saíram em exílio. Famílias foram separadas, e pessoas lançadas na miséria. Até hoje esse dia é lembrado pelos palestinos. Tanto os que vivem na Faixa de Gaza, na Cisjordânia, como principalmente aos que foram expulsos de suas casas, e até hoje têm o direito de retorno ao seu país de origem negado. Mas isso nem sempre foi assim.

O exílio e a negação aos palestinos a se constituírem como nação é uma realidade que os palestinos são obrigados a viver desde 1947, com a fundação do Estado de Israel pela ONU, que atua como um enclave imperialista na região. De lá para cá foram inúmeros ataques, massacres impostos aos palestinos, que vivem em condições sub-humanas, sendo reprimidos sistematicamente pelo exército israelense.

Mas isso nem sempre foi assim. Durante os séculos de dominação moura da Andaluzia, no império espanhol, árabes e judeus conviveram em paz. Após a Inquisição os judeus sefaradi foram recebidos pelo império otomano no Egito, Norte da África, e durante 500 anos viveram pacificamente junto a árabes turcomanos e cristãos. Em princípios do século XX na Palestina os judeus constituíam uma minoria de 5% da população integrada a uma sociedade predominantemente árabe, com plena liberdade de culto.

O Oriente Médio, e mais especialmente a Palestina, sempre sofreram a ingerência direta dos imperialismos, o que sem dúvida é o elemento fundamental para que essa seja uma região tão conflituosa. Isso começou desde o declínio do Império Otomano, quando os imperialismos francês e britânico assinaram o acordo de Sykes-Picot em 1916 dividindo entre eles as terras do Oriente Médio. Na Palestina os britânicos impuseram um protetorado apoiado sobre um exército de 500 mil soldados. Com a finalidade de controlar os movimentos nacionalistas árabes palestinos o governo britânico lançou em 1917 a Declaração Balfour, redigida por dirigentes sionistas, que alentava a formação de um “lar nacional judeu na Palestina”, dócil aos interesses britânicos. Em 1917 nos 26 mil km2 da Palestina, conviviam cerca de um milhão de palestinos e cem mil judeus. Naquele momento, a Palestina era controlada pela Grã-Bretanha, que já em 1921 tentou dividir o território deixando 80% para os árabes, e 20% para os judeus.

Mas mesmo com a política imposta pela dominação britânica na história do movimento dos trabalhadores palestinosno momento anterior à fundação do Estado de Israel demonstrou ter laços reais de solidariedade entre os membros árabes e judeus dessa classe, que lutavam por objetivos comuns. Nesse sentido, o conflito árabe-palestino nada tem a ver com a propaganda interessada feita pelo imperialismo norte-americano e seus aliados europeus, de que os árabes seriam por uma questão quase genética tendentes ao fanatismo religioso. Muito pelo contrário. Os trabalhadores palestinos acolheram os judeus, e antes da fundação do Estado de Israel realizaram diversas ações comuns. Uma história que pouco se conta.

Concentrados em setores como metalúrgicas, ferroviários, comunicações, portuários, refinadoras de petróleo, e grandes padarias centenas de milhares de trabalhadores árabes e judeus realizavam tarefas comuns. Essa classe trabalhadora residia em dois grandes centros urbanos: Jaffa (bairro original da futura TelAviv), e Haifa, o principal porto e centro industrial.

A solidariedade entre os trabalhadores árabes e judeus se expressava, por exemplo, no sindicato dos padeiros, que declararam o “caráter internacional” e “aberto a todos os trabalhadores” de suas organizações.Essas tendências unitárias preocuparam de tal modo os sionistas, defendiam a criação de um Estado puramente judeu, que fez com que seu máximo estrategista intervisse. David Bem Gurión, líder na época da Histadrut - a central sindical operária sionista - e futuro chefe do Estado de Israel, sustentou que os trabalhadores judeus deviam se organizar em sindicatos “vinculados”, ainda que “separados” dos árabes, em “seções nacionais”.

Assim a central sindical sionista terminou expulsando os militantes comunistas de origem judia, que reivindicavam sindicatos comuns, e se esforçou em romper as greves feitas por árabes e judeus conjuntamente, como o conflito de abril e maio de 1933 em Nesher. Sob a palavra de ordem “kibushhaavoda”, que significa “conquista do trabalho”, a central sindical sionista assina acordos com os empresários para substituir a força de trabalho árabe em troca de disciplina trabalhista. Mas mesmo assim, em 1946 os trabalhadores árabes e judeus voltaram às ruas juntos organizados no Sindicato Internacional Ferroviário, Postal e Telefônico que paralisou os serviços públicos.

Mas esses laços de solidariedade dos trabalhadores árabes e judeus começaram a se quebrarem depois do assassinato do dirigente sindical SamiTaha, e da resolução da ONU em novembro de 1947 de dividir a Palestina em favor da minoria judia, o que desencadeou vários movimentos de resistência. Esses movimentos de resistência árabe tiveram que enfrentar os atentados terroristas dos sionistas do Haganá. A gota d’água foram os atentados de dezembro de 1947, em que Etzel, que era a ala mais direitista da Haganá, explodiu um carro bomba entre centenas de trabalhadores árabes de Haifa.

Cabe notar também que não apenas os setores mais direitistas atacaram os árabes nesse momento. Uma organização chamada Palmaj, que era composta por aqueles setores dos judeus que conformaram os kibutz, e eram identificados com a esquerda, também atacaram os árabes. No ano de 1947 eles atacam o povoado árabe de Balad al Shayk assassinando dezenas de mulheres e crianças.

Em 1848 uma nova escalada se dá. A guerra de 1948-1949 foi vencida pelos israelenses, que ampliaram o seu domínio por uma área de 20 mil km², o equivalente a 75% da superfície da Palestina. Isso provocou a expulsão de aproximadamente 900 mil palestinos, que deixaram as áreas tomadas por Israel. Esse imenso contingente de refugiados permanece disperso até hoje pelos campos do Oriente Médio. Estima-se que existam cerca de 8 milhões de palestinos que vivem como refugiados.

Portanto, o Estado sionista formou-se em base à ocupação colonial, dando início à escalada de expulsão e repressão dos palestinos. Utilizando-se do horror gerado pela política de extermínio dos judeus na Segunda Guerra Mundial, o imperialismo cria no Oriente Médio o enclave que hoje conhecemos como Israel. A única paz duradoura para o conflito árabe-palestino só pode vir pela garantia do direito de retorno de todos os refugiados palestinos. E pela instauração de uma Palestina laica e socialista, que resgate e aprofunde a história de unidade e mobilização dos trabalhadores palestinos, e rompa definitivamente essa cadeia de opressão imperialista.




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