Gênero e sexualidade

VIOLÊNCIA MACHISTA

Há 27 anos do “Massacre de Montreal”, seguimos na luta por nenhuma a menos!

Nesta terça-feira, 6 de Dezembro de 2016, completaram-se 27 anos do chamado “Massacre de Montreal”, no qual 14 mulheres estudantes da Escola Politécnica de Montreal no Canadá foram assassinadas e 10 foram feridas por arma de fogo, vítimas de um ataque machista e misógino por parte de um estudante chamado Marc Lépine.

Bruno Portela

São Paulo

Marcela Polo

Feminista, professora e formada em letras pela USP

terça-feira 6 de dezembro de 2016| Edição do dia

Nesta terça-feira, 6 de Dezembro de 2016, completaram-se 27 anos do chamado “Massacre de Montreal”, no qual 14 mulheres estudantes da Escola Politécnica de Montreal no Canadá foram assassinadas e 10 foram feridas por arma de fogo, vítimas de um ataque machista e misógino por parte de um estudante chamado Marc Lépine. Outros 4 estudantes homens também ficaram feridos. Na ocasião, Marc Lépine invadiu as aulas de engenharia da universidade, exigiu que os estudantes homens presentes saíssem da sala e abriu fogo contra as estudantes enquanto gritava um discurso anti-feminista, após isso ele se suicidou. A tragédia marcou o país, e teve repercussão mundial, não somente pela brutalidade e número de vítimas, mas principalmente pelo conteúdo de violência de gênero explícito nesse episódio, ainda que a mídia e os setores conservadores tenham tentado esconder esse “detalhe”. Em 1991, o parlamento canadense instituiu a data do massacre como o “Dia Nacional de Memória e Ação Contra a Violência Contra as Mulheres” e desde então nessa data tão simbólica o movimento de mulheres canadenses organiza atos em memória das vítimas e ações de combate ao machismo.

Nascido em Montreal, o atirador Marc Lépine (originalmente denominado Gamil Rodrigue Liass Gharbi) foi fruto de uma família marcada pela instabilidade, na qual a violência de gênero era prática comum. Em carta escrita no dia do assassinato em massa e na qual comunicava seu suicídio, Lépine deixou clara a motivação do massacre, que era a de “dar um fim” às feministas, às quais se refere pelo uso da palavra “virago”, vocábulo de tom pejorativo utilizado para designar “mulheres agressivas” e com “características masculinas” ( “j’ai décidé de mettre des bâtons dans les roues à ces viragos.”). Além disso, ele detalha em sua carta uma tentativa frustrada de se juntar às forças armadas canadenses e como a negativa que recebeu na época o fez esperar para executar seu plano, evidenciando que o ataque teria sido premeditado. Como anexo, Lépine incluiu uma lista com 19 nomes de mulheres que não foram mortas por ele por “falta de tempo” e então terminou sua carta com os dizeres “Alea iacta est” traduzido para o português como “A sorte está lançada”.

Na ocasião do ataque, houve muitas tentativas de atribuí-lo às supostas doenças psíquicas de Lépine ou até mesmo à sua família disfuncional ou fracassos relativos à vida profissional do atirador, ignorando quaisquer análises feministas sobre o ocorrido e fazendo com que soasse como um caso isolado. Segundo Melissa Blais, em seu estudo sobre masculinismo e o massacre, Lépine foi considerado louco, coitado e doente por muitos, o que fez com que fosse possivel neutralizar o debate politico sobre o assunto, impedindo que o massacre fosse visto como mais um caso de violência contra a mulher.

Infelizmente a história recente tem diversos episódios como esse de violência e ódio contra as mulheres, como o emblemático caso da Jyoti Pandey na Índia, estudante que morreu após sofrer estupro coletivo e ser espancada por 6 homens, o caso do estupro coletivo cometido por cerca de 30 homens contra uma adolescente no Brasil ou ainda o caso mais recente de estupro, seguido de brutal tortura e morte contra uma adolescente na Argentina. Esses casos e tantos outros milhares que acontecem todos os dias ao redor do mundo evidenciam como as mulheres ainda sofrem com o machismo e a misoginia tão profundamente cristalizados em nossas sociedades. Mas ao mesmo tempo, temos exemplos muito importantes de milhares de mulheres que se levantaram em resposta a essa situação de opressão na qual vivem. Sem dúvidas, a única saída é a organização das mulheres junto a todos os setores oprimidos e explorados: somente um movimento de milhares de mulheres que tome as ruas, de base, nas escolas, universidades e no trabalho pode derrubar a opressão contra a mulher intrínseca ao modo de vida capitalista.

Em memória às vítimas do “Massacre de Montreal”, em solidariedade aos amigos e familiares que sofreram e por todas as vítimas da violência machista, seguimos na luta por nenhuma a menos no Canadá, Índia, Brasil, Argentina e em todo o mundo!




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