Juventude

IDEIAS NAS UNIVERSIDADES #1

Há 202 anos de seu nascimento, as ideias de Marx renovam sua força para guiar as novas gerações

Há quase dois séculos, sofrendo todo tipo de adulterações e deturpações, a ideia de que é necessário fazer uma revolução proletária para derrubar a burguesia, permanece e se renova a cada geração de jovens que busca o marxismo como resposta à podridão capitalista

Mariana Duarte

Diretoria do centro acadêmico da faculdade de educação da USP

sábado 9 de maio| Edição do dia

Em 1845, com apenas 27 anos, Karl Marx escrevia, pela primeira vez, que a classe transformadora de nosso tempo é o proletariado, o coração, e que “o poder material só pode ser derrubado pelo poder material”, ou seja, por uma revolução.

Há quase dois séculos, sofrendo todo tipo de adulterações e deturpações, a ideia de que é necessário fazer uma revolução proletária para derrubar a burguesia, permanece e se renova a cada geração de jovens que busca o marxismo como resposta à podridão capitalista. A ideia de uma sociedade comunista, após o período de crise orgânica aberto pela crise econômica mundial de 2008, que impõe uma crise de hegemonia, de poder, em diversos países do mundo, torna visível o aumento do interesse, principalmente na juventude, pelas ideias socialistas.

Nas universidades é visível como muitos jovens que conseguem superar o filtro social e racial do vestibular, o fazem em busca de respostas mais profundas ao momento em que vivemos, à crise aberta e, no caso do Brasil, respostas em torno do que levou a que sejamos governados por uma corja da extrema direita, com militares, que parece que saíram diretamente da ditadura. Estes que, inclusive, são parte daqueles que mais chamam atenção para os “perigos do comunismo”, pois, apesar de identificarem as ideias revolucionárias de Marx com a miséria do possível que, mesmo em momentos de crise, ainda quer ilusoriamente reformar o capitalismo, como o PT, veem como o marxismo permanece sendo um poderoso instrumento da classe operária, capaz de derrubar seu poder.

Em meio a pandemia do coronavírus, fica a cada dia mais cristalino como as ideias de Marx e Engels se mantêm com toda sua força vital. Hoje, já passamos da marca dos milhões de infectados por um vírus que já havia sido prevista a chegada. São centenas de milhares em todo o mundo que perderam suas vidas fruto da existência de uma classe parasitária, que mesmo em meio ao caos e a miséria social, tem como único e exclusivo objetivo manter seus lucros.

A pandemia escancara a irracionalidade do sistema capitalista a todo dia porque mostra como a burguesia não é capaz de solucionar os problemas decorrentes de suas próprias ações, que durante anos prepararam um cenário catastrófico como o que estamos vivendo, em que países no continente africano não possuem insumos para produção de álcool em gel, e possuem apenas 1 respirador para milhões de pessoas. No centro do capitalismo, em seu reino imperialista, a situação é também devastadora. São milhares de mortos e a classe trabalhadora no centro do imperialismo mundial, hoje paga com suas vidas pelo descaso absoluto.
Isso porque, como em 1848 Marx já dizia,

“O Estado é o balcão de negócios da burguesia”

Sim, o Estado não se trata de uma casca vazia, passível de ser preenchida com qualquer conteúdo, hora da classe dominante, hora da classe explorada. Tampouco se trata de um instrumento de conciliação entre ambas as classes, que pode ser utilizado para mediar a relação entre elas igualmente.

O Estado capitalista é parte fundamental da dominação da burguesia, é seu balcão de negócios e está a serviço da manutenção de seu poder enquanto classe dominante, como ferramenta da exploração burguesa sob a classe trabalhadora. Por isso, apesar de propagarem nesse momento a "unidade nacional", não somente os operários não têm "pátria", como proclama o internacionalismo de Marx e Engels, como por trás dessa ideia se pressupõe a unidade de interesses irreconciliáveis, mostrando que a unidade nacional é vendida para mascarar e reforçar a opressão e exploração do proletariado, das mulheres, dos negros e LGBTs nesta crise.

Se durante anos os distintos governos por todo o mundo precarizaram e privatizaram a saúde pública, foi em nome das grandes empresas privadas de saúde e seguro, através de isenções e todo tipo de mecanismo que transferiram durante anos a fio o dinheiro público para o bolso dos capitalistas. Em meio a crise que tem como saldo mortes e mais mortes os governos seguem tendo como principal prioridade salvar os bancos e os capitalistas. Num país onde o número de mortes de trabalhadores da saúde já superou a soma entre Itália e Estado Espanhol, Bolsonaro já deixou bem claro: os lucros valem mais que as vidas e Guedes disponibilizou trilhões dos cofres públicos para os bancos, enquanto a população não tem direito sequer a testes para poder fazer seu isolamento de forma segura e as trabalhadoras da saúde são obrigadas a seguir trabalhando para salvar vidas, sem máscaras, sem luvas, sem EPIs, tendo que colocar suas vidas em risco todos os dias.

Enquanto isso, são milhares de jovens pelo país que tem que seguir em cima de uma bicicleta ou em frente à um PA, sem nenhuma proteção ou segurança frente ao vírus. Que trabalham incansavelmente todos os dias para chegar ao fim do mês sem o dinheiro necessário para sobreviver, que dirá manter as condições de saúde necessárias para combater a doença. Isso porque, fica a cada dia mais claro:

É a classe trabalhadora que move o mundo

O enorme contingente de trabalhadores em todo o mundo, provam a cada dia que o enfrentamento a pandemia só pode ser dado com os seus corpos na linha de frente. Dos hospitais, mas também dos transportes, dos mercados, de todos os serviços que são essenciais para a sobrevivência humana neste momento. Não é a burguesia, que, trancafiada em casa, segue fazendo o planeta funcionar para salvar vidas. São os trabalhadores que produzem tudo e, se é assim, a eles tudo deve pertencer.
Se toda a maquinaria e tecnologia disponível estivesse sendo usada a serviço de construir os equipamentos necessários para o combate ao vírus, ou seja, se a produção pudesse estar a serviço de atender as necessidades humanas e não a uma casta parasitária ávida para atender seus lucros, estaríamos com toda a certeza num cenário radicalmente diferente neste momento.

A centralidade da classe operária como a classe transformadora da etapa histórica em que vivemos, foi parte da contribuição dada por Marx e que se atualiza a cada dia, quando vemos a irracionalidade da forma como a burguesia tenta conter a pandemia. A burguesia, que forja armas para a guerra mais rapidamente do que testes e leitos, forja também a classe dos homens que podem manejar essas armas, parafraseando Marx, e superar de fato essa "pré-história" da humanidade. Por isso, “A história da humanidade é a história da luta entre as classes”

Se a cada dia fica claro que é a classe trabalhadora a responsável por mover o mundo, também é clara sua luta contra a exploração capitalista. Nos EUA, no México, no Estado Espanhol, na Argentina, na França, na Itália e mesmo no Brasil, onde há iniciais expressões de luta da saúde e da juventude mais precarizada dos aplicativos que mostram o potencial de fazer emergir esse sujeito, é possível ver tamanha força em diversas greves que acontecem pelo mundo, que reivindicam o direito à vida dos trabalhadores, que lhes é negado a cada dia.

Se essas ideias poderosas não encontrarem o sujeito que faz tudo mover, o que está cada vez mais reservado ao próximo período é que, diante da crise capitalista que se gesta em proporções ainda mais profundas, históricas, os capitalistas sigam buscando incansavelmente as mais diversas formas de extrair sua mais-valia e expropriar tempo de trabalho da classe trabalhadora que se torne acumulação de capital. Para isso, se é o "trabalho vivo" o decisivo, no próximo período, para seguir sustentando um modo de produção cujas condições históricas e sociais permitem que um punhado de uma dezena de capitalistas dominem o mundo, será o trabalho vivo, livre para a escravidão assalariada e livre também para arrancar de vez todas as correntes dessa sociedade, aquele que pode dar uma resposta.

Em seu “18 de brumário de Luís Bonaparte”, Marx dizia:

“Os homens fazem a sua própria história; contudo, não a fazem de livre e espontânea vontade, pois não são eles quem escolhem as circunstâncias sob as quais ela é feita, mas estas lhes foram transmitidas assim como se encontram.”

E é sob essas circunstância que está incumbida a nossa geração o grande desafio: Fazer seguir a roda da história e levar a frente o grande motor histórico da luta entre as classes antagônicas rumo à revolução social, única forma de libertação humana da sociedade, a luta por uma sociedade sem exploração, nem opressão, por uma sociedade sem classes. A luta por uma sociedade comunista, de produtores livremente associados, na qual a cada um seja oferecido de acordo com suas necessidades e recebido de acordo com suas capacidades.

A juventude deve colocar todas as suas forças para que essas ideias e o legado histórico revolucionário da classe trabalhadora, que tem expressões brilhantes como Karl Marx, sistemática e intencionalmente apagado e atacado pela classe dominante, possam de fato encontrar uma classe trabalhadora assolada pelos mais terríveis sofrimentos, seduzida por variantes da direita e da extrema direita que preparam ainda mais mazelas. Esse é o grande desafio histórico dos marxistas da nossa geração.




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