Há 155 dias do assassinato de Marielle: os indícios da podridão do regime político do RJ

A mais de 5 meses após assassinato de vereadora, há indícios que políticos da alta cúpula do PMDB do Rio possam estar envolvidos

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

quinta-feira 16 de agosto| Edição do dia

Na semana que passou completaram-se 150 dias do assassinato de Marielle Franco. Em meio ao tempo que transcorre nenhuma resposta sobre quem matou Marielle e porque é dada. Mas hipóteses cada vez mais escandalosas emergem. A última, que também veio à tona pouco antes dos 150 anos da morte de Marielle veio através de uma matéria publicada pela revista Veja, tratava de indícios do envolvimento de Picciani, Albertassi e Paulo Melo no assassinato da vereadora do PSOL. Algo que se for comprovado será um salto de qualidade no cotidianamente renovado caráter apodrecido do regime político no Rio de Janeiro.

Jorge Picciani, Edson Albertassi e Paulo Melo são parte dos pilares do PMDB no Rio de Janeiro, e estão presos por conta de denúncia de favorecimento e corrupção junto aos capitalistas dos transportes e empreiteiras. Estão detidos desde novembro de 2017 quando houve a revogação da liberdade concedida em votação pela Alerj. Jorge Picciani, que esteve diante da Alerj e era presidente do PMDB, foi uma peça chave no golpe institucional de 2016, passando de apoiador do governo do PT a golpista entusiasta. São nomes muito bem conhecidos no Rio de Janeiro quando se pensa em corrupção e em atuação em nome da manutenção de seus privilégios contra os interesses dos trabalhadores e do povo.

De acordo com a mesma reportagem a hipótese de que o centro do poder do PMDB no Rio esteja envolvido com a morte de Marielle já vinha sendo levantada desde junho, quando delegados que estariam à frente do caso e procuradores do Ministério Público Federal teriam feito uma reunião para tratar do envolvimento dos políticos do PMDB. Os indícios que sustentam essa possibilidade partiram de notícia veiculada no dia 11 de maio, primeiro pela Veja e depois por vários meios, de que as investigações apontavam para a participação de “políticos importantes” na morte de Marielle, algo que Raul Jungmann, ministro da Segurança Pública em entrevista à Globonews havia corroborado.

A motivação seria a atuação de Marcelo Freixo que por ter protocolado ação que levou a que o deputado Edson Albertassi pudesse concorrer à cadeira de conselheiro do Tribunal de Contas do Estado, o que faria com que seu processo judicial fosse remetido ao Superior Tribunal de Justiça de Brasília. A vantagem disso é que ali seria mais fácil se livrar de alguma condenação.

Desde então Picciani publicou uma nota na qual nega que esteja envolvido no crime, acusa Marcelo Freixo de tentar se beneficiar eleitoralmente do caso acusando o PMDB e diz que irá processá-lo. Freixo havia dado declarações pontuando que a principal hipótese envolvendo milicianos da zona oeste era duvidosa pois Marielle não tinha atuação ali. A repercussão também levou Jungmann a declarar hoje, dia 16 de agosto, que “está fora do caso Marielle”. Segundo ele a polícia do Rio de Janeiro negou a oferta de que a polícia federal investigasse o caso.

Não se pode confirmar ainda o envolvimento dos caciques do PMDB, que há anos usufruem das benesses por estarem à frente do estado do Rio de Janeiro, favorecendo seus aliados capitalistas, enquanto condenaram os trabalhadores e os povos carioca e fluminense a amargar índices crescentes de desemprego e miséria. Mas sabe-se amplamente que esses foram parte ativa do golpe que levou Temer ao poder, e a aceleração dos ataques que aqui no Rio de Janeiro se fazem sentir de maneira ainda mais dura, e que cinicamente foram parte da retirada do direito do povo e dos trabalhadores de elegerem quem quiserem, apesar de não apoiarmos o voto no PT, entre outras questões por terem sustentado Picciani, Albertassi e Paulo Melo por muito tempo, e por terem aberto o caminho à direita golpista.

O que se sabe sem sombra de dúvida é que hoje se completam 155 dias do assassinato de Marielle Franco, e não há nenhuma resposta. Isso é uma demonstração de que não se pode seguir na passividade, confiando na polícia e nesse mesmo Estado, que de forma direta ou indireta, não se pode dizer ao certo ainda, está envolvido nesse crime intolerável, seja o que irá elucida-lo. O melhor caminho para obrigar a que o Estado realmente investigue e puna os culpados é a mobilização. Mas ao mesmo tempo que devemos seguir exigindo que o Estado investigue e puna, não podemos deixar na mão somente deste Estado, que tem seus vínculos com o assassinato, o controle das investigações. Devemos exigir que o Estado garanta recursos e todas as condições para que uma investigação independente possa trabalhar, disponibilizando materiais, arquivos para organismos de direitos humanos, peritos especialistas comprometidos com a causa, parlamentares do PSOL, etc, que sejam parte da investigação. É fundamental também ligar a elucidação da morte de Marielle a necessidade de dar um fim à intervenção federal, que acaba com vidas de jovens e trabalhadores negros e pobres.




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