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Guerras comerciais e a vocação desestabilizadora de Trump

A trégua terminou para Donald Trump. Em poucos dias, abriu ao mundo novamente as janelas da tormenta comercial: reativará as tarifas sobre o aço à UE, ao Canadá e a México; abrirá investigação de segurança nacional contra a importação de automóveis (atacando a Alemanha); e sustentará a imposição de tarifas aos produtos chineses.

André Acier

Natal | @AcierAndy

domingo 3 de junho| Edição do dia

A abordagem comercial de Trump foi anunciada em um evento da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) pelo secretário de Comércio, Wilbur Ross: “A imposição de tarifas punitivas pelos EUA não é desculpa para que os países deixem de negociar conosco”.

A Casa Branca decidiu reativar as novas tarifas sobre o aço (25%) e o alumínio (10%) importado da União Europeia, México e Canadá que havia deixado em suspenso até esta sexta-feira, 1 de junho, com a finalidade de iniciar uma negociação que lhe valesse contrapartidas. Washington impôs estes ônus em março, mas isentou temporariamente os países citados, entre outros, enquanto buscava pactuar algum tipo de limitação a suas exportações, o que não vingou. As previsíveis represálias por parte da União Europeia beiram a guerra comercial, arruinando ainda mais as relações transatlânticas, em seu pior estado desde a Segunda Guerra Mundial.

Ademais, os Estados Unidos abriu investigação de segurança nacional sobre as importações de automóveis, pavimentando o caminho para tarifas de importação sobre os carros alemães, que conformam o coração da indústria germânica. A saída dos Estados Unidos do acordo nuclear com o Irã havia sido já considerado uma afronta pela chanceler Angela Merkel, cada vez mais constrangida a realizar reformas na União Europeia para que o continente arque os custos dos enfrentamentos diplomáticos e comerciais com os EUA.

Fruto disso, os ministros e financistas do grupo do G7 (excetuando-se os EUA, composto por Alemanha, França, Reino Unido, Japão, Itália e Canadá) soltaram comunicado comum de repúdio às tarifas de Trump sobre o aço, unanimidade que não garante respostas simultâneas mas indica o grau das relações das principais potências com Washington.

Wilbur Ross anunciou que os encargos entrarão em vigor neste início de junho. A administração Trump também colocará cotas ou limites de volume para outros países, como Brasil, Coreia do Sul, Argentina e Austrália.

Washington também deu por encerrado o cessar-fogo comercial com a China e advertiu que as tarifas pelo valor de 50 bilhões de dólares (187 bilhões de reais) serão impostas em 15 de junho. As negociações entre Ross e o vice primeiro ministro chinês, Liu He, não chegaram a qualquer acordo sustentável, e a narrativa da continuidade das conversas entre as duas maiores economias do mundo provavelmente se darão com farpas tarifárias.


Wilbur Ross e Liu He

Apesar da ira desatada em Pequim diante da renovada ameaça de Trump, o governo chinês fez concessões ao cortar as tarifas de importação de uma série de produtos de consumo e prometeu relaxar as restrições aos investimentos estrangeiros em setores como da energia e do transporte. Dificilmente, entretanto, a China aplacará a agressividade estadunidense sem abrir o setor bancário e as áreas vinculadas ao projeto “Made in China 2025” (que busca tornar a China um país dominante em 10 áreas de tecnologia de ponta, como veículos elétricos, semicondutores, etc.).

A China e os Estados Unidos anunciaram tarifas de forma recíproca para produtos pelo valor de U$S50 bilhões de cada lado e ameaçaram com rodadas ainda mais volumosas. Enquanto isso, os únicos efetivados até agora são esses comunicados em março e mencionados por Ross, sobre importações pelo valor de 6 bilhões de dólares (3 bilhões de cada lado). Afetam o aço e o alumínio chineses, por um lado, e carne de porco, certas frutas, vinho e tubos de aço que os EUA vendem, por outro. É uma cifra pequena em relação aos U$S630 bilhões que o comércio dessas duas potências movimentou no ano passado.

Assim, a virtù desestabilizadora de Trump lança uma guerra comercial simultânea contra aliados e adversários dos Estados Unidos. A desagregação dos acordos multilaterais e das alianças tradicionais é entendido por Trump como um fator que sublinha a preponderância dos EUA mesmo em sua decadência hegemônica (as tendências do nacionalismo econômico, de fato, se caracterizam por tratar os países como unidades, e não em blocos). Com a Europa, o sistema trumpiano de abrir as negociações com reféns sobre a mesa (com tarifas sobre produtos específicos já anunciadas e em seguida congeladas) não funcionou. Bruxelas indicou que desistirá de qualquer negociação comercial com os Estados Unidos se houver novas tarifas.

Limites da débil “recuperação sincronizada” de 2017

Esses conflitos comerciais simultâneos movidos por Washington não trazem boas notícias para o panorama econômico mundial, cujos sinais parecem contradizer os resultados da pálida “recuperação sincronizada” de 2017.

Segundo pesquisa da Fulcrum citada por Gavyn Davies, do Financial Times, no primeiro semestre de 2018 as taxas de crescimento da atividade econômica global se tornaram menos sincronizadas entre os países do que em 2017. A tração da atividade econômica global está sendo puxada pelos EUA e especialmente pela China (que volta a crescer entre 6-8%), mas especialmente distinta é a tendência na eurozona: o aspecto mais surpreendente da atividade econômica global no primeiro semestre de 2018 foi o repentino e persistente declínio da taxa de crescimento na eurozona e no Reino Unido.

O Reino Unido viu sua taxa de crescimento cair ao nível mais baixo em cinco anos: 1.7% em 2017. Ainda que mais atrás, não chega a se distanciar demasiado de economias maiores como a Alemanha, mas que não ultrapassou crescimento modesto de 2.2% (a França chegou a 1.9% em 2017). O Brexit (saída do Reino Unido da União Europeia) é um dos fatores explicativos para a queda do PIB britânico, mas na outra ponta, o persistente superávit em conta corrente da Alemanha começa se converter num acidente à vista, diante da possibilidade de redução das exportações automobilísticas alemãs pelas tarifas de Trump.

No início do ano, de fato, houve queda nas taxas de crescimento da atividade global, registrando em maio leve recuperação de 0,5% em média na interação entre os centros capitalistas e as chamadas “economias emergentes”. Como vínhamos expressando, a débil recuperação do ano anterior não pôde absorver os problemas estruturais ainda vigentes desde o estouro da Grande Recessão em 2008.

Acresce-se a isso os problemas que surgem para economias como Brasil, Argentina, Turquia e África do Sul, golpeadas – ainda que de maneira heterogênea – pela alta do dólar e as perspectivas de aumento da taxa de juros do Banco Central norte-americano (FED). O reacionário movimento da patronal dos transportes no Brasil e a crescente incerteza política projetam redução do crescimento do PIB, segundo a Fulcrum. Na Argentina, os altos índices de inflação e a desvalorização da moeda nacional são indícios de um fenômeno mais amplo que pode incidir sobre toda a América do Sul: se a revalorização do dólar se intensifica e estimula um fluxo de capitais mais intenso da periferia para o centro do capitalismo (com continuada queda dos preços das matérias-primas), os países dependentes e semicoloniais como Brasil, Argentina, África do Sul e Rússia, poderiam se tornar um novo elo débil da crise.

Segundo capítulo da crise do Mediterrâneo?

Os elos débeis na cadeia da eurozona, após a saída do Reino Unido da União Europeia, se localiza no Mediterrâneo, com a Itália e o Estado espanhol. A moção de censura que resultou na queda do primeiro ministro do PP, o direitista Mariano Rajoy, cujo partido está envolvido no caso de corrupção Gürtel, e a ascensão de Pedro Sánchez do PSOE ao governo, levou à queda da Bolsa de Madri e recoloca o país no caminho de novas eleições.


Matteo Salvini e Luigi Di Maio, líderes do novo governo italiano

Na Itália, o novo governo formado pelos partidos populistas de direita “Movimento 5 Estrelas” de Luigi di Maio, e a “Liga” de Matteo Salvini, não é bem visto pela Alemanha e as entidades financeiras de Bruxelas. O presidente italiano, Sergio Mattarella, havia vetado a nomeação de Paolo Savona para o ministério das Finanças, usando um dispositivo presidencial inutilizado desde 1945. A desconfiança europeia diante de um governo que se pretende a versão italiana do “America First” de Trump desenha por ora um gabinete que combina nacionalistas e tecnocratas, que busca frear a ideia da saída da Itália da eurozona, sem poder entretanto colocar freio na crise política do país, diante da evaporação dos partidos Forza Italia (Berlusconi) e o PSI.

Comércio à base de chantagens

As ofensivas tarifárias dos Estados Unidos demonstram debilidade do principal imperialismo do mundo no tabuleiro geopolítico, fruto de sua decadência hegemônica; as tendências nacionalistas na China ainda se fundam em bases econômicas incomparavelmente mais atrasadas frente ao poderio estadunidense, o que obriga o país a fazer concessões no jogo comercial. Estes choques comerciais, entretanto, se não chegam a conflagrações mais graves, seguem abrindo fissuras na ordem global neoliberal, que carrega as marcas do desgaste com a crise econômica de 2008. Seria ingênuo acreditar que não há intenções heterogêneas dentro do próprio governo Trump (Steven Mnuchin, Secretário do Tesouro, representa um setor mais globalista que Peter Navarro e Wilbur Ross). Uma convergência parcial entre o capital transnacional estadunidense com os setores “perdedores da globalização” não aparece no horizonte. O objetivo de Washington de mover uma guerra comercial de “todos contra todos” para estabelecer uma nova rodada de acordos bilaterais significa novos abalos na já frágil economia mundial.




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