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Guaidó com problemas: escândalo de corrupção na oposição de direita venezuelana

O "Governo interino" de Guaidó cambaleia em meio às fortes disputas entre Vontade Popular e o Primeiro Justiça (partido político da Venezuela). A trama de corrupção e o que estaria em jogo nas disputas de poder.

quinta-feira 5 de dezembro de 2019| Edição do dia

No autodenominado “Governo paralelo” de Juan Guaidó explodiram mais casos escandalosos de corrupção em somente dez meses de “mandato” do que em qualquer outro governo realmente eleito. Um verdadeiro recorde neste assunto, pois em geral só se começa a destampar essa caçarola passado bastante tempo. Para quem nunca teve as rédeas do Estado, mas sim o manejo de quantidades numerosas de dinheiro que chegaram em caráter de “ajuda”, é de fato um marco que ainda não havia sido superado.

“Parlamentares de vários partidos de oposição estiveram dispostos desde alguns meses a fazer por encargo procedimentos informais frente a organismos como o Ministério Público de Colômbia ou o Departamento de Tesouro dos Estados Unidos”. Assim começa um extenso informe publicado pelo site Armando.info onde é denunciado que um grupo de deputados da direita faziam procedimentos para dar impunidade a empresários supostamente vinculados com o chavismo e expostos por corrupção.

A novidade divulgada estes dias por Armando.info, se trataria de uma trama que já vinha ocorrendo desde começos de 2018. “O esquema inclui vários deputados da oposição, alguns deles integrantes da Comissão de Controladoria do parlamento nacional, na prática, a única instancia anticorrupção que opera na Venezuela com autonomia em relação ao chavismo governante”, destaca o informe citado.
No mesmo se expõe sobre como se deu a orquestração de todos os envolvidos: “As negociações entre Luis Parra [deputado do Primeiro Justiça, partido político da Venezuela] e Carlos Lizcano [empresário] foram constantes e deram lugar à conformação de um grupo informal de deputados de vários partidos de oposição, que se mobilizou a favor dos empresários colombianos e sua vasta rede de relações com chavismo, sempre em expansão desde 2013”. De tal maneira que em todo esse “esquema” aparece na trama os deputados da oposição Richard Arteaga e Guillermo Luces do Vontade Popular; Luis Parra, Adolfo Superlano, José Brito, Emilio Fajardo e Conrado Pérez Linares do Primeiro Justiça (PJ); e completando o clã estão Chaim Bucaram, Héctor Vargas e William Barrientos do Um Novo Tempo (UNT).

Como era de se prever, Juan Guaidó buscou rapidamente se distanciar reivindicando “investigação” colocando em “suspensão” alguns deputados, como se não estivesse ciente de todos estes esquemas, tal qual como fez no caso de Cúcuta. Mas rapidamente se mancha, pois enquanto acusa, imediatamente já reivindicam o que fez com todos os fundos de ajuda chegados do exterior. Lembre-se de que o caso denunciado pelo Panam Post caiu diretamente sobre Guaidó e parte de sua "equipe do governo" na Colômbia e na Venezuela, com particular ênfase nos militantes do Vontade Popular (VP). Não há guarda-chuva que o cubra do lamaçal.

Toda a trama é mais profunda, mas com o exposto é mais que suficiente para se dar conta de toda a podridão que se tece nesses partidos.

O "Governo interino" contra a parede

Desta vez, o escândalo de corrupção na oposição trouxe intempéries entre seus partidos. É que toda essa situação revelou uma luta de facas na oposição, que escalou até o mais alto do esquema do suposto “Governo interino”. Guaidó substitui “seu embaixador” na Colômbia, Calderón Berti, e este oferece una conferência de imprensa em Bogotá denunciando a corrupção dos enviados de Guaidó na Colômbia e, mais ainda, questionando a Leopoldo López, o mentor de Guaidó. Calderón Berti que sempre se manifestou contra os diálogos com o governo de Maduro, aponta abertamente: "O que acredito é que todos os grandes erros da oposição foram de responsabilidade das ações de Leopoldo López, que inexplicavelmente levaram a todos os partidos da oposição envolvidos. Que o quarto partido da Assembleia Nacional comprometeu os três primeiros, eu não entendo", e termina: " Quem inventou os diálogos por trás de todos os seus companheiros da oposição e da comunidade internacional? Ele, Leopoldo López. Que mostre a cara, que responda!”.
Berti estaria em aliança com Julio Borges, principal referencia do Primeiro Justiça, o outro partido com protagonismo principal na trama, mais dramático enquanto Borges é designado por Guaidó para as relações internacionais, algo como seu "chanceler". De fato, Leopoldo López Gil, pai de Leopoldo López y, no momento eurodeputado, dispara contra Borges: "E o que disse o chanceler Borges? Pilatos já morreu". Se suspeita que Borges estaria movendo suas peças para impedir a reeleição de Guaidó à presidência da AN no próximo janeiro.

A disputa se desenvolve ferrenhamente entre Vontade Popular (partido de Guaidó e Leopoldo López) e Primeiro Justiça (de Borges e Capriles Radonski), sendo dois dos principais partidos do chamado "G4" (mais AD e Um Novo Tempo) que hegemonizam a oposição de direita. Uma luta que corre água abaixo, pois os deputados em Caracas se acusam mutuamente em questões de corrupção: José Brito, deputado de PJ, "destituído" por Guaidó pelas acusações, ele desafia Guaidó a não deixá-lo entrar, o acusa de "imoral" e "corrupto", fala de uma "rebelião" de deputados contra Guaidó e de uma carta onde várias dezenas destes estariam pedindo contas ao "presidente interino" pelos recursos recebidos do exterior. Uma disputa interna que pode ter, se já não tem, grandes consequências sobre a própria unidade da direita de cara à renovação da diretiva da Assembleia, que corresponde em um mês, justo em seu momento de maior debilidade após a ofensiva de janeiro deste ano e sendo 2020 ano de eleições parlamentares.

Como sempre, as preguntas não param de vir. Por que justo nestes momentos é que se revelam estes novos escândalos? Esta vez, uma das fortes hipóteses é que um setor da oposição poderia estar divulgando a sujeira para bombardear os acordos que em silencio vêm sendo tecidos entre os partidos majoritários e o Governo de Maduro, tal como já se observou com a constituição do Comitê de Indicações para um novo CNE (órgão eleitoral).

No meio, está também a hipótese, como antecipamos acima, de impedir que Juan Guaidó seja ratificado como Presidente da Assembleia Nacional em 5 de janeiro para o próximo período legislativo e negociar novamente o que já foi pactuado. É claro que se Guaidó perde esse cargo perderia automaticamente o de “presidente interino” da Venezuela. Entre eles podem haver “golpes de Estado”.

Mas o que já é mais que claro é que entre os partidos da oposição patronal se vivem tempestades em momentos de definições políticas, como a de quem será o novo “presidente interino”, assim como seus políticas no início de novo ano político entrando já completamente debilitados. E neste recorrer de abalos sísmicos, as velhas raposas da Ação Democrática observam desde uma esquina como seus aliados-adversários na Assembleia se desmontam, o que faria pensar que de alguma maneira estariam “metidos” seja os queimando por baixo ou com outros truques, não se sabe, mais do que costuma tirar vantagem em situações semelhantes. Um novo membro de Ação Democrática presidente da Assembleia? Tudo está por se ver.
“#NoHayHuesoSano”: nenhum deles merece mais que o repudio do povo venezuelano.

Uma vez mais vemos como a podridão da corrupção reina por todos lados. Como escrevemos no artigo onde denunciamos o caso de Panam Post, “#NoHayHuesoSano [literalmente: não há um só osso saudável] : nenhum deles merece mais que o repúdio do povo venezuelano”. A verdade é que por onde se olhe, tanto no governo como na oposição de direita o que há são políticos profissionais para quem a administração dos recursos públicos é fonte de enriquecimento, de negócios e de desenvolvimento de suas respectivas tratadas.

Se algo ficou marcado no balanço do chavismo é ter propiciado um dos maiores e vorazes – talvez a maior festa de corrupção da historia nacional. Esquemas que tomaram os mais variados espaços do Estado e do manejo dos recursos, com volumes tão brutais, que estão no centro de muitas das calamidades do país.

A direita que levantou a bandeira contra a corrupção mostrou seu verdadeiro rosto, tal como o fez recentemente também com sua outra bandeira da “democracia” com o apoio descarado e aberto a repressão no Chile por parte de seu aliado Piñera e defendendo seu plano econômico repudiado amplamente pelo povo chileno. Assim como também seu apoio ao golpe de Estado na Bolívia que para impor-se se utilizou de uma brutal repressão e mais de 30 pessoas assassinadas.

É preciso denunciar toda esta podridão enquanto o povo sofre a maior das calamidades. Todo isto não faz se não reafirmar a necessidade de que a classe trabalhadora e os setores populares deem as costas a estes políticos patronais (e corruptos) que disputam pelo controle do país, e forjar uma alternativa própria. Dotar-se de una política própria, com independência de classe, para fazer pesar suas demandas e seus interesses, na perspectiva de conquistar um governo próprio dos trabalhadores e do povo pobre.




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