CORONAVÍRUS E LUTA DE CLASSES

Grupo paramilitar na Bolívia dá ultimato aos habitantes de K’ara K’ara na cidade de Cochabamba

Em comunicado difundido pela rede ATB Digital, reconhecida porta-voz da semi-fascista Resistencia Juvenil Kochala (RJK), deu um ultimato aos habitantes de K’ara K’ara para que retirem os bloqueios de seus protestos de fome, na rota do aterro municipal da cidade de Cochabamba. Fazemos um chamado urgente aos organismos de direitos humanos e às demais organizações sindicais, campesinas, indígenas, estudantis e de mulheres a repudiar a ação deste grupo.

sexta-feira 22 de maio| Edição do dia

As mobilizações e bloqueios na zona sul de Cochabamba, na rota que conduz ao aterro municipal de lixo, exigindo o fim da quarentena rígida e militarizada para que a população possa ganhar seu sustento, está se tornando um problema que tende a agravar a crise social, sanitária e política em curso.

O bloqueio de fome já dura nove dias e está gerando crescente tensão porque impede que o lixo da cidade de Cochabamba possa ser depositado no aterro municipal. O governo Áñez é absolutamente responsável por esta situação que obriga a população fazer ouvir-se desta maneira.

A aplicação de uma quarentena dura por parte do governo de Áñez sem ter adotado as medidas de biossegurança, ou os testes massivos que teriam permitido estabelecer o isolamento social de maneira científica e regulada, mapeando o desenvolvimento da doença para se isolar o vírus, se agrava após quase dois meses de quarentena, provocando o desespero de importantes setores populares que chegaram ao ponto de não aguentar mais a condição de fome.

Os bônus e subsídios concedidos por Áñez demonstram ser completamente insuficientes para cobrir as necessidades básicas de centenas de milhares de trabalhadoras e trabalhadores que já não têm como buscar alimentos, insumos e serviços de primeira necessidade como água.

Diante da gravidade da situação, o autointitulado Governo de transição respondeu com militarização e perseguição penal aos que foram detidos por descumprir a quarentena, fomentando assim as manifestações de repúdio e insatisfação com um governo que também evidencia absurdos casos de corrupção.

Desde que Áñez assumiu como presidente autoproclamada, em seus seis meses de gestão as denúncias de corrupção não pararam de vir à tona, como nos casos das empresas ENTEL e YPFB, assim como determinações que foram amplamente rechaçadas como o decreto supremo que autoriza a entrada de transgênicos no país, ou as violações sistemáticas aos direitos humanos e à liberdade de expressão.

Nas últimas horas, diversos veículos de imprensa denunciaram que o intermediário na compra estatal de 170 respiradores básicos embolsou uma “propina” de quase 3 milhões e meio de dólares. Os respiradores adquiridos pelo Governo boliviano teriam um preço de aproximadamente 8 mil dólares, mas foram comprados por um sobrepreço de 28 mil dólares cada.

Toda esta situação é o que vem fazendo setores cada vez maiores da população trabalhadora, campesina e dos bairros populares a manifestar sua indignação e a exigir como parte de suas demandas a convocação imediata de eleições nacionais, como se viu na cidade de El Alto, em Macha na região norte de Potosí, em K’ara K’ara na cidade de Cochabamba, e nos bloqueios em Yapacaní no departamento de Santa Cruz.

Em meio a este conflito, começaram a se ouvir ameaças por parte da juventude racista da resistência juvenil Kochala (RJK), que dão um ultimato aos habitantes da zona sul de Cochabamba.

A RKJ é um grupo paramilitar e semifascista que se destacou por sua atuação durante o processo constituinte de 2008, com o assassinato de dois campesinos na cidade de Cochabamba e, mais recentemente, durante o mês de outubro e novembro de 2019, ganhou notoriedade ao constituir-se como vanguarda do motim direitista que, junto a forças policiais, dedicou-se a aterrorizar a população trabalhadora do vale com agressões racistas a mulheres com vestimentas tradicionais indígenas e a setores humildes da população de Cochabamba.

Hoje, cinicamente ameaçam os habitantes de K’ara K’ara chamando-os de “irmãos” e expressando uma suposta preocupação com os focos de infecção que poderiam se gerar em Cochabamba, enquanto não dirigem uma palavra à frouxa quarentena que seguem os ricos e todo o entorno governamental – aos trabalhadores e povo pobre, é imposta a balas uma quarentena de fome.

Nos lembremos que logo após a renúncia sem luta por parte de Evo Morales e do MAS, em 10 de novembro, e tendo se consumado o golpe de Estado, este grupo colaborou com a ação militar e policial no massacre de Huayllani em 14 de novembro, em Sacaba-Cochabamba, que deixou uma dezena de companheiros campesinos assassinados.

Diante desta situação, o MAS, com seus 2/3 do parlamento, continua colaborando com o regime golpista quando rapidamente poderia, graças à sua absoluta maioria parlamentar, aprovar um imposto às grandes fortunas dos empresários e agroindustriais que financiam e alimentam grupos como a RJK, e utilizar essa verba para financiar um auxílio de quarentena a toda população negligenciada do país.

O MAS chama a esperar as eleições que não se sabe quando serão e que os golpistas não têm intenção de convocar, enquanto os setores mais humildes e precários da população necessitam de medidas urgentes e radicais hoje.

Urgente chamado às organizações de direitos humanos, sindicais e políticas a repudiar as ameaças paramilitares

Diante das novas ameaças deste grupo delinquente que atua sob o amparo das “forças da ordem” e do Governo – quem lhes entregou motocicletas logo após o golpe de Estado –, e que pré-anunciam novas e graves situações de violência contra as e os trabalhadores e o povo de Cochabamba, chamamos urgentemente as organizações operárias do país, e principalmente de Cochabamba, e também aos organismos de direitos humanos, organizações sociais, campesinas, estudantis, de mulheres e indígenas a repudiar com força estas ameaças.

É urgente utilizar todos os recursos necessários para impedir que esta cavalaria motorizada possa avançar em seus planos de agressão contra os habitantes de K’ara K’ara, que unicamente exigem seu direito de trabalhar e se alimentar.

Chamamos a URMA (Unión Revolucionaria del Magisterio – colateral sindical do Partido Obrero Revolucionario, o POR boliviano) a romper com sua política de neutralidade conivente com as manifestações persecutórias por parte destes grupos racistas e religiosos que apoiaram o golpe de Estado e as chacinas em Ovejuyo, Sacaba e Senkata, e colocar as forças organizadas do magistério à serviço da luta operária, campesina e popular, corrigindo urgentemente sua política de alinhamento com o campo golpista que sustenta até o dia de hoje.

Publicado originalmente no La Izquierda Diario Bolívia




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