Teoria

Grupo de Estudos Marxista de Férias: O Legado Histórico do PT

segunda-feira 9 de julho| Edição do dia

O Grupo de Estudos Marxistas está rolando durante as férias de julho, na UFRN. Todas as quartas, pela manhã, busca-se analisar a luta de classes no atual contexto de aprofundamento da crise capitalista. No Brasil, os efeitos de tal conjuntura escancaram ainda mais a desigualdade social e nos faz compreender a “necessidade” imposta de reformas antipopulares por parte de um governo golpista ilegítimo.

Porém, para pensar no presente, precisamos primeiro analisar o passado e compreender os processos que nos levaram até esse ponto. Seguindo essa premissa, debatemos no primeiro encontro do dia 4 a história e o legado do PT. O papel e a atuação do partido antes e hoje na luta de classes, assim como o seu surgimento no fim da ditadura militar, é importante para entender o contexto político brasileiro e pensar em uma alternativa de esquerda que supere a ideia de conciliação de classes e que não esteja aliada a interesses burgueses.

Retomamos tanto o seu histórico quanto às suas concepções. Ideais que levaram os governos petistas a serem os que mais pagaram a dívida pública. É interessante observar também o fato de terem até mesmo perdoado os golpistas após a deposição Dilma em 2016.

Baseando-se nisso, podemos afirmar que sua atuação está baseada em duas ideias: a confiança na institucionalidade burguesa, e no fronte, a total separação da luta pelas demandas corporativas (salário, condições de trabalho, etc) das demandas políticas, atuando contra a democracia de base no movimento operário.
Nos últimos anos da década de 1970 a atividade dos trabalhadores chegava ao seu auge, não apenas quantitativa, mas qualitativamente. As greves operárias na região do ABC paulista e em São Paulo ganham contornos que extrapolavam as meras reivindicações econômicas, apesar do controle exercido pelas direções sindicais reformistas. O auge operário entre 1978-80 e sua radicalização política colocava os trabalhadores na condição de derrubar a ditadura militar e conquistar o poder político.

Florestan Fernandes definia que a “greve de 1978 efetuou uma ruptura, que punha o grande capital, a contrarrevolução e seu governo ditatorial de um lado, os operários e o movimento sindical de outro”; ao lado dos operários, que desenvolviam uma tendência à hegemonia social e política na luta contra a ditadura, estavam todos os setores médios insatisfeitos.

Em 1980, as greves são reprimidas pela polícia, levando à prisão os dirigentes sindicais. Surge daí um enorme movimento de solidariedade aos trabalhadores grevistas por parte da população, que realiza coletas de dinheiro e alimento em auxílio às famílias operárias, além de eventos culturais em apoio aos metalúrgicos.
Em detrimento disso, e contra estas perspectivas nascentes da aliança dos trabalhadores com a população, a estratégia de Lula, que encabeçava os “sindicalistas autênticos”, durante o ascenso operário foi de conciliação de classes, e se baseou em não desestabilizar o projeto de transição pactuada da burguesia nacional, que não aceitava de forma alguma que fossem os trabalhadores que derrubassem a ditadura.

A ditadura decidiu que não iria cair pela luta da classe trabalhadora e ao abafar os movimentos operários o partido garantiu a transição “lenta, segura e gradual” que os generais tanto queriam. A convocação da Constituinte foi feita por dentro do plano de evitar uma ruptura integral com a tutela da ditadura, mas também como foi articulada com a manutenção do Poder Executivo na figura de José Sarney, ícone da ARENA, partido que desde 1965 dava sustentação à ditadura militar. Foi, assim, um desvio das mobilizações que poderiam ter dado outra saída política, de ruptura com o capitalismo, à saída da ditadura.

Nos anos 90, na Greve dos Petroleiros de 1995, existiu a chance de enfrentar o neoliberalismo representado por FHC na presidência, mas o PT por meio da CUT decidiu novamente atuar para passivizar e imobilizar. E nesta década, aprofundou o afastamento da base da organização das decisões dos parlamentares, abandonando demandas que ainda que adaptadas, faziam parte das necessidades da classe trabalhadora.

Quando finalmente chegou ao poder em 2002, nesse momento o único objetivo do partido, um trio foi o que mais se beneficiou com o governo lulista: o agronegócio, os bancos e as empreiteiras. E foi também um trio que garantiu a imobilidade das massas: crédito, consumo e conciliação. A receita incluiu todo espaço possível para as figuras mais reacionárias do Regime, em troca da governabilidade, ato que resultou no golpe - assimilou a forma de governar da burguesia e sua corrupção, intrínseca ao Estado Burguês.

O juiz Sérgio Moro, famoso paladino da Lava Jato, treinado pela CIA e casado com uma advogada da Shell cumpre junto a setores da burguesia diretamente ligados ao imperialismo norte-americano e ao agronegócio, um papel reacionário. Com o decorrer da crise capitalista e o esgotamento do crescimento econômico, a burguesia quer ajustes mais profundos contra os trabalhadores, num ritmo que o PT não foi capaz de operar. Assim, o judiciário e a Lava Jato entraram em ação, abrindo espaço para privatizar a Petrobras e substituir um esquema de corrupção com a cara do PT por outro esquema com o rosto da direita.

Os ataques aplicados pelo PT não cumpriam o ritmo necessário para satisfazer os interesses de uma parte da burguesia nacional, nem do imperialismo. Então, que caísse Dilma.

O golpe aconteceu para aplicar ajustes ainda mais duros em cima da classe trabalhadora, mas não porque o PT não defendesse a burguesia. E assim foi sequestrado o voto, o mínimo direito de participação da população na democracia burguesa. Neste ano, avançaram também para prender Lula de maneira arbitrária e assim sequestrar o direito de decidir em quem votar, porque alas do imperialismo e determinados setores da burguesia nacional querem o “modelo Lula” de ajuste fora das eleições.

Não pode ser prometendo ajustes diferentes que enfrentaremos o imperialismo e a direita golpista, temos que pensar em uma solução que atente para o protagonismo da classe trabalhadora, unida a juventude. Na criação de um partido revolucionário que batalhe para que os capitalistas paguem pela crise, com uma política anti-imperialista e de independência de classe, na perspectiva de um governo dos trabalhadores de ruptura com o capitalismo. Pois, como a história bem nos mostra, a conciliação petista nunca foi solução, apenas máscara para a perpetuação do poder baseado na exploração. A classe trabalhadora precisa ter consciência disso e direito a conhecer a sua história.

Lula não deveria ter sido preso pelo autoritarismo judiciário; deveria participar das eleições. Entretanto, sabemos que o PT, que assimilou a corrupção e os ataques dos capitalistas contra os trabalhadores, se tivesse Lula eleito, aplicaria ajustes ainda mais duros que os aplicados por Dilma em 2015. Gleisi Hoffmann e o próprio Lula buscam fazer as pazes com os golpistas do judiciário e seus políticos para convencer os empresários de que podem aplicar reformas para que nós paguemos pela crise.
Precisamos superar pela esquerda a tradição da conciliação do PT, construindo uma força material dos trabalhadores com independência de classe frente a todas as variantes patronais e burocráticas, que hoje no Brasil batalhe contra a reforma trabalhista, as privatizações de Temer e para que a população possa votar em quem quiser. Ou seja, não uma alternativa meramente eleitoral, divorciada das massas, mas sim uma força ativa nos locais de trabalho e estudo, correntes revolucionárias no interior dos sindicatos e no movimento estudantil, que tenham força para superar os obstáculos colocados pela burocracia petista para enfrentar a continuidade do golpe institucional com a força da mobilização independente dos trabalhadores e da juventude. É a serviço dessa batalha que o MRT e o Esquerda Diário se colocam.

Na próxima semana, excepcionalmente na quinta-feira (12), trataremos desse acesso a história e a teoria que foram historicamente negados a classe trabalhadora. Pensar no papel de acesso e da função das universidades na sociedade é ter consciência de que a juventude pobre e negra é barrada desse lugar quando tem que se submeter a um processo de peneira social e que todo o conhecimento que ali se produz, com raras exceções, se mantém em seus muros, impedindo aqueles que a bancam de nem sequer usufruir do conhecimento produzido.




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