Internacional

Greves selvagens nas montadoras do norte do México para sobreviver ao Covid-19

Este é o terceiro momento de um movimento trabalhista industrial na maquila fronteiriça [1]. Tudo começou em 2016, com o movimento em Ciudad Juárez, nas empresas Foxconn, EATON Bussman e Lexmark. A fronteira está se tornando a Lombardia do México. Em cidades como Tijuana, os mortos por Covid 19 já estão sendo enterrados em valas comuns, esse movimento dos maquiladores [2] é pela vida.

Sergio Moissen

Dirigente do MTS e professor da UNAM

sexta-feira 24 de abril| Edição do dia

Esse movimento se inspirou nos protestos que eclodiram em Matamoros, em janeiro de 2019, com greves que exigiam 20% de aumento sobre o salário e um bônus de 32 mil pesos anualmente.

Greves selvagens, espontâneas, sem direção. Como em uma revolta, os trabalhadores se unem e exigem explicações sobre o Covid 19 aos líderes da linha de produção e aos executivos dos recursos humanos.

As maquilas se tornaram um foco de infecção pelo novo vírus. Em Ciudad Juárez, por exemplo, metade dos mortos pelo vírus eram trabalhadores dessas fábricas. Somente na empresa LEAR são registradas 13 mortes. Na Edumex, forçam as mulheres grávidas a continuar trabalhando. Na Electrocomponentes, obrigaram os empregados a trabalharem com 50% de seus salários.

Há protestos em fábricas de Tijuana, de Mexicali, de Reynosa, de Ciudad Juárez e de Matamoros. O componente da luta é a demanda para sobreviver aos surtos da doença que está na fase 3. Em Mexicali, há movimentos em fábricas como a Creation Technologies, a Clover Wireless, a Honeywell, a Pantronics e a Skyworks, onde começou a luta dos trabalhadores na cidade.

Em Matamoros: na Eletrocomponentes, na Trodinex, na Autolive, na VDO, na Novalink e em outras há o descontentamento e a luta dos trabalhadores.

Em Tijuana, nas fábricas de Legrand e Hyundai. Em Reynosa, na empresa Teleplan, houve um movimento que exigiu o fechamento da fábrica "não vale a pena continuar produzindo pela ambição". Na Kemet, de Ciudad Victoria, uma parada de trabalho foi registrada para exigir o pagamento de 100% sobre a produção.

Em Durango, eles denunciaram a empresa Bull Demin, onde também ocorreram paralisações no trabalho, os trabalhadores que ganhavam 800 pesos por semana, receberam apenas 500; os que recebem 2.500, só 1.700.

Os empregadores buscam justificar esses cortes com a contingência sanitária, devido à expansão do Covid-19. Pelo menos 50% das empresas maquiladoras deixaram de produzir em 28 de março e não há notícias se haverá mais pessoas desempregadas tendo a crise como justificativa.

Em Yucatán, na maquiladora alemã Leoni Wiring Systems, que é dedicada à fabricação de chicotes para a indústria automotiva, recusou-se por vários dias a interromper as operações "apesar de ter pelo menos quatro casos confirmados de trabalhadores com COVID-19".

Em Reynosa, na maquilha Hutchinson, a trabalhadora Ivonne Guadalupe Lavalle Mora comentou que houve demissões em massa, apesar de estarem dispostas a trabalhar com um salário de até 70%. Nas indústrias de BBB (plantas 1 e 2), NVent (anteriormente Hoffman de México) e DLH também houveram protestos dos trabalhadores.

São protestos muito semelhantes a uma revolta: agrupados em massa, para enfrentar os chefes imediatos exigindo que os mandem para casa. Eles não pedem muito, não pedem coisas impossíveis de fazer, pedem que suas vidas sejam tratadas com dignidade.

O movimento busca interromper a produção industrial com o pagamento de 100% dos salários para sobreviver à pandemia: não é mais do que justo, eles querem viver e se cuidar.

As empresas não querem parar a produção e os trabalhadores estão morrendo. Em Ciudad Juárez, 29 trabalhadores morreram. Na Baja California, existem casos confirmados em 60 fábricas. Em Tijuana, 40 trabalhadores de maquiladoras estavam doentes e três morreram devido à pandemia.

Os empregadores não apenas não se importam com a saúde dos trabalhadores. As empresas querem ganhar a todo custo, porque podem reduzir os salários dos trabalhadores. Também é difícil saber se eles receberam 100% dos salários, pois isso depende muito da denúncia dos trabalhadores. Em lugares como APTIV, em Ciudad Victoria, o salário foi reduzido em 50%; no Lear de Rio Bravo, em 100%.

70% das empresas continuam trabalhando em toda a faixa de fronteira. Nas de capital norte-americano, a exploração de trabalhadores é absurda e ultrajante.

As empresas não cumpriram as medidas sanitárias do governo mexicano que "recomendavam" a suspensão de atividades não essenciais. Por isso, é cada vez mais urgente olhar para outras experiências. As empresas que não interrompem a produção ou que demitem seus trabalhadores devem ser expropriadas, nacionalizadas, sob controle dos trabalhadores com utilidade social.

Artigo originalmente publicado no Esquerda Diário México

Nota da tradução:

[1] As maquilas mexicanas são indústrias montadoras, situadas em zonas francas, que importam materiais sem impostos, e os vendem para outros países.

[2] Como os trabalhadores das maquilas (motadoras são chamados, no México.




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