Juventude

RETORNO DA LUTA DE CLASSES

Greves na França: estudantes da UFMG e professores reúnem para refletir sobre o processo

Militantes da Faísca UFMG e do Esquerda Diário realizam atividade para discutir os ventos e as lições dos trabalhadores da França em greve desde o dia 5 de dezembro.

Lina Hamdan

Estudante de Artes Visuais na UFMG

segunda-feira 3 de fevereiro| Edição do dia

Na última terça (28), professores da rede pública e estudantes se reuniram na Faculdade de Direito da UFMG para uma estimulante troca sobre o processo de lutas sociais em curso na França. Mais um processo que evidencia que, frente aos fenômenos internacionais, é de extrema importância enxergar as batalhas geopolíticas entre os Estados-Nações e os fatores econômicos sempre à luz da existência ou da ausência de lutas de classes, tanto no marco de uma passividade geral quanto no marco de explosões nos movimentos de massas nacional e internacional.

A ideia da atividade, organizada pelos ativistas do Esquerda Diário e militantes da Juventude Faísca, foi dar um panorama do processo, tentando localizá-lo histórico e internacionalmente, tirando algumas primeiras lições para os trabalhadores e estudantes brasileiros de uma greve que já é a maior na França desde o histórico maio de 68.

A base da classe trabalhadora em cena

Na atividade, como desenvolvido no texto, ressaltamos que os trabalhadores organizados quanto classe são o principal sujeito político do processo, principalmente dos chamados "setores estratégicos", usando o seu método histórico de luta, com greves e piquetes, diferentemente de outras lutas em que os trabalhadores se encontram "dissolvidos" no povo, sem uma consciência e atuação metodológica de classe. Neste processo, há um avanço considerável em parte dos atores em luta na consciência da necessidade de superação das direções sindicais burocratizadas e de auto-organizar a deliberação do rumo, das demandas e das ações de greve pelos próprios trabalhadores para conseguir seus objetivos. Isso devido ao fato de que a base de diferentes categorias está muito mobilizada e à frente de suas direções sindicais.

Também evidenciamos a importância da existência e atuação de um grupo político, como um primórdio de um partido de trabalhadores e estudantes, e uma mídia online militante que buscam evidenciar o caráter político contra um governo e um regime da luta em curso, e não um caráter meramente sindical. Agindo dentro dos locais de trabalho e nas manifestações dos grevistas, a Corrente Comunista Revolucionária e o portal Revolução Permanente (irmãos do MRT e do Esquerda Diário brasileiros) estão a serviço não de manobrar os grevistas, mas de atuar com e para estes, com objetivo de impulsionar o próprio movimento dos trabalhadores a conseguirem seus objetivos, pensando a cada instante ações que levem a greve para um resultado vitorioso.

Leia mais: O papel de um diário militante, no caso, o Révolution Pérmanente(site francês da rede internacional La Izquierda Diario), para contribuir para a massificação e generalização da greve, foi noticiado por uma outra mídia francesa, o Arrêt sur Images. O Esquerda Diário, traduziu a reportagem aqui.

Saiba mais como contribuir e militar em uma mídia internacional de esquerda.

A greve atual, cuja principal demanda é contra a tentativa de contra-reforma da previdência do governo de Macron, dura mais de 50 dias e teve, até agora, os trabalhadores dos transportes como sua vanguarda mais dura, setor que veio mostrando ter tirado importantes lições dos últimos processos de lutas de classes no país e no mundo, tanto das derrotas dos últimos anos, quanto dos desequilíbrios causados no governo Macron pela luta dos Coletes Amarelos no final de 2018.

Resposta à crise e a anos de neoliberalismo

É preciso localizar a luta dos trabalhadores franceses dentro de um cenário de retorno da luta de classes no plano internacional contra a deterioração das condições de vida após décadas de neoliberalismo.

Nesse cenário, a França se mantém como uma das maiores economias do mundo às custas da exploração não só de seus próprios trabalhadores, que são cada vez mais precarizados, plurinacionais e de descendência imigrante, mas também da sua atuação imperialista explorando trabalhadores principalmente da África, com suas multinacionais como a petroleira TOTAL.

Junto a esse avanço econômico do neoliberalismo no mundo todo, é de se pensar que, pra ter bases para ser consolidado, foi necessária uma investida ideológica capaz de gerar um consenso mais ou menos consolidado de que não há outra saída além do capitalismo mais selvagem, de que este sistema econômico sempre consegue superar uma organização contra ele e que, tendo fragmentado e alterado as características da classe trabalhadora, esta não teria mais forças de contrapor a esse sistema uma outra perspectiva de sociedade.

Portanto, foram elaboradas, ao longo dos últimos 40 anos, diferentes teorias que vão dar conta de reduzir a consciência de classe dos trabalhadores enquanto sujeito social e político. "A classe trabalhadora morreu".

O processo na França se ergue como um franco questionamento a essas teorias pós-modernas: com toda a sua fragmentação e desafios contra a sua organização, a classe trabalhadora segue existindo e cumprindo seu papel central na economia, fazendo a sociedade funcionar. Segue nos transportes, nas fábricas, nos serviços e, portanto, carrega sobre suas mãos a capacidade de causar fissuras profundas na ordem capitalista e de construir nossa emancipação. Carregam uma potência estrondosa quando decidem por si mesmos atuar com o seu principal método de luta que é a greve, que é dar prejuízos para as empresas e para o Estado mediante a paralisação efetiva de seu trabalho.

O cenário atual se completa localizando que estamos há mais de uma década arrastando uma crise (2008) que exige dos Estados arrancar cada gota de suor dos trabalhadores para conseguir manter alguma taxa de crescimento econômico.

Sem que as burguesias nacionais tenham margem de manobra pra dar concessões para as populações, setores de massas começam a questionar suas condições de vida e de futuro. Como resposta, vemos surgir no pós explosão da crise dois ciclos de luta de classes em que percebe-se explosões em vários pontos do mundo de processos de lutas questionando seus governos, mas com primazia das revoltas, ou seja, sem a emergência de um objetivo de substituir a ordem dominante e sim apenas um intento de pressioná-la para obter algo.

Saiba mais: http://esquerdadiario.com.br/Teoria-e-pratica-revolucionaria-depois-do-fim-das-ideologias

O primeiro desses ciclos, que tem como exemplos os processos de greves na Grécia, a Primavera Árabe, o movimento dos Indignados na Espanha e o próprio junho de 2013 no Brasil, tem como principal sujeito político setores da população que viram sua esperança de “subir na vida” frustrada pelas consequências da crise e de governos que começaram a aplicar ajustes econômicos, como o PT em sua época. Estas revoltas levaram ao surgimento de fenômenos políticos populistas tanto de direita quanto de esquerda, como o Syriza na Grécia, e foram desviadas, no marco da manutenção da crise de hegemonia neoliberal.

Já o segundo destes ciclos internacionais de luta de classes é onde nós encontramos neste exato momento. Se inicia com o processo dos Coletes Amarelos na França, no final de 2018, e tem como sujeitos primordiais o que podemos chamar de "perdedores absolutos" do pacto neoliberal iniciado na década de 70. São aqueles setores da população que foram marginalizados, ao longo de décadas, dos centros urbanos, desempregados e muitos trabalhadores jovens com trabalhos precários, aqueles que mais sofrem com o desmantelamento do serviço público - sujeitos bastante permeáveis à radicalização. Além da França, explodem mobilizações na Catalunha, em Hong Kong, no Sudão, na Argélia, no Líbano, no Irã, no Iraque, no Equador, no Haiti, na Índia e, de maneira bastante explosiva e persistente, no Chile.

Dentro desses fenômenos, é importante dedicar uma atenção aos Coletes Amarelos que é um processo que indica sinal de brechas no domínio consensual burguês em um país central como a França e que abre caminho pra gente entender o surgimento de todo esse quadro de revoltas internacionalmente, que culmina hoje com essa histórica greve.

O gatilho que faz explodir o movimento dos Coletes Amarelos foi o aumento do combustível. Não à toa. Os sujeitos revoltosos são os principais afetados pelo desmantelamento das malhas ferroviárias e serviços públicos, por isso, dependem do carro para ir trabalhar, fazer compras cotidianas, ir ao posto médico. A maioria não é sindicalizada, nunca atuou de maneira organizada; foram invisibilizados por décadas e são alvo de descarado repúdio da burguesia, bastante personificado na figura de Macron. Suas experiências nas últimas décadas foram um caldeirão que alimentou uma radicalidade que rapidamente transformou o questionamento social contra o aumento do óleo diesel em um questionamento político anti-regime: Fora Macron.

Os trabalhadores, apesar de serem maioria do movimento, que também contava com pequenos proprietários e setores da classe média, atuam de maneira dissolvida, na medida em que eles próprios se intitulam “o povo”, “os franceses”, “cidadãos” etc, característica que se repete nas revoltas que se iniciaram quase um ano depois no Chile.

O movimento, cuja metodologia se dava através da ocupação de trevos rodoviários e de massivas manifestações de ruas aos sábados, não chegou a afetar a produção; apenas a circulação e o consumo. Durou muitas semanas (ocorre até hoje, apesar da reduzida adesão), com muitos focos em todo o país, e se destacou por sua radicalidade, com os manifestantes passando por fora das vias “instituídas”, com atos ilegais e grande questionamento aos aspectos burocráticos das tradicionais direções sindicais e de partidos políticos, vistos, em geral, como não interessados na vitória das demandas do movimento e sim como manipuladores de massas.

O governo, sem margem para conter e manobrar através de mediadores, como os sindicatos, respondeu com uma repressão que há muitos anos não se via em países centrais como a França, ultrapassando números coercitivos de maio de 68. Prisões, feridos, mutilados, mortos. A radicalidade, apoiada pela grande maioria da população francesa, expressa um novo nível de consciência geral: pelas vias passivas e negociadas com o regime não se conquista nada, não há margem alguma para qualquer vitória.

A burguesia e seus representantes no executivo e no parlamento morreram de medo. Rapidamente, o governo foi obrigado a recuar e fazer pequenas e parciais concessões. Uma vitória que para os setores mais conscientes da classe trabalhadora foi uma grande lição: as derrotas recentes em suas últimas greves foram causadas porque sua lutas estavam controladas por direções que não estão lutando pela vitória e sim para pressionar por migalhas e por seus próprios interesses.

A atuação dos sindicatos e da maioria dos partidos de esquerda no fenômeno dos Coletes Amarelos dá conta de evidenciar isso: ao invés de se colocarem a serviço de amplificar a luta e colocar os trabalhadores parando a produção como centro do movimento dos coletes amarelos, batalhando pelas demandas dos “cidadãos”, se apartaram e duvidaram do movimento, porque sabiam que havia ali uma chama de questionamento à sua atuação burocrática. Não iriam conseguir controlar o movimento, por isso, não o fortalecem. A mesma direção que na greve contra a reforma ferroviária em 2018, na lógica de pressionar o governo para meramente negociar, organizou greves de dois dias a cada cinco e levou à derrota e aprovação da lei de retirada de direitos históricos dos ferroviários, isolou os Coletes Amarelos, os condenando à repressão de Macron e ao desgaste.

Mesmo sem o apoio das direções sindicais, na base de trabalhadores sindicalizados havia gigante apoio passivo aos Coletes Amarelos. Estes haviam tomado em suas mãos demandas que as direções dos sindicatos já haviam há tempos abandonado, como o aumento do salário mínimo, o retorno do imposto sobre fortunas, a redução dos salários de políticos, a maior e mais direta participação política.

Devido ao grande questionamento às burocracias sindicais e partidárias e ao baixo controle do movimento por esses setores “tradicionais”, que na França são historicamente muito fortes, abre espaço no movimento dos Coletes Amarelos para elementos de auto-organização, que não haviam surgido nem mesmo nos eventos de 1936 e de 1968 no país, devido a atuação de partidos como o PCF [Partido Comunista Francês].

Os coletes amarelos se reuniam em assembleias a partir de uma divisão geográfica (em contraposição às assembleias da greve atual que se dão por local de trabalho) e nelas definiam por si mesmos os rumos de sua luta, suas demandas, seus métodos e também seus representantes. Uma coordenação nacional chegou a ser impulsionada de forma rudimentar, com a Assembleias das Assembleias, mas que não chegou a se desenvolver com força hegemônica do movimento e acabaram não indo pra frente.

Disso tudo, uma lição é imprescindível: quando os atores de uma mobilização social estão desconectados de uma direção burocrática e contrária a seus próprios anseios, surgem elementos de auto-organização porque percebem a necessidade de organizar os diferentes setores em luta e suas diferentes demandas de maneira coordenada para conseguir seus objetivos.

Mas essa “desconexão” com a burocracia não se dá de maneira espontânea. Este fenômeno coloca com grande evidência a necessidade de uma militância organizada e consciente que combata, nos corpos de organização de massas, como sindicatos e entidades estudantis, os aspectos burocráticos e negociadores de direitos de suas direções, e que batalhe por aspectos de auto-organização dos trabalhadores e dos estudantes, para que a base seja quem defina o caminho da luta.

Um dos pontos que merecem atenção do processo, é a organização de um pequeno comitê que busca reunir diversos setores em luta, como os ferroviários, coletivos anti-racistas e militantes partidários. O objetivo: colocar os trabalhadores no centro da luta e fortalecer a organização dos manifestantes em prol de que todas as demandas tenham espaço de voz e decisão, batalhando contra as burocracias que dominam o movimento operário.

Há nesse aspecto tanta importância, pois está aí a possibilidade de superar a fragmentação da classe trabalhadora e desta ter uma política hegemônica na medida em que pode haver uma coordenação de todas as demandas dos diferentes setores em luta, sejam imigrantes, negros, desempregados, estudantes, feministas etc.

Veja aqui mais conclusões sobre o processo dos Coletes Amarelos.

A legitimação da violência dos Coletes Amarelos evidenciou a necessidade da radicalidade nos métodos para romper com a tranquilidade dos governos que montam em cima dos trabalhadores e da população mais pobre a serviço de sua intrínseca ligação com empresários, banqueiros e acionistas. Revive a tradição revolucionária francesa. Mas a intervenção meramente combativa na luta não basta. O fenômeno se enfraqueceu e foi, a princípio, parcialmente canalizado eleitoralmente no parlamento da união européia pela extrema-direita. Mas também levou a consequências não eleitorais que culminam, hoje, na mais longa greve da história da França ao menos desde 1968.

Mais uma contra-reforma de Macron

A reforma da previdência é uma das mais duras dentro do conjunto de ataques que o presidente vem aplicando à classe trabalhadora francesa. Desde o processo eleitoral, Macron, o "presidente dos ricos", eleito como "mal-menor" contra a extrema-direita de Marine Le Pen, sempre tentou se colocar como um insubmisso júpiter neoliberal, que ia passar todas as reformas necessárias frente às mobilizações sociais, tendo aprovado a reforma trabalhista em 2017 e a reforma ferroviária em 2018 [1]. As direções das grandes centrais sindicais, com suas políticas de greves de 2 dias a cada 5, foram as grandes responsáveis por essas derrotas.

A recente reforma busca eliminar 42 regimes especiais de aposentadorias, além de elevar a idade mínima. Como no Brasil, o projeto privilegia policiais e, para dividir os trabalhadores, quer garantir aos mais velhos a manutenção de seus regimes de previdência, prejudicando os mais jovens. Mas o grande ataque da reforma de Macron é que, pelo novo sistemas de pontos, o financiamento deixa de ser coletivo pelos ativos e se torna individual por cotização, fazendo com que os trabalhadores tenham que completar sua aposentadoria através da previdência privada. A reforma não é nada mais do que o completo desmantelamento da previdência pública para criar um novo mercado em benefício do lucro de algumas empresas que vão controlar a aposentadoria. Uma das perguntas que se pode ver nas ruas francesas é: "Você confiaria sua aposentadoria aos bancos?".

A greve geral contra a reforma da previdência foi chamada pela pressão da base dos trabalhadores da RATP (Rede autônoma de transportes parisienses, empresa estatal) no dia 13 de setembro de 2019. Neste dia, eles já se encontravam em uma greve com adesão majoritária que deu grande força e ânimo aos grevistas para seguir em frente com uma luta determinada a barrar a reforma por completo.

Eles chamaram uma greve indefinida para ser iniciada no dia 5 de dezembro. A base dos ferroviários da SNCF (Sociedade nacional ferroviária francesa, estatal) aderiram prontamente ao chamado em suas assembleias. Diversos outros setores também entraram na greve, com pressão generalizada da base das categorias para seus sindicatos aderirem. Mas entram de maneira intermitente, por não terem em seu seio a perspectiva auto-organizada que a vanguarda dos trabalhadores dos transportes aprenderam.

O nível de reflexão tática destes trabalhadores mostra o avanço na consciência de parcela da classe: definiram o dia da greve pensando em como poderiam se manter financeiramente através do 13º dos trabalhadores da RATP e do benefício de final de ano dos da SNCF [2]

Nesses três meses de preparação, não houve nenhuma atuação das grandes centrais sindicais no sentido de fazer um fundo de solidariedade nacional à greve. Hoje, depois das dificuldades financeiras do processo, todos os trabalhadores da base da RATP sabem: da próxima vez tem que fazer fundo de greve desde o início. A luta de classes ensina.

Os trabalhadores param a França

No dia 5 teve mais de 1,5 milhão de pessoas nas ruas, um número que se repetiu em outros dias ao longo de dezembro e janeiro. Mas os maiores efeitos da mobilização ainda são incalculáveis devido aos vários dias de paralisações do trabalho em diversas categorias. O caos no transporte foi o maior em décadas. Um nível de radicalização em relação às greves anteriores que não reduziu o apoio da população à greve. O gigantesco transtorno diário e os milhões perdidos pela greve e pelos piquetes de eletricitários, bombeiros civis, portuários, trabalhadores do esgoto, petroleiros, ferroviários etc, não enfraqueceu a ruptura majoritária da população com o pacifismo e com as ações meramente legalizadas. Depois de mais de 50 dias de greve, 61% dos franceses acham que Macron deveria retirar em totalidade o projeto de reforma. 72% acham que ele é um presidente autoritário.

Um dos marcos do transtorno gerado pela greve está no fato de que o setor que paralisou de maneira indeterminada está em uma posição estratégica econômica e socialmente: controlam o funcionamento de uma cidade e estão em direto convívio com as massas. Os transportes são “uma continuação do processo produtivo dentro do processo de circulação e para o processo de circulação”.

A classe trabalhadora não somente pode parar todo o funcionamento de uma sociedade, mas pela sua localização produtiva, pode levar à frente as demandas de todos os setores populares. A greve na França indicou vários aspectos dessa possibilidade de hegemonia operária. Bombeiros civis (maioria na França) posicionados à frente das manifestacões, defendendo os grevistas da repressão policial. Trabalhadores da Cultura, como da famosa Ópera de Paris, apresentando na rua de graça e para todos. Eletricitários ocupando as salas de controle das usinas de energia, deixando no breu grandes empresas, delegacias de polícia e prédios administrativos, enquanto para o natal religaram a luz de casas da periferia a preços mais baixos. Advogados, professores, trabalhadores do esgoto e muitas outras categorias repetindo em várias cidades do país o gesto de jogar ao chão seus instrumentos e uniformes de trabalho à frente de parlamentares e políticos do partido de Macron, propagando métodos de mostrar o generalizado descontentamento.

As grandes centrais seguem negociando.

O papel das burocracias sindicais de tentar desviar os trabalhadores da vitória, tanto da pelega CFDT (Confederação Francesa Democrática do Trabalho) quanto da "combativa" CGT (Confederação Geral do Trabalho), entre outras, seguiu, mas teve que enfrentar uma base em diversas categorias que há muito tempo não questionava tanto suas direções. Eletricitários chegaram a cortar a energia da sede da CFDT como forma de mostrar sua indignação com a direção que em nenhum momento negou apoiar a reforma e que aceitou uma hiper-parcial concessão de Macron na primeira sentada de mesa, mesmo com a base dos trabalhadores sindicalizados sendo majoritariamente contrária à reforma. A CGT não deixou de sentar nenhuma das vezes que o governo se dispôs a negociar.

Além do aspecto de tentar conciliar o inconciliável e o que está longe das demandas da base de trabalhadores, que querem a retirada completa da reforma, as grandes centrais não atuam com toda sua estrutura em prol de generalizar a greve de maneira indeterminada. Não colocam um plano de luta e um programa de reivindicações que poderia atrair setores ainda mais explorados da classe a entrar na greve. Trabalhadores que correm muito mais riscos, como terceirizados ou do setor privado, só incorporariam se vissem na luta uma garantia de segurança financeira, que as grandes centrais tem caixa para oferecer, e uma perspectiva distinta do presente e do futuro de precarização e desemprego que lhes oferecem.

As burocracias querem continuar negando aos trabalhadores que estes, quando entram em uma luta por um direito seu, estão entrando necessariamente em uma luta política contra o governo, contra o regime. Negam para que a classe não perceba que não precisa dos burocratas, mas que podem ser eles mesmos os sujeitos políticos que vão entrar em confronto direto com Macron e seu mundo.

Trotski dizia em seu tempo: "no discurso, os burocratas fazem tudo que for possível para tentar mostrar ao Estado - ’democrático’- o quanto eles são dignos de confiança e indispensáveis em tempos de paz, mas sobretudo em tempos de guerra". Hoje, mais que nunca, as velhas direções, percebendo a possibilidade de serem ultrapassadas pelas bases de trabalhadores, de auto-organização e de questionamento antiburocrático em diversas categorias, sobretudo nos transportes, visam desgastar os grevistas ativos, para evitar perder o controle sobre estes, evitar que aumente a radicalidade.

Assim, as centrais podem, ao final do conflito, responsabilizar a própria base de trabalhadores por uma não incorporação generalizada do movimento, se retirando a responsabilidade de encabeçar e centralizar um embate político contra Macron. Algo semelhante ao que ocorreu no Brasil contra a reforma da previdência de Bolsonaro?

Em uma live do jornal Le Monde na manifestação do último dia 24, que levou às ruas 1,3 milhão de pessoas em toda a França, Nicolas Joseph da CGT, secretário do Comitê de Higiene, Segurança e Condições de Trabalho (CHSCT) de águas e saneamento de Paris, e chefe do serviço de plantão que atua 24h por dia em serviço de urgência, em suas próprias palavras não deixa dúvidas do papel traidor das grandes centrais em relação à vontade dos trabalhadores: "Essa semana todos depositaram suas ferramentas de trabalho frente ao Ministério das Finanças para protestar contra a reforma da previdência. Éramos muitos mais do que a polícia, poderíamos ter entrado no Ministério! E se tivéssemos verdadeiramente parado nossas ferramentas de trabalho, que consiste, recordo, da coleta de esgoto, Paris estaria, depois de 45 dias de greve, uma verdadeira merda, no sentido literal do termo! Estamos dedicados a nosso trabalho, não queremos chegar a isso. Mas posso dizer que como organização sindical tivemos que frear aos operários senão isso chegaria muito mais longe".

Trabalhadores do transporte: "a greve é nossa!"

No setor dos transportes estão os trabalhadores mais avançados na consciência em relação ao papel das burocracias sindicais. Pela força da base, conseguiram impor suas decisões tiradas em assembleias, se vendo como sujeitos. Perceberam que se eles não fossem parte ativa de se pensar a greve, se eles ficassem só esperando ordem das direções, ia ter trégua da greve no natal, como pediu Macron.

A partir da atuação de militantes armados com uma mídia e lições históricas para fazer o máximo possível para generalizar a greve e mantê-la nas mãos da própria base de trabalhadores, os grevistas da RATP e da SNCF organizaram uma Coordenação com representantes de vários locais de trabalho, com objetivo de discutir a greve, tirar lições cotidianamente para elevar a luta, ultrapassar o corporativismo, promover o questionamento de qual projeto de sociedade os trabalhadores querem e como batalhar por ela, por ações conjuntas com diversos setores, como petroleiros e universitários, sempre desnudando o papel das burocracias e organizando ações para alavancar a greve.

Frente ao desafio de manter a greve no decisivo período de festas de fim de ano, a Coordenadora e o jornal militante, Révolution Permanente, foram essenciais, para garantir a difusão de fundos de greve, e organizar ações surpresas, como a ocupação da Gare de Lyon no dia 23 de dezembro, invadindo os trilhos e paralisando o funcionamento de trens automatizados.

Sem a atuação destes trabalhadores, a greve teria enfraquecido e dado sinais de fortaleza a Macron, pois as duas principais sindicais abandonaram assumida ou fingidamente a batalha pela manutenção e consequente generalização da greve nesse período de natal e ano novo. A CFTD chamou trégua. A CGT chamou ato apenas para o dia 9 de janeiro, deixando os grevistas 20 dias sem qualquer plano de greve. Tudo isso enquanto os trabalhadores da RATP e da SNCF chamavam as demais categorias para gritar com eles que "preferiam perder o natal a suas aposentadorias".

As ações dessa Coordenadora, impulsionada por um grupo pequeno como a CCR [Corrente Comunista Revolucionária], que constrói o jornal Révolution Pérmanente e é uma tendência minoritária do NPA [Novo Partido Anticapitalista], dão uma pista de qual a maneira de fazer uma agenda alternativa às das direções sindicais burocráticas, ao redor de um verdadeiro plano de batalha, sem ignorar a importância dos sindicatos e dos partidos para a organização e fortalecimento teórico e prático da luta dos trabalhadores, mas sempre batalhando pela auto-organização como única forma de superar as burocracias, que Trotski chamava de "polícias-políticas" dentro do movimento operário.

Sem subestimar o papel que pode cumprir um pequeno grupo, se houvesse um partido organizado com um programa e uma estratégia para elevar essa greve no sentido batalhado pela CCR, militando dentro dos sindicatos e em diversos locais de trabalhos estratégicos, essa greve poderia já ter garantido a vitória sobre Macron, na medida em que ela poderia ter se generalizado de maneira indefinida, paralisando por completo o país. No sentido mais amplo, a existência de uma organização internacional de partidos atuando nessa perspectiva, como busca construir a Fração Trotskista que constrói as mídias militantes da rede Esquerda Diário, poderia espalhar a chama questionadora dos franceses para trabalhadores de outros países da Europa e do mundo.

Mesmo a juventude francesa não tendo tido, nessa atual greve, uma atuação massiva ao lado dos trabalhadores como em outros momentos da história da luta de classes, a juventude do NPA e do Révolution Pérmanente foi importantíssima apoiando os trabalhadores nos piquetes desde às 4h, chamando a contribuir para os fundos de greve, produzindo materiais midiáticos para divulgação e fomento da greve etc.

A CCR vem atuando também pela auto-defesa dos trabalhadores contra a repressão policial, judicial e patronal.

Nova classe, novos rostos

Na medida em que a classe trabalhadora se transforma, elevam-se novas figuras como porta vozes de suas lutas. Na medida em que os tradicionais líderes sindicais perdem sua influência e controle em alguns setores do movimento, figuras como Anasse Kazib, ferroviário de descendência imigrante árabe, se alçam como tribunos de seus companheiros em luta e da população precarizada e alvo das grandes mazelas sociais. Anasse, delegado sindical da SUD-RAIL e militante da CCR e do Révolution Permanente, apareceu em diversos programas de tv altamente populares, denunciando em rede nacional as mentiras dos macronistas em relação à reforma da previdência, conduzindo suas denúncias contra a precarização da vida e do trabalho no sentido de fazer compreender que só serão resolvidas se pensadas numa concepção anti sistêmica e política. Kazib sempre coloca em seus rápidas e fortes falas: não estamos lutando apenaa contra Macron, estamos lutando contra a burguesia - "é a história da luta de classes que estamos vendo na França".

Da mesma forma que os trabalhadores devem atuar de maneira internacional, entendendo os trabalhadores multinacionais como irmãos de classe, a burguesia atua internacionalmente e no mundo todo está atenta ao que ocorre na França. Uma vitória dos trabalhadores contra Macron é uma derrota a todo plano de elevá-lo como uma figura moderadora e democrata frente ao projeto Trumpista.

Anasse surge como porta voz de uma nova geração de trabalhadores anti burocráticos, que não aceitam passivamente que as centrais controlem seus movimentos e que neguem vários recursos elementares para a luta dos operários.

Por um partido revolucionário à altura da disposição dos trabalhadores franceses

Mais do que nunca, é preciso pensar as massas como sujeitos ativos. Para impulsionar isso, faz-se necessária a construção de um partido que reúna a vanguarda mais consciente dos trabalhadores e da juventude, que se formem e construam capacidade de influência política no movimento de massas, com o objetivo de mostrar o caminho para a auto-organização dos trabalhadores e estudantes em superação às burocracias de suas organizações.

Organizemos tanto na França como no Brasil um movimento por partidos internacionalistas com programa e estratégia bem definidos, sob o marco de uma ampla democracia interna que os permitam ter uma relação honesta com o movimento de massas. Um partido que não busque manobrar os trabalhadores e sim impulsionar o seu movimento, sua ação, o avanço em sua consciência como sujeitos de sua própria luta.

O papel de uma mídia ligada a esse partido, como exemplo embrionário o Révolution Pérmanente, que se ligue às massas tanto nos momentos passivos, se faz fundamental para preparar para cumprir um papel nas lutas operárias, tendo os trabalhadores acesso cotidiano de suas ideias e objetivos como partido. Uma mídia que não é apenas uma mídia. E um partido que não atue de maneira eleitoral e parlamentar. Que acompanhem os trabalhadores desde a implementação de fundos de greve solidários, até a batalha contra a repressão aos trabalhadores em luta. Que sirva para ligar os setores em luta e unificar o sentimento de classe.

E agora?

A greve segue de maneira intermitente, na medida em que os trabalhadores do transporte vão retomando o trabalho, tanto por razões financeiras quanto pela traição das direções sindicais que os isolaram em sua forte greve indefinida. Mas ficam seus ainda incalculáveis impactos e lições. Surge na França um exemplo de auto-organização que superou as burocracias e elevou a moral dos trabalhadores dos transportes, contagiando de maneira variada diversas categorias. Está colocada a possibilidade de entrar em cena a juventude universitária que poderia ser um coquetel explosivo para todos os governantes: massas de jovens ao lado de trabalhadores.

Começa a se fortalecer em amplos setores de trabalhadores um jornal político e militante que se destaca (dentro dos limites de seu pequeno tamanho e de sua independência financeira de empresas) como um instrumento dos e para os trabalhadores e para a juventude. É preciso ver essa luta com uma moral internacional, é preciso nos reconhecer nos trabalhadores franceses e ver a potência de nossa classe.

Agora há um período de longo processo parlamentar de trâmite da reforma. É hora de coordenar o conjunto dos setores a tirar lições dessa primeira parte da luta. Segundo Anasse, "muitos setores estão dispostos a lutar , mas não para se desgastar em greves picotadas sem perspectiva de vitória. Os setores que até agora estiveram mais ativos, estariam prontos para começar de novo se houver um plano que os façam crer que podem ganhar. Pequenos golpes não funcionarão mais. Há pouco sentimento de desmoralização ou de derrota nos trabalhadores de transportes. Eles dizem: a gente ainda não terminou com essa reforma".

Não negamos que a classe está fragmentada e que carrega anos e anos de retrocessos em sua consciência como sujeito político emancipatório e com capacidade de hegemonizar as diferentes camadas exploradas e oprimidas pelos capitalistas. Mas é preciso pensar nossa luta sempre de maneira internacional. Os impactos da greve na França podem afetar toda a cadeia industrial e comercial do mundo. Podem chegar ventos franceses em locais com gigantesca concentração industrial como na Índia, na China, em Bangladesh. Quando os trabalhadores franceses lutam contra a sua exploração, eles também estão enfraquecendo uma burguesia que explora internacionalmente. E faz-se mais do que nunca necessário que os trabalhadores franceses superem uma lógica nacionalista que ainda é muito enraizada no país. O fato da classe trabalhadora francesa ser cada vez mais descendente africana e árabe e, por isso, cada vez mais precarizada pela via do preconceito e da xenofobia que permite aos capitalistas retirarem mais direitos, é um fator que vai no sentido de generalizar internacionalmente a moral dos trabalhadores.

Um sentido anticapitalista para nosso futuro

Nesses últimos 40 anos, longe de ver de uma forma esquematizada e homogênea as diferentes situações em cada país, há em geral algo que é concreto: em muitos, como o Brasil, antes da crise, houve um período de relativo crescimento econômico, que não se transformou de forma alguma em mudanças estruturais. O que a gente vê como consequência disso é, em pleno 2020, Belo Horizonte e dezenas de cidades em Minas Gerais sendo destruídas pela chuva. Completa-se um ano do crime de Brumadinho sob o obscuro peso da injustiça. Vemos um Brasil com uma economia que não deslancha, um dinheiro que não nos sustenta no mês, um problema de desemprego que não se resolve e ameaças aos nossos direitos e condições de vida e trabalho avançando a golpes rápidos, através de reformas semelhantes às que Macron se propõe a impor aos franceses.

Um cenário de degradação da vida no capitalismo, que coloca cada vez mais forte para nós a necessidade de botar esse sistema abaixo. E a greve na França, mesmo não tendo um resultado imediato de provocar uma fissura no regime, dá muitas lições para se pensar como devemos atuar para conseguir esse objetivo e qual o sujeito social tem capacidade de levar uma tarefa como essa de construir uma nova sociedade. Longe de achar que pela própria espontaneidade, conseguimos concluir o que nos impõe a miséria desse sistema, é preciso pensar de maneira estratégica, sobre as bases históricas da luta de classes, construindo previamente fortalezas organizacionais armadas teoricamente à altura do que os trabalhadores franceses mostram de disposição e garra.

Veja o nosso especial sobre a greve na França com vídeos, fotos, análises e entrevistas.

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Notas de rodapé:

1) A reforma trabalhista facilitou, principalmente, a demissão pelas empresas através de alterações no seguro desemprego; já a reforma ferroviária visa uma abertura gradual da empresa estatal (SNCF) para a concorrência, após grande desmantelamento da rede ferroviária nas margens dos centros urbanos, além de ter retirado direitos dos ferroviários que, por terem um trabalho de alta exposição a riscos e estresses psicológicos, eram considerados trabalhadores "especiais" e, antes da reforma, tinham o trabalho garantido ao menos se cometessem erros graves. Desde a reforma, os condutores não se aposentam mais aos 52 anos e os demais funcionários ferroviários não podem mais aposentar aos 57, além de que perderam a gratuidade nas passagens e descontos para parentes.

2) Os trabalhadores do transporte público francês, se não "legalizam" a greve avisando previamente, não recebem se não fizerem ao menos um dia de trabalho a cada 7 dias. Isso significa que após mais 50 dias de greve pais e mães de família receberam contracheques zerados.




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