Teoria

TEORIA: FEMINISMO E O MOVIMENTO SINDICAL

Greves de mulheres, greves políticas. Entrevista com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya

Em uma entrevista publicada por Truthout, a jornalista Sarah Jaffe discute com duas organizadoras da greve internacional de mulheres nos Estados Unidos, Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya, sobre as relações entre o movimento sidical e o movimento #MeToo e sobre a greve de mulhes que teve lugar no último dia 8 de março.

quarta-feira 3 de outubro| Edição do dia

A entrevista foi publicada em fevereiro, enquando a greve estava sendo preparada, e traduzida pela revista Inprecor.

Sarah Jaffe: Vamos falar da história da greve de mulheres, pois é algo que existe há algumas décadas no movimento de mulheres, mas que está voltando agora para o centro do palco.

Cinzia Arruzza: As greves de mulheres não são uma novidade.Mas o fato de vir tendo um impacto internacional tão grande, formalmente reconhecido, que constrói a identidade desse novo movimento feminista, é uma novidade.Há um precedente no decorrer nos anos de 1970: a greve de mulheres na Islândia pela igualdade salarial.E, há dois anos, o movimento feminista polononês decidiu aproveitar essa forma de luta e organizar uma greve de mulheres na Polônia contra a proibição do aborto. O mesmo se passou em 2016, na Argentina, com as ondas de greves e as mobilizações de mulheres contra a violência de gênero.

A partir daí - e especialmente por causa do enorme sucesso dessas mobilizações e greves na Argentina e na Polônia - tivemos a ideia de tentar organizar uma greve internacional de mulheres no dia 8 de março.As greves das mulheres são um meio de mobilização muito poderoso para o movimento feminista, já que tornam visíveis não apenas aquilo de que as mulheres são vítimas, mas também o enorme potencial de seu poder por que trabalham ao mesmo tempo no mercado de trabalho formal e na esfera social reprodutiva, em casa, etc. Assim, o fato de as mulheres poderem entrar em greve como mulheres torna óbvio o que elas fazem, quais são as coisas que tornam possível a vida no planeta e, portanto, seu poder potencial, justamente porque são elas que fazem todo esse trabalho.Enquanto o seu trabalho muitas vezes não é reconhecido, não é avaliado como deveria ser.

Tithi Bhattacharya: Ainda no ano passado, quando a greve foi anunciada, o termo "greve" foi, em certa medida, reprimido, porque é considerado uma interrupção do trabalho no local de produção.O uso do termo "greve" para descrever esse momento da luta das mulheres é extremamente importante, ele lhe confere uma grande força... ainda que esse termo tenha muitas outras realidades históricas...

Acho que uma das coisas que achamos fácil de formular no contexto do último ano, assim como deste ano, é a diferença entre uma greve no local de trabalho e uma greve política. Eu acho que a greve das mulheres foi uma contribuição muito importante para a história da greve política, especialmente no contexto neoliberal de declínio da sindicalização em todo o mundo - por causa dos numerosos ataques da elite mundial dominante contra os sindicatos desde os anos de 1970 e 1980. A classe trabalhadora perdeu em grande parte sua arma mais poderosa para fazer greve nos locais de trabalho, a saber: seus sindicatos.

Isso não significa, como muita gente supõe, que a classe trabalhadora esteja morta... ou que não reaja a ataques contínuos às suas condições de vida e de trabalho.Penso que, nesse contexto, uma greve política é muito importante, pois o que aconteceu no 8 de março foi descrito como uma greve, mesmo que tenha sido apenas nos Estados Unidos.Nós estávamos muito interessadas em manter essa identificação, esse termo, e isso teve como resultado intensas discussões políticas sobre a relação entre as mobilizações no local de trabalho e fora do local de trabalho.Estamos convencidas de que, em um período em que a capacidade de agir no local de trabalho foi reduzida, a greve política é uma maneira útil de reviver esse debate e talvez fortalecer também a capacidade de mobilização nos locais de trabalho.

Sarah Jaffe: Temos visto um interesse renovado na ideia de uma greve política, especialmente nos Estados Unidos desde a eleição de Trump.No ano passado, teve vários "dias sem imigrantes".Teve fenômenos como a greve dos mercadores do Iêmen (2) e a greve dos taxistas em Nova York, respostas diretas à política de Trump.É interessante notar que estamos testemunhando um renascimento da idéia da greve política, e os sindicatos estão debatendo - particularmente aqui, mas também em todo o mundo.

[1]Cinzia Arruzza :Eu acho que é muito importante.É claro que essas referências a greves políticas marcam o fato de que as pessoas que vivem nos Estados Unidos e, em particular, os trabalhadores são privados de um dos meios mais importantes de luta e protesto, geralmente reconhecidos em outras democracias... e eu nem falo sobre as formas de luta insurrecional!As greves políticas tiveram lugar em um certo número de países. Elas são legais, reconhecidas e são uma ferramenta poderosa sempre que parece impossível desafiar ou influenciar o governo de outras formas... Espero que esse apelo, que essas greves políticas tenham realmente aberto o debate político e começado uma campanha para reformar a legislação trabalhista e repensar de maneira muito profunda quais deveriam ser os direitos dos trabalhadores nos Estados Unidos, porque, realmente, entre todas as democracias, esse país tem a lei trabalhista mais antidemocrática.É, portanto, uma situação excepcional.

Tithi Bhattacharya:E no que concerne à greve política, tem duas coisas muito importantes. Primeiro, é preciso afirmar... a idéia de que a greve não é apenas sobre as questões de "pão com manteiga [no espinafre]", ou seja, as condições no local de trabalho e dos salários... Algo a se lembrar ao falar sobre a importância do trabalho das mulheres e da greve de mulheres é que as pessoas entram em greve por causa de suas más condições de vida... e atacam em seu local de trabalho porque suas vidas dependem do seu trabalho.Quando as condições de vida se deterioram, considera-se que se deve agir nos locais de trabalho

É muito simples, mas é preciso ter em mente que é a deterioração de suas condições de vida que leva as pessoas a pensar e as motiva a lutar, porque é a única maneira de viver com dignidade.Essa relação entre vida e trabalho é, no entanto, muitas vezes esquecida pelas burocracias sindicais.Gostam de tratar o sindicato como uma espécie de pequeno espaço assalariado, onde as lutas dos funcionários são apenas um momento da negociação contratual.Mas, para os trabalhadores, não é o contrato negociado - no sentido literal -, mas suas vidas e suas condições de vida.

As greves políticas são muito importantes devido à ausência de sindicatos nos locais de trabalho de trabalho ou ao fato de que os sindicatos existentes estão interessados apenas em negociações contratuais limitadas - de maneira mais ampla, falam sobre viver melhor.Em outras palavras, uma greve política traz de volta ao centro das atenções "o pão e as rosas" e não apenas "o pão com manteiga".Ela dá um contexto mais amplo e profundo ao significado da luta, a tudo que você ganha quando combatemos e somos solidários.Penso, particularmente no contexto atual, que as greves políticas desempenham um papel vital ao lembrar as pessoas como as condições de vida dos trabalhadores e suas condições de trabalho se cruzam e como elas devem estar ligadas.

Sarah Jaffe:Para quem não conhece essa história, diga-nos rapidamente de onde vem a fórmula "pão e rosas"...

Tithi Bhattacharya:Essas são palavras de um poema e de uma canção escritos durante a greve de Lawrence, em 1912 (3), uma greve operária que terminou vitoriosa.Também foi parte de uma onda de greves e da construção de sindicatos em locais de trabalho pelas mulheres, que começou após o incêndio na Fábrica Triangle Shirtwaist, de Nova York (4), e resultou na sindicalização das mulheres lideradas por jovens trabalhadores imigrantes.Essa canção lembra a importância da ideia de que nós fazemos greves pela vida e pelas condições de vida, e também o importante papel que as mulheres têm em greves nos locais de trabalho.

Sarah Jaffe:Este ano, a greve de mulheres acontecerá em pleno movimento #MeToo.Você poderia nos explicar qual a ligação entre os dois e também nos dizer como o debate sobre assédio e a violência sexual faz parte da organização da greve este ano.

Cinzia Arruzza:Acho que também devemos ver uma ligação entre a onda de mobilizações feministas em todo o mundo que se inicia há um ano e meio e a explosão da campanha #MeToo.Nos Estados Unidos - mas também internacionalmente - o #MeToo tem sido muito importante, porque mostrou aquilo que muitas mulheres já sabiam: que a violência sexual e o assédio fazem parte do cotidiano da grande maioria das mulheres, seja nos locais de trabalho, em casa ou na rua.A violência de gênero necessita claramente de uma resposta coletiva.Desse ponto de vista, a greve de mulheres não é uma alternativa ao #MeToo; é, antes, uma contribuição ou uma tentativa de dar uma resposta coletiva ao isolamento produzido por essa violência.

A ideia é dar um passo além depois do #MeToo: depois de denunciar individualmente o assédio e a violência que sentimos ao longo da vida, também é hora de agir coletivamente e nos organizar.Caso contrário, as condições estruturais que permitem a continuação dessa violência não serão questionadas.Um dos riscos da atenção que se está dando atualmente às questões de violência de gênero é nos limitarmos a nos livrarmos de alguns caçadores odiosos, os famosos e os menos conhecidos, o que é muito bom e eu saúdo esse momento de catarse, mas isso não resolverá o problema

Em outras palavras, o verdadeiro problema não são os homens malvados tomados individualmente.O problema são as condições estruturais que criam a impunidade à violência de gênero e à violência sexual.Deste ponto de vista e na perspectiva da greve, é essencial, porque aprendemos claramente nos últimos meses como as mulheres perseguidas e maltratadas estão nos locais de trabalho.E isso é por causa da organização do trabalho, das relações de trabalho mais gerais.É o produto da natureza hierárquica das relações salariais, a falta de poder dos empregados.

Da mesma forma, desse ponto de vista, a falta de sindicatos, os fracos direitos dos trabalhadores nos Estados Unidos criam as condições para a violência baseada no gênero, porque as mulheres constantemente terão medo de acusar seus colegas ou seus empregadores, justamente porque não se sentem protegidas.Eles não sentem que podem confiar em uma organização, em uma estrutura coletiva que poderia realmente defendê-los.É por isso que estamos ampliando o escopo do que entendemos por "violência baseada no gênero" e, quando atacamos, abordamos um conjunto de questões que não são imediatamente percebidas como relacionadas a essa violência, mas que são, segundo nós, relações sociais estruturais que permitem ou até promovem a violência de gênero.

Tithi Bhattacharya: Gostaria apenas de acrescentar três aspectos muito específicos do #MeToo que, na minha opinião, se referem ao 8 de março, o que nos fez incluir o #MeToo na preparação da greve.Em primeiro lugar, você se lembra de quando se podia ver várias vezes um artigo sobre as condições de trabalho no New York Times?Foi isso o que permitiu o #MeToo.Nós nunca vimos tantos artigos na grande mídia sobre as condições de trabalho das mulheres.Claro, foi principalmente sobre a violência sexual contra as mulheres, mas também mostrou o quanto o local de trabalho é ditatorial e brutal para a maioria das mulheres ... mas também para a maioria das pessoas.É um debate incrível. Eu nunha tinha vista debates como esses relacionados às condições de trabalho.Evidentemente, as mídias liberais não empregaram os termos “condições de travalho”, mas mas a todo se sabia que era disso que se tratava.Este é um desenvolvimento de fato bem-vindo: pela primeira vez em anos, vemos emergir a questão do que significa ser um trabalhador neste país.

Em segundo lugar, é uma consciência que até agora estava limitada a socialistas e radicais neste país, mas está começando a se tornar senso comum: todos sabemos que desde o começo do século XX e até agora, houve um aumento significativo nos direitos das mulheres e na participação das mulheres na esfera pública e na esfera do trabalho assalariado.Isso foi acompanhado por uma reação violenta contra esses direitos - as leis relativas ao aborto e à contracepção, salários reais, etc. - mas essa não é a questão.Se compararmos nossas vidas às de nossas avós em qualquer país, acho que podemos dizer que estamos em um lugar melhor.Eu certamente não gostaria de voltar como mulher de 1890 em qualquer lugar do mundo.Através de nossas lutas, melhoramos nossas vidas como mulheres.

Mas acho que, ao mesmo tempo, os direitos dos trabalhadores caíram de maneira abrupta, em particular desde os anos de 1970 e 1980, com a ascensão do neoliberalismo.Agora temos uma situação contraditória: nossos direitos como mulheres melhoraram ao longo dos anos, em certo sentido, mas os direitos dos trabalhadores como um todo - e, portanto, nossos direitos como trabalhadores - diminuíram.Isso significa que, nos locais de trabalho, as mulheres estão particularmente vulneráveis, porque é aí que a opressão contra as mulheres e o declínio das condições salariais se reúnem.

A solução que o capitalismo nos oferece:"Desde que você possa melhorar sua situação como mulher, é cada um por si."A solução para as condições de vida e de trabalho precárias para as mulheres é, naturalmente, "inclinar-se".Se esforce e se tornará uma PDG.É esse o segundo tipo de desenvolvimento.

Em terceiro lugar - e eu acho que é muito importante para os nossos propósitos -, como podemos nos defender?A razão pela qual é de fato uma questão de retaliação é porque foi justamente no local de trabalho que as discussões do #MeToo se concentram nas condições de trabalho.Nós todos sabemos que existe violência doméstica nos Estados Unidos e em todo o mundo, que é horrível, mas a vantagem das discussões nos locais de trabalho é que não estamos sozinhos, há testemunhas, mulheres que experimentaram a mesma coisa porque trabalham com você... Portanto, há uma confiança coletiva, porque a experiência é coletiva e é por essa razão, acredito, que a campanha #MeToo foi amplificada - porque vem de um lugar de resistência coletiva.

Sarah Jaffe: Você poderia nos falar sobre a organização da greve de mulheres neste ano: o que está planejado para o momento e como está se desenvolvendo o trabalho de solidariedade internacional?

Tithi Bhattacharya:Em nível internacional, tenho o telefone das organizadoras e em várias partes do mundo está indo muito bem, particularmente na Itália, na Espanha, na Polônia, na Argentina e em vários países da América Latina.No Reino Unido, onde estive no mês passado, o principal centro organizador é a Women’s Strike Assembly, que está fazendo um trabalho fabuloso de vincular o dia 8 de março às discussões em curso e também ligando a uma greve universitária em preparação.Elas fizeram contatos com funcionárias de universidades em todo o país para coordenar a greve, e as organizadoras são incansáveis em participar de várias assembleias de greve, etc.

A melhor parte é que, como são organizadas por mulheres e feministas, todas essas ações têm características semelhantes.Por exemplo, quando uma iniciativa é organizada, há sempre uma creche... com comida e jogos inovadores para as crianças, para que elas fiquem felizes e ocupadas enquanto suas mães estão fazendo política.Essas são algumas das características mais divertidas e inspiradoras que toda essa organização tem em comum internacionalmente.

Nos Estados Unidos, o plano mais ambicioso para nós este ano é, na verdade, construir algo cujas discussões apenas iniciamos no ano passado: a questão de uma greve política.Queremos que isso seja mais concreto e, por isso, pedimos uma paralisação de uma hora.No momento, podemos dizer que em todos os lugares do país vamos parar de trabalhar por uma hora para mostrar aos patrões e seus funcionários na Casa Branca que, como produzimos a riqueza na sociedade, também podemos parar de a produzir e, portanto, paralisar a sociedade.É um lembrete simbólico de nosso poder como mulheres e trabalhadoras.Estamos trabalhando com vários sindicatos para que se realize.

Cinzia Arruzza:Primeiro de tudo, reativamos uma espécie de comitê nacional de planejamento, que é essencialmente uma rede de várias ativistas em todo o país que estão cedendo tempo e esforço para preparar essa greve.Em Nova York, tivemos uma reunião pública para lançar essa greve, com um painel de intervenções verdadeiramente incrível... Esse evento deu uma ideia da energia, mas também das mulheres que estão tentando organizar essa greve - mulheres da classe trabalhadora, mulheres de minorias, que não só estão lá para se mostrar e participar da greve, mas que lideram muitas lutas, contra a polícia nas fronteiras, etc. E às vezes vencem, demonstrando que a ação coletiva às vezes pode prevalecer.

É nesse espírito que estamos nos preparando para a greve de uma hora e estamos discutindo com organizações trabalhistas para ver como ela pode ser organizada.Também organizamos comícios e demonstrações que acompanharão essa paralisação.Acreditamos que teremos demonstrações, marchas e comícios na maioria das grandes cidades dos Estados Unidos.Os organizadores já estão preparando uma greve em Los Angeles, na região da baía de São Francisco, Portland, Filadélfia... Também recebemos muitos e-mails, mensagens, contatos de interessados - que, por exemplo, leram o artigo que publicamos no The Guardian (5) pedindo uma greve de mulheres este ano nos Estados Unidos e quer se juntar a nós.

Como de costume, este é um esforço totalmente voluntário que depende de organizações de base.É autofinanciado.As pessoas doam seu tempo e seu trabalho, mas de certa forma é também o que o torna bonito... porque nessa organização da greve, consolidamos de alguma forma uma área do feminismo anticapitalista que oferece uma alternativa para elitizar o feminismo, centrado nas carreiras de mulheres executivas ("corporate" e "lean in"), que dominaram nos últimos anos.Eu acho que há um espaço político e um desejo por isso, pelo menos a julgar pelas respostas que muitas ativistas feministas neste país dão à ideia de se organizar em torno de uma greve e do entusiasmo que elas colocam neste projeto.

É claro que todas aquelas que gostariam de se envolver podem entrar em contato conosco (6) e organizar a greve em sua cidade.

Sarah Jaffe trabalha no The Nation Institute e escreve sobre sindicalismo, justiça social e econômica, e política para, entre outros, Truthout, The Atlantic, The Guardian, In These Times.Publicou Necessary TroubleAmericans In Revolt (Nation Books, 2016).

Cinzia Arruza leciona filosofia antiga na New School for Social Research de New York.Escreveu Le relazioni pericolose – Matrimoni e divorzi tra marxismo e feminismo (“As relações perigosas – matrimônio e divórcio entre marxismo e feminismo”, Edizioni Alegre, Roma, 2010). Militante anticapitalista, colabora com a revista o site italiano Communia.

Tithi Bhattacharya é professora na universidade de Purdue, em Indiana, hitoriadora da Ásia oriental.Escreveu The Sentinels of Culture:Class, Education, and the Colonial Intellectual in Bengal (Oxford, 2005).




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