Mundo Operário

GREVE DE CORREIOS

Greve dos Correios do RN: a importância da auto-organização dos trabalhadores para unir a categoria

A greve dos Correios está quase completando um mês de luta contra o ataque a 70 dos 79 pontos do seu acordo coletivo, porta de entrada para a privatização da empresa e retirada de direitos do conjunto dos trabalhadores do país, portanto a mais importante luta hoje contra o projeto de Bolsonaro de descarregar a crise nas costas do povo.

quinta-feira 10 de setembro| Edição do dia

O governo Bolsonaro-Mourão se recusa negociar, nem mesmo o acordo coletivo previsto para acabar em 2021 quer manter. A presidência da empresa, comandada pelo general Floriano Peixoto, junto com o judiciário, ataca o direito de greve descontando salário de agosto.

Esses generais e juízes, vivem com salários de R$30-40mil, além de uma série de regalias, e que nunca foram eleitos por ninguém, decidem em favor dos interesses dos monopólios de entrega internacional, que querem comprar a empresa com baixo custo de trabalho e mantendo só as agências que dão lucro, sendo que a empresa obteve R$ 102,1 milhões de lucro em 2019.

Os recursos obtidos com a privatização serão destinados para aquilo que determina a Lei de Responsabilidade Fiscal: pagar a dívida pública com bancos internacionais, verdadeiros parasitas do orçamento público.

Estes privilegiados, os capitalistas, generais, juízes e a casta política do Congresso, fazem de tudo para que sejam os ecetistas, os petroleiros, professores, profissionais da saúde, os entregadores aplicativo, atendentes de telemarketing, os que pagarão pela crise com seus direitos, permitindo que o preço dos alimentos subam enquanto diminuem nossos salários e o auxílio emergencial.

Pois isso que a luta dos Correios é uma luta de toda a população pobre e trabalhadora. Uma greve que mantém muita disposição de luta, com fortes manifestações em São Paulo e Minas Gerais, mesmo com a repressão em Indaiatuba no último fim de semana.

No Rio Grande do Norte, os ecetistas tem realizado atos duas vezes na semana, concentrados na agência da Avenida Hermes da Fonseca, com os trabalhadores dos interiores e da capital potiguar. Nessa quarta-feira, realizaram uma ação também na cidade de Macau. Na terça-feira, 9, fomos até o ato e conversamos com os trabalhadores sobre os desafios da luta e a importância de debater amplamente quais caminhos para fortalecer a greve. Publicamos abaixo alguns depoimentos desses ecetistas:

1 - ED: Como você vê o atual cenário da greve nacional dos Correios?

A: Devido a nós estarmos no governo de extrema-direita do Bolsonaro, né, eu acredito que indo muito bem porque geralmente eles fazem de tudo pra abafar e pra espalhar o medo, né, e o terror para que não seja feito. Apesar de termos duas centrais sindicais que, geralmente né, não entram em acordo, mas esse ano eu to vendo que eles tão fazendo um esforço, né mínimo, poderia ser melhor, pra greve ser forte em todo o Brasil. Eu acredito que apesar do cenário, né, nada medida do possível tamo com uma greve forte.

ED: E como você está vendo a auto-organização dos trabalhadores dos Correios, qual está sendo o papel das assembleias, se ta tendo comitê de greve, qual a importância desses espaços de auto-organização pra você?

A: Como eu to, é, não to dentro do sindicato dos dirigentes né, eu não sei como ta sendo feito isso, essa auto-organização, eu to vendo mais esses atos públicos pra dar visibilidade, mas eu não tenho notícia de um comitê, talvez entre eles né, dos dirigentes, eu não sou dirigente pra falar, então melhor seria perguntar pra alguém que ta por dentro...

ED: Você não está sabendo de ter tido assembleia recentemente?

A: As assembleias tão acontecendo ao ar livre nesses dias né, na terça e na sexta, mas assim uma assembleia de organizar para saber como vai ser os próximos passos, não. Acredito que eles tenham uma comissão assim, com dirigentes nacionais né, pra decidirem, mas com trabalhadores mesmo não.

Teve a última na terça-feira semana passada que foi lá na Hemonorte, onde fizemos doação de sengue e as outras tem sido aqui.

ED: Queria saber como você vê a importância das distintas categorias de trabalhadores que estão sob ataque pela reforma administrativa, passaram pela reforma da previdência de Bolsonaro e agora tão passando pela reforma da previdência de Fátima, e agora pelas privatizações como na Petrobrás, na Caixa. Qual a importância da unidade dessas categorias e o papel que deveriam ta cumprindo as centrais sindicais, em especial CUT e CTB em fazer essa unificação?

A: É eu acho a unificação imprescindível se a gente quiser... é, repensar a prática da democracia brasileira mesmo né, porque esse governo, acho que ele conta justamente com isso, com o enfraquecimento né da sociedade organizada, né, que ela pare de lutar por seus direitos. Então acho que é fundamental que todas as centrais abram o olho, né, porque a gente fica até questionando os interesses por trás, porque... é.... o governo já deu muitos, como que eu vou falar, motivos, né, pra essas centrais se organizarem, pra gente ir atrás de leite... por que que elas não tão? É uma pergunta a se fazer também. Por que elas tão demorando tanto em não querer? Há um interesse por trás disso, né? Do partido que eles já foram, né, no poder, nas últimas três antes do Temer já esteve na previdência, será que gostou tanto do poder que tá querendo voltar... né, nesse estilo né, e não no chão com os trabalhadores. Então é a pergunta que fica, acho necessário e acho que tá demorando pra acontecer.

2 - ED: Primeiro eu gostaria de saber como você está vendo o atual momento da greve, a força da categoria de Correios nacionalmente

B: Na minha opinião a greve ainda tá muito forte tem muita gente ainda que eu não esperava. Mas eu espero mais apoio da população, mais apoio das centrais sindicais. E agradecer o apoio de vocês do do...Esquerda Diário né? Muito bom, sempre ta presente aqui, muito obrigado por tudo aí.

ED: Como que você ta vendo a auto-organização dos trabalhadores, as assembleias, os comitês de greve, se estão acontecendo aqui em Natal?

B: Olha eu vou falar a minha visão aqui no estado. Aqui no estado [do Rio Grande do Norte] ainda não teve comitê de greve, eu acho a greve aqui ainda um pouco... simpática né? Não tem piquete, não tem comando de greve, não tem assembleia na sede. Mas eu to esperando que melhore mais né? Que seja uma coisa mais forte. Isso é o que eu esperava né.

ED: Como você vê o papel da unidade dos trabalhadores nacionalmente frente ao momento que ta vindo a reforma administrativa, a privatização da Petrobrás e de outras estatais, como você vê a unidade dos trabalhadores e o papel dos sindicatos nisso?

B: Olha na minha opinião... eu não sou do sindicato, mas ta muito tímida. Ta muito tímida, ninguém se mobilizando, nem contra essa tal de reforma administrativa que tão querendo fazendo agora, nem se mobilizaram também no negócio da reforma da previdência, da reforma trabalhista. Ta muito tímido, muito tímido. Eu espero mais... eu espero muito mais do que isso. Em geral, isso é em geral, todas categorias, população, classe operária e trabalhadora também viu. É isso.

Tomar a luta nas mãos dos ecetistas para fortalecer a greve e batalhar pela unidade dos trabalhadores

Os depoimentos desses trabalhadores expressam um questionamento correto: porque as grandes centrais sindicais do país, em especial a CUT e a CTB, não batalham para que as categorias que dirigem, como por exemplo em Natal e no RN os professores, trabalhadores da saúde, petroleiros e muitas outras, realizem ações solidariedade a essa luta, convocando a população? Muitas delas também não tiveram quarentena e perderam muitos colegas de trabalho, familiares e amigos, pelo negacionismo de Bolsonaro, dos generais, mas também do descaso dos governos com quem não pode ficar em casa.

E são categorias que agora estão na mira da reforma administrativa, das privatizações, e da retirada de uma série de direitos. Poderiam muito bem as centrais, saindo da quarentena sindical, apresentar um plano de lutas que unificassem essas categorias, rumo a uma greve nacional contra Bolsonaro, Mourão e os militares, mas também contra o Judiciário.

Ao não fazerem isso, mostra que não quiseram aprender com a greve de petroleiros no início do ano, que acabou isolada nacionalmente. A justificativa dos sindicatos é que unificar as lutas, poderia “apagar a pauta” dos Correios. Uma visão errada da própria greve, e da possibilidade da unificação das lutas mudar a correlação de forças em favor dos trabalhadores, em um momento que Bolsonaro se sustenta com base no auxílio emergencial para justificar seus ataques, mas que não encontra caminho fácil para garantir uma base sólida de apoio.

Nesse sentido que, como expressaram os depoimentos, faz falta a existência de espaços de organização da luta no RN, como assembleias por exemplo, que ficam restritas a deliberações simbólicas de continuidade da greve nos atos semanais. Assembleias, plenárias, são espaços fundamentais para que seja a base da greve, quem está sofrendo com o corte de ponto, possam decidir sobre os rumos da luta, como batalhar para convencer cada companheiro pressionado a voltar para o trabalho que aquela luta pode ir por mais.

São espaços que necessários para que a greve esteja na mão dos ecetistas, retomando a tarefa dos sindicatos de unificar as lutas dos trabalhadores, tomando para si também cada demanda da população, como a luta contra o aumento do preço dos alimentos. Os sindicatos devem ser instrumentos da auto-organização da democracia de base dos trabalhadores, não aqueles que decidam sozinhos o que será feito na greve.

A verdade é que essas centrais sindicais estão hoje a serviço da estratégia do PT e PCdoB de derrotar Bolsonaro apenas nas eleições de 2022, cumprindo um papel de impedir a radicalidade na luta de classes para então fecharem suas alianças com a direita e os capitalistas que estão nos atacando, para poderem salvar o capitalismo da crise, prometendo administrar a crise de forma “humana”. Nós sabemos, observando o governo Fátima aprovando a reforma da previdência, assim como todos os governos estaduais do PT e do PCdoB, que na prática seguem a mesma agenda liberal contra o qual os trabalhadores então se enfrentando hoje nos Correios.

A verdade é que a auto-organização dos ecetistas é muito fundamental para questionar também o conjunto do funcionamento da empresa. Por que ela deve ser controlada por um general privilegiado ou um magnata capitalista? Todos vão promover todo tipo de corrupção dentro da empresa, pois não tem interesse no serviço a população, mas ao próprio lucro. Pois a auto-organização dos ecetistas pode mostrar o caminho de como barrar a privatização de uma vez por todas, sob a bandeira do controle dos carteiros, trabalhadores da limpeza, e outros ecetistas de todas as decisões centrais da empresa.

Mas também impor às centrais sindicais que convoquem uma frente única dos trabalhadores , que possa realmente se enfrentar com Bolsonaro, Mourão e os militares, e todo esse regime herdeiro do golpe, inclusive porque precisamos poder lutar para revogar cada uma das reformas trabalhistas, da previdência. A auto-organização dos trabalhadores cumprirá um papel decisivo nessa batalha, apontando o caminho para uma saída política independente para os trabalhadores.




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