Juventude

Greve da USP termina, quais as lições?

Em assembleia geral, estudantes da USP decidem encerrar a greve. Com duração de quase três meses, os estudantes retornam às aulas com algumas conquistas parciais, mas principalmente com a ideia de que é preciso uma mobilização muito mais forte a nível nacional para poder arrancar vitórias concretas.

Flávia Toledo

São Paulo

segunda-feira 8 de agosto| Edição do dia

Na última quarta-feira, 10, foi realizada uma assembleia dos estudantes da USP que, entre outras coisas, aprovou encerrar a greve iniciada em maio. Apesar de ter alcançado algumas conquistas parciais em alguns cursos, apontamos que, para que seja feito um balanço equilibrado e correto da greve, é preciso analisar as conquistas imediatas e objetivas, mas também os avanços na mobilização a longo prazo.

A greve se iniciou num momento em que a vários de jovens e estudantes se mobilizavam pelos quatro cantos do país, e tudo apontava para uma luta nacional em defesa da educação. Hoje, com o golpe institucional tendo se consolidado, a situação política que vivemos é um pouco diferente.

A derrota que os secundaristas sofreram no país, com a reorganização escolar acontecendo por debaixo dos panos e a forte repressão ao estudantes da ETECs, que não por coincidência se deu um dia depois da consolidação do golpe, a implementação de ataques aos direitos básicos da vida dos trabalhadores e com a relativa estabilidade de Temer, a situação política em que vivemos dá um leve giro à direita. O PT e todo o seu aparato sindical, com sua grande potencialidade de inflamar os ânimos dos trabalhadores que tanto acreditaram em suas promessas, para além de durante anos ter fortalecido essa mesma direita reacionária que hoje se encontra no poder, nada fez para impedir de forma séria e consequente o avanço do golpe institucional no país.

É então que se mostrou que unificar as lutas nacionalmente era a única forma de ter forças o suficiente para conseguir com um só punho golpear o governo Temer e seus planos de precarizar mais e mais a educação, a saúde e os direitos básicos dos trabalhadores e da juventude.

Mas, se por um lado o nosso inimigo se encontrava muito forte e com pouca resistência organizada no conjunto do país, por outro lado tínhamos uma forte disposição de resistência expressa por uma das maiores greves das estaduais paulitas. Contudo as dificuldades que encontramos vinham também de dentro da própria mobilização e que debilitaram muito o curso da greve, como as não tentativas de criar uma forte unidade dos estudantes em greve com a população, que é justamente quem financia a custo de muito suor a universidade pública e que é sumariamente excluída pelo filtro social do vestibular.

A luta por uma educação pública, gratuita e de qualidade para toda a juventude é de interesse de todos. É preciso buscar apoio público, de fora da universidade, fazendo com que a greve dê voz àqueles que sustentam e carregam a USP em suas costas, os trabalhadores e a população, ligando as necessidades mais imediatas daqueles que estudam hoje, como a contratação de professores e funcionários, reajuste salarial, criação de mais moradias estudantis etc. com as necessidades daqueles que mantém a universidade de pé, lutando pelas implementação das cotas raciais, e apontando a necessidade de derrubar o vestibular e estatizar o ensino público para que todos aqueles que queiram tenham acesso à educação pública e gratuita; colocar universidade esteja à serviço da população e não das empresas privadas. A aliança com os trabalhadores é o ponto crucial que poderia ter acertado em cheio e trazido vitórias concretas para toda a universidade. Essa união só pode trazer forças, nos tornar maiores para enfrentar o nosso inimigo, parando de fato toda a produção acadêmica e a manutenção da universidade, pressionando a burocracia, a reitoria e o governo do estado.

Também neste sentido de não isolar a greve em um ou outro curso apenas é que se mostrou a necessidade da criação de comandos de greve, inclusive estaduais, com Unesp e Unicamp, em que os estudantes mobilizados se reunissem e discutissem os rumos da luta, levando propostas concretas para massificar a mobilização e lutando juntos contra o ladrão de merendas Geraldo Alckmin e o PSDB.

Todas estas medidas, que deveriam ter tido a frente o DCE da USP, hoje composto majoritariamente por militantes do Juntos-PSOL, infelizmente não foram levadas a diante pela direção do movimento, e este isolamento tanto do conjunto dos estudantes, quanto com os trabalhadores e professores e ainda mais com a população de fora é que pressionou até que a greve se enfraquecesse e acabasse.
Apesar disso, se consolidou uma camada de jovens que aprendeu muito com estes quase três meses em luta e, mesmo com a saída da greve, muitos continuam dispostos a seguir lado a lado dos trabalhadores e dos professores, resistindo à implementação de tantos ataques, defendendo que a universidade seja de fato pública, gratuita, e lutando para que se revolucione toda a estrutura de poder antidemocrática e excludente, racista, elitista e arcaica das universidades públicas.

É preciso seguir na batalha para convencer cada estudante e cada trabalhador da importância da unidade de todos aqueles que se sentem fragilizados por este governo golpista que nos arranca o que é mínimo, nos organizando e mantendo a mobilização ativa contra a conciliação petista e também a intransigência da reitoria, com ou sem greve, mostrando que nós não pagaremos por esta crise.




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