Política

GOLPE INSTITUCIONAL

Governos dos Estados Unidos e Alemanha dão aval imperialista ao golpe no Brasil

O embaixador dos Estados Unidos na OEA (Organização dos Estados Americanos), rechaçou nesta quarta na plenária da entidade a afirmação de países membros como Venezuela, Bolívia e Nicarágua, de que há um golpe em curso no Brasil, enquanto o governo alemão destacou que não houve golpe e manterá todas as relações diplomáticas com Temer.

André Acier

São Paulo | @AcierAndy

quinta-feira 19 de maio de 2016| Edição do dia

Foi a primeira vez que o governo americano rejeitou claramente a noção de que o processo de impeachment que afastou Dilma Rousseff da Presidência seja um golpe, como ela tem pregado. Até agora, a posição dos EUA vinha sendo de cautela, mas sempre reiterando que o processo contra a presidente está respeitando as normas democráticas.

A intervenção do embaixador americano, Michael Fitzpatrick, foi uma resposta ao pronunciamento dos representantes da Bolívia, da Nicarágua e da Venezuela, que chamaram o impeachment de golpe. Serviu também de apoio à declaração que enviou o novo chefe do Itamaraty, o tucano José Serra, condenando o eixo dos cinco países composto por Venezuela, Cuba, Bolívia, Equador e Nicarágua “rejeitando declarações que propagam falsidades” acerca de um golpe.

Os EUA foram o único país na reunião a rejeitar com veemência a tese, salientando que é na Venezuela que a democracia está em risco. Na semana passada, o governo venezuelano, que enfrenta protestos da oposição, chamou de volta o seu embaixador em Brasília num gesto de repúdio ao impeachment.

Segundo Fitzpatrick, não há dúvida de que no Brasil "há um claro respeito pelas instituições democráticas, uma clara separação de poderes, vigora o Estado de Direito e há uma solução pacífica das disputas. Nada disso se parece com o caso da Venezuela e essa é nossa preocupação".

"Não acreditamos que seja um golpe suave ou de outro tipo. O que ocorreu no Brasil seguiu o processo legal constitucional e respeitando completamente a democracia", afirmou.

Na América Latina, O governo chileno manifestou “preocupação”, o Uruguai se negou a reconhecer Temer. Apenas o governo de Mauricio Macri na Argentina havia manifestado apoio ao Brasil, dizendo que “confia nas instituições do país”. Nicolás Del Caño, dirigente do PTS na Frente de Esquerda e principal personalidade da esquerda argentina, repudiou as declarações de Macri e denunciou mais uma vez o golpe institucional da direita.

Governo alemão também se pronuncia a favor do golpe da direita

Em Berlim, a crise política no Brasil foi tema na coletiva de imprensa diária do governo federal alemão desta quarta-feira. Ao ser questionado por um repórter se houve um golpe de Estado no Brasil, Martin Schäfer, porta-voz do Ministério do Exterior da Alemanha, afirmou que não e acrescentou que o governo não se deixa levar por "jogos de palavra e formulações simples desse tipo".

Ele reiterou que tudo ocorreu de forma constitucional e afirmou que, após o ex-vice-presidente Michel Temer assumir a Presidência interina, tudo precisa continuar caminhando de acordo com a Constituição, destacando que o processo de impeachment ainda não foi concluído.

"Temos certeza de que um país forte, uma democracia como o Brasil, conseguirá superar essa crise. Mantemos relações diplomáticas com o Brasil e é claro que também vamos cooperar com esse governo [interino]", concluiu Schäfer.
Steffen Seibert, portavoz da chanceler Angela Merkel, também destacou que o Brasil é um importante parceiro estratégico da Alemanha, "o mais importante da América Latina", com o qual o país europeu mantém relações econômicas e políticas "muito próximas".

Interesses imperialistas no golpe da direita

Apesar de não se terem pronunciado, Obama e Merkel, através de seus porta-vozes, deixaram claro depois de uma semana da votação no Senado que dão a chancela do imperialismo ao golpe no Brasil. Mesmo o governo Temer não sendo o pivô ideal para avançar os ataques ao orçamento público, a flexibilização das leis trabalhistas e a abertura ao mercado, já que não possui a legitimidade do voto, os chefes do capital estrangeiro buscam aproveitar tudo o que o governo golpista pode arrancar, reservando-se a defesa de eleições gerais caso seja necessário desviar processos de massas, como disseram distintos jornais das finanças.

Por parte dos Estados Unidos, trata-se de algo maior. Do ponto de vista político, Obama quer aproveitar o giro à direita na superestrutura da América Latina e o fim de ciclo dos governos ditos “progressistas” para recuperar o terreno perdido na última década, na qual, enquanto a política externa dos Estados Unidos esteve concentrada no Oriente Médio, a região que considerava historicamente como seu “pátio traseiro”, abria-se para novos parceiros comerciais, principalmente a China. Ainda que o Peru, o Chile e a Colômbia se encontrem alinhados ao imperialismo ianque, o triunfo da direita nas eleições legislativas na Venezuela, a derrota de Evo Morales no plebiscito na Bolívia, a crise brasileira e a vitória de Mauricio Macri nas presidenciais argentinas marcam a oportunidade para reordenar a região ao tom do Consenso de Washington nos anos 80.

O embaixador Fitzpatrick já foi denunciado pelo Wikileaks como espião da CIA na América Latina. Em documento datado de 2007 vazado pela organização sueca, intitulado “Uma perspectiva do Cone Sul latinoamericano sob a influência de Chavez”, Fitzpatrick informa a CIA, com base em dados colhidos do serviço de inteligência do exército chileno, que “O presidente venezuelano Hugo Chávez está buscando agressivamente dividir a América Latina entre os populistas que adotam política anti-norteamericanas e aqueles que tentam estabelecer e fortalecer o livre mercado e as instituições democráticas de acordo com os interesses dos Estados Unidos”.

Nada a desejar ao golpista Temer, que também fazia no mesmo período suas ligações com os escritórios de Bush na Casa Branca, atuando no serviço de inteligência da CIA.

Em março de 2016, Fitzpatrick foi o defensor na reunião da OEA da decisão de Barack Obama que classificava a Venezuela como "extrema ameaça à segurança nacional americana" e impunha sanções a sete funcionários públicos por violação aos direitos humanos.

Quanto à Merkel, também há muitos negócios em jogo com o Brasil: no ano passado, depois de dizer que Dilma “é uma presidente reeleita legitimada pelas urnas”, a Alemanha selou 15 acordos econômicos nos campos da ciência e tecnologia, e de entrega dos recursos naturais brasileiros. O principal deles prevê a extração e a retirada, pela indústria alemã, das chamadas “terras raras” (um conjunto de 17 elementos químicos metálicos usados como matérias-primas estratégicas na indústria de alta tecnologia), que possibilita a fabricação de supercondutores, catalisadores, painéis solares e super-ímãs. Com o acordo, a Alemanha trata de acabar com o monopólio da China, que detém 97% da produção e é a maior exportadora de terras raras do mundo.

Com Temer, que já anunciou que quer “privatizar tudo o que for possível”, a sede de entrega da infraestrutura e dos recursos naturais facilitará a entrada dos monopólios. O volume global dos investimentos alemães no Brasil é de 19,4 bilhões de euros (R$ 74,2 bilhões), no que entram tanto os grandes consórcios do país como indústrias médias, mantendo importantes bases de operação de várias de suas maiores empresas, como a Volkswagen, Siemens, Basf, Bayer.

Como dissemos em editorial, defendemos uma Assembléia Constituinte Livre e Soberana que nos desvencilhe de uma Constituição aplaudida por Temer e seus comparsas, mas que foi tutelada pelos militares, cria superpoderes arbitrários ao judiciário, que contribui para que tenhamos um parlamento tão reacionário. É necessário que uma nova Constituição contra todo este regime imponha pela luta dos trabalhadores que todos os juízes sejam eleitos, revogáveis e recebam o mesmo salário de uma professora, e o mesmo para os políticos de alto escalão, que faça os capitalistas pagarem pela crise, expulse o imperialismo e contribua para que os trabalhadores assumam nas mãos a luta por uma forma superior de governo, um governo dos trabalhadores anticapitalista.




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