Amazônia

Governo Bolsonaro orienta diplomatas com informações falsas sobre desmatamento

Em circular enviada aos postos das representações do governo no exterior, seguem orientações para defender a atual política ambiental de Bolsonaro. Utilizando dados de governos anteriores a Secretaria de Relações Exteriores do Itamaraty lista argumentos para rebater críticas de governos estrangeiros ao programa ambiental brasileiro.

sexta-feira 23 de agosto| Edição do dia

Em reportagem publicada pela BBC News Brasil na tarde de ontem, informa que no telegrama enviado a diplomatas, o Itamaraty alega que houve "redução significativa, de 27.700 km² em 2004 para 7.500 km² em 2018 (redução de 72%)". Quando na verdade, segundo o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), esta redução ocorreu no período de 2004 de 27,8 km² para 4,6 km² em 2012, contradizendo a informação do telegrama. Durante o governo golpista de Michel Temer, no período de agosto de 2017 a julho de 2018, houve uma perda de mata nativa equivalente a 7900 km² na Amazônia Legal, gerando um aumento de 15% ao período em anos anteriores.

Ainda segundo o Inpe, desde 2012, na metade da segunda gestão do governo Dilma, o desmatamento na Amazônia Legal segue aumentando. Em comparação com Julho de 2018, dados preliminares do Inpe para o último mês de 2019 indicam aumento de 278% no número de alertas de desmatamento nesta região. O próprio presidente Bolsonaro em entrevista, no Palácio da Alvorada, alegou que esse aumento das queimadas se deve ao fato de ONGs conservacionistas estarem envolvidas nestes incêndios: "Pode estar havendo, não estou afirmando, ação criminosa desses ongueiros para exatamente chamar a atenção contra a minha pessoa, contra o governo do Brasil. Essa é a guerra que nós enfrentamos. Vamos fazer o possível e o impossível para conter esse incêndio criminoso" E como de costume, não apresentou nenhuma prova para sua declaração.

Vê-se desde a campanha ao planalto que Bolsonaro faz declarações, sem verossimilhança alguma mas que legitimam ações extremistas. Já eleito, em novembro de 2018 comentou em entrevista à TV Bandeirantes: “No que depender de mim, não tem mais demarcação de terra indígena”. Um mês depois declara: "Sou defensor do meio ambiente, mas dessa forma xiita, como acontece, não. Não vou admitir mais Ibama sair multando a torto e a direito por aí, bem como ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade). Essa festa vai acabar". No mesmo mês, a superintendência do Ibama no Rio anulou, uma multa que Bolsonaro adquiriu em 2012 por pesca ilegal.

Já no início do ano de 2019, Bolsonaro escala a líder da bancada do agronegócio, Tereza Cristina da Costa (DEM) - a musa do veneno - e empossada como ministra da agricultura para delegar a demarcação de terras indígenas, anteriormente de responsabilidade da Funai (Fundação Nacional do Índio). E em março, o fiscal do Ibama, responsável por ter autuado Bolsonaro, é exonerado do seu cargo de chefia do Centro de Operação Aéreas da Diretoria de Proteção Ambiental. Ações como esta são de um autoritarismo criminoso.

Bolsonaro defende o meio ambiente a tal ponto que vê em Ricardo Salles, ministro do meio ambiente (condenado em caso de liberar licenças ambientais) a saída para o desmatamento. Em entrevista recente à BBC Brasil, Salles acredita que a Amazônia apenas será preservada se houverem "soluções capitalistas". Como já foi colocado aqui não há como crer numa solução ambiental num “sistema que dependa, na sua base, da exploração descontrolada dos recursos ambientais, da exploração da classe que tudo produz e da elevação do consumismo, para o lucro de poucos.” Tal discussão também pode ser vista aqui na declaração do Movimento Revolucionário de Trabalhadores - MRT - onde manifesta a total rejeição ao governo Bolsonaro, que devido a suas declarações promoveu o “Dia do fogo” no sul do estado do Pará semanas atrás.


Obscurantismo de Bolsonaro assola a ciência brasileira

No início deste mês, o diretor Ricardo Galvão foi demitido do Inpe, pode-se ver aqui, após retrucar a covardia das declarações levianas de Bolsonaro aos dados de desmatamento levantados pelo instituto. Em abril, Bolsonaro critica, novamente, a metodologia do IBGE da pesquisa sobre desemprego. Em maio, ministro da Cidadania, Osmar Terra (MDB) ataca Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) dizendo não confiar em pesquisa do instituto tido como o mais importante em pesquisa em saúde pública da América Latina. Em junho passado, quatro servidores de cargos de chefia entregam seus cargos devido a redução no questionário do Censo Demográfico de 2020.

Não faltam os cortes às instituições de fomento a pesquisa como o CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e às universidades federais encabeçado pelo ministro Weintraub, com a desculpa de organizar as despesas públicas na educação, mas na verdade serviu para continuar a velha política: compra de votos, como pode ser visto aqui. Novamente, sem fundamento algum, Bolsonaro e seu governo deixam claro a inconsistência de suas declarações. “Ele [Bolsonaro] tem um comportamento como se estivesse em um botequim. Ou seja, ele fez acusações indevidas a pessoa do mais alto nível da ciência brasileira, [...] Isso é uma piada de um garoto de 14 anos que não cabe a um presidente fazer." Ricardo Galvão em entrevista.




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