Política

ACORDÃO PARA QUE(M)?

Governador do PCdoB quer saída para crise com “acordão” entre FHC e Lula

O governador do Maranhão Flávio Dino (PCdoB) foi entrevistado pela BBC Brasil. O teor da entrevista expressa a política de uma “oposição comportada” e de um partido que já há décadas concentra todos os seus esforços em participar do regime político dos capitalistas e das direções dos sindicatos apaziguando os conflitos entre trabalhadores e seus patrões.

Fernando Pardal

@fepardal

sábado 27 de maio| Edição do dia

A estabilidade do regime em primeiro lugar

Flávio Dino, a quem de “comunista” só restou o enganador nome de seu partido, fala como um autêntico político organicamente instalado no podre regime político construído pelo capitalismo no Brasil. Seu interesse maior, como o do PSDB, PMDB e outros partidos da ordem, é o de garantir a estabilidade política, ou seja, de que a crise que hoje feriu mortalmente o governo Temer encontre uma saída costurada “por cima”, pelos políticos que aí estão, sem que o poder “caia nas ruas” e os trabalhadores e as massas exploradas do Brasil se organizem politicamente para dar uma resposta por seus próprios meios, com uma greve geral que imponha uma nova constituinte, sem comitês dos trabalhadores que lutem por um governo feito por nós e para que os capitalistas paguem pela crise.

Na entrevista que concedeu à BBC, ele expressa isso sem meios termos. É por isso que diz, por exemplo, que “O ideal para todo mundo do sistema político é que a solução se dê via TSE" (com o julgamento da chapa Dilma-Temer que pode condenar também a presidência de Temer). Ou seja, Dino, exatamente como os governistas de hoje, quer evitar a todo custo uma saída por fora desse regime de corruptos onde as empresas como Odebrecht e JBS garantem seus interesses com milionários financiamentos de campanha e propina. Ele é um porta-voz do “mundo do sistema político”, e é impossível defender esse sistema político sem estar oposto aos interesses dos trabalhadores e dos explorados, que só terão uma saída que assegure seus interesses nessa crise econômica e política se derrubarem o sistema que Dino quer proteger e instituírem suas próprias leis, acabando em primeiro lugar com as reformas de Temer.

O plano de canalizar as mobilizações para manutenção do regime: “diretas já”

Mas Dino não deixa a mobilização dos trabalhadores e popular de fora de seus cálculos políticos. Se os tucanos e peemedebistas querem resolver “na bala” (inclusive literalmente como vimos absurdamente no ato em Brasília), o PCdoB e PT tem outras intenções: para eles trata-se de aproveitar a disposição de luta das massas, controlar ela por meio de seus grandes aparatos sindicais – CUT e CTB – tomando o cuidado de nunca deixar a luta “incendiar” demais para não perderem o controle das mobilizações, e canalizar essa luta para uma saída que beneficie o seu próprio projeto político por dentro desse regime: as eleições diretas para colocar Lula no governo. Ou seja, trata-se, para Flávio Dino, de usar a força das massas como moeda de troca para que o acordo institucional por dentro do regime beneficie seu grupo político. Mas, jamais, de que os trabalhadores lutem pela derrubada desse regime e coloquem sua própria saída. Por isso ele diz: “sinceramente, só haverá eleição direta havendo mobilização popular nessa direção. E esse é um ponto de interrogação muito mais do que qualquer juridiquês. Se não houver mobilização popular, é muito difícil o Congresso ou o TSE ir para esse caminho, porque se choca com o desejo meio que universal da classe política, da elite, de um certo nível de estabilidade. A classe social dominante não quer eleição direta agora.”

Quando ele diz que “a classe social dominante não quer eleição direta agora”, isso é uma meia verdade. A classe dominante, ou seja, a burguesia, os capitalistas, está dividida, sem um consenso sobre qual seria a melhor saída para atender seus interesses que – estes sim, são bastante consensuais – implementar as reformas e garantir a estabilidade política para atrair “investimentos”, como avançar nas privatizações que estão a todo vapor. Se é um fato que as eleições indiretas tem muita popularidade entre a classe dominante para colocar um “dos seus” para seguir tocando os ataques contra os trabalhadores, também é verdade que está muito difícil para a burguesia encontrar um nome de consenso que atenda aos diferentes setores e, acima de tudo, que consiga ter o mínimo de legitimidade para implementar as reformas.

E é aí que entra a visão de Dino e também de seus aliados petistas. Como disse Lula há não muito tempo, só um governo com a legitimidade das urnas poderia implementar as reformas. Claro que, se do ponto de vista dos capitalistas o PT fosse a melhor alternativa para fazer isso, não teria ocorrido o golpe institucional para colocar Temer na presidência. Por isso, a preferência é ainda por uma eleição indireta para, com disse Flávio Dino na entrevista, estabelecer um “consenso da elite que é trocar o Temer por outro que faça as reformas previdenciária e trabalhista”. O que atrapalha esse consenso é justamente a falta de um nome que possa ser hegemônico paa ser o “novo Temer”.

Já o PT, sabe que sua única chance de voltar ao governo agora é por meio das eleições diretas. Assim, tentam utilizar as grandes mobilizações dos trabalhadores, como foram o 15M, o 28A e a marcha em Brasília, para canalizar para a pressão parlamentar em nome das eleições diretas, eleger Lula e voltar para o governo de conciliação de classes que o PT exerceu por treze anos, mas já com medidas de ataque absurdas aprovadas no governo Temer, como a PEC 55 e a lei das terceirizações.

Na entrevista, Dino aponta explicitamente, com muito mais clareza política inclusive do que setores da esquerda que defendem as diretas junto com o PCdoB, tal como a maior parte das correntes do PSOL, que as diretas são uma saída completamente por dentro do regime e com a intenção de tentar recompor sua legitimidade frente às massas. Ele diz, sobre as diretas:

“É quase que uma saída tipicamente parlamentarista. No parlamentarismo você tem duas crises. Uma, que é apenas de governo, você resolve com um novo gabinete. Já quando você tem uma crise mais sistêmica, o que o chefe de Estado faz? Ele convoca novas eleições. A gente está numa crise bem mais aguda do que uma mera crise operacional. Então, por simetria com o que acontece no parlamentarismo, o remédio seriam de fato novas eleições, um banho de urna.”

Pois sim, seu “banho de urna” é para tentar tirar o mau cheiro deixado pelo lodo de corrupção e o escancaramento aos olhos de todos que o país é governado pelas grandes empresas que compram os políticos de todos os partidos da ordem – PT e PCdoB inclusos – e pelas reformas anti-trabalhadores de Temer.

Dino representa o setor que defende, como ele coloca “uma repactuação da política, deveria haver eleições gerais, de fio a pavio, pegar o Congresso, governadores, etc.” A repactuação política é uma saída conservadora com cara de progressista, justamente a ideia de impedir que a questão seja decidida pelos de baixo. Tal como a repactuação política da constituinte de 1988, tutelada pelos militares e que inclusive manteve dispositivos como a GLO, que foi utilizada por Temer para colocar o exército nas ruas de Brasília na última quarta-feira.

Para além da “ingenuidade” de Dino, um acordo de cavalheiros para manter o regime

Mas Dino faz questão de assegurar que não é “ingênuo” e não acha a saída das eleições gerais, defendida por ele, Lula, Luciana Genro e até Guilherme Boulos “o mais provável.” Acha que “O mais provável é o consenso da elite que é trocar o Temer por outro que faça as reformas previdenciária e trabalhista.”

E o que ele, como um defensor desse regime, propõe frente a isso?

“O único caminho que enxergo para a política é um acordo PT-PSDB, Lula e Fernando Henrique numa mesa (…) uma conversa direta seria um fato altamente positivo, uma mensagem importante de busca de recomposição da institucionalidade. Você não tem jogo institucional no Brasil hoje: o Congresso funciona precariamente, a Presidência da República, os partidos, os próprios governadores estão muitos enfraquecidos.”

Se Flávio Dino veio como porta-voz da ideia de um “pacto por cima” entre FHC e Lula, vistos como “os dois únicos líderes nacionais que sobraram, com autoridade política para chamar todo mundo, para reunir.”, ele está longe de ser o único. De fato, se nos atos e até na tribuna do plenário a bravata petista é vigorosa em defesa das diretas, nos bastidores a coisa parece ser distinta. O governador petista da Bahia, Rui Costa, foi o primeiro a colocar publicamente que estariam dispostos a negociar as indiretas. Depois, rumores foram ventilados pela Folha de S. Paulo de que o próprio Lula já estaria envolvido nas negociações de bastidores e disposto a apoiar um nome “de centro” em eleições indiretas. Na entrevista, Dino confirma isso e inclusive aponta as suas condições para a realização das indiretas (seriam as mesmas de Lula?):

“Nós da esquerda devemos colocar dois pontos sobre a mesa. Primeiro, normalidade política até a eleição, em 2018 - acertar o calendário eleitoral e as regras de 2018. E, segundo, haver a suspensão das reformas trabalhista e previdenciária, até que o povo decida. (…) A esquerda deveria participar da eleição no Congresso com essas condições, sem isso não faz sentido participar e legitimar esse negócio.”

E inclusive afirma que já tem sua “lista de candidatos indiretos”: “Claro que tenho minhas preferências, mas não posso me manifestar agora, até por questão de orientação partidária. Mas eu acho que tem aí uns três ou quatro nomes que topariam.”

O “vale-tudo” de Flávio Dino, que foi apoiado pelo PSDB, é o retrato da política petista

Para encerrar a entrevista, a BBC lembra o apoio que ele teve, para ser eleito governador, do PSDB, e pergunta como ele vê a delação envolvendo Aécio. Ele diz “eu lamento muito que o Aécio tenha sido atingido por uma denúncia extremamente grave”. Quando o entrevistador insiste: “Lamenta em que sentido?”, ele afirma:

“Lamento porque ele é senador, foi governador duas vezes, foi candidato à Presidência da República, é um quadro representativo de um segmento político que foi inviabilizado, ao meu ver, com essa denúncia. Num quadro de dissolução da política, qualquer grande liderança de qualquer espectro político que é atingida acaba sendo um fato ruim para relegitimar a política. Esse é meu ponto central: é imprescindível você reconstruir a instância política, a funcionalidade, a legitimidade. E isso só se faz, inclusive, a partir da dualidade esquerda/direita. A política precisa dessa dualidade. Ela não nega a política, o que nega a política é achar que (se) governa o país sem instituições políticas fortes”.

Para o governador do PCdoB a política está restrita aos marcos desse regime corrupto. Essa é a visão não apenas dele, mas de seu partido, de seus aliados petistas, de seus braços no movimento sindical por meio das direções da CUT e CTB. Para os trabalhadores, a visão deve ser oposta, e é isso que nós do MRT defendemos: é fundamental tirarmos a dominação política da mão dessa casta política privilegiada, desse judiciário autoritário, desse congresso de corruptos. Nesse momento, temos que criar nossos comitês de base em cada local de trabalho, exigir das centrais a organização de uma greve geral, e impormos por nossos próprios meios a derrubada de Temer, de suas reformas, desse regime, colocando de pé uma nova Constituinte onde possamos revogar as reformas e propor nossas medidas para que sejam os capitalistas a pagar pela crise.




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