SEMANÁRIO

Giovanni Arrighi e a China de cabeça para baixo (Parte II)

André Acier

Ilustração de Alexandre Miguez.

Giovanni Arrighi e a China de cabeça para baixo (Parte II)

André Acier

Tomamos o já clássico debate feito por Giovanni Arrighi em seu Adam Smith em Pequim para analisar à luz da atual relação sino-estadunidense a hipótese do "surgimento-ascensão" harmônico da China, e o papel da luta de classes na encruzilhada dos processos de decadência hegemônica na época imperialista de crises, guerras e revoluções.

No primeiro artigo de debate com Arrighi, estabelecemos alguns parâmetros da discussão sobre a eventual dinâmica da ascensão chinesa, presentes na obra Adam Smith em Pequim, em debate com teóricos e estadistas como Mearsheimer e Kissinger. Cumpre enveredar também nas analogias que o sociólogo e economista italiano constrói entre a ascensão de grandes potências diante da decadência de velhos hegemons, no início do século XX, e dinâmicas semelhantes no mundo atual. Seriam, ademais, tão harmônicos os processos de decadência de grandes potências na época imperialista, como prefere a teoria dos ciclos sucessivos de acumulação capitalista? Mais importante: qual o lugar da luta de classes nesse arranjo internacional?

A época imperialista e os arranjos interestatais

Discutimos anteriormente que para Arrighi, a China poderia de boa vontade “evitar o caminho da agressão e da expansão seguido pelas potências anteriores em seu momento de ascensão”, como defende em Adam Smith em Pequim. Essa vertente de surgimento de novas potências em detrimento de outras não se provou como real na nova configuração mundial que ganhou vida na virada do século XX, depois dos grandes processos de colonização da África e da Ásia entre 1880 e 1913. Esse período, que transferiu as guerras tradicionalmente localizadas no continente europeu para o território das colônias e semicolônias, precedeu uma mudança de gigantescas proporções na estrutura capitalista. Como dizia Lênin em Imperialismo, fase superior do capitalismo (1916), “Os monopólios, as oligarquias, a tendência à dominação ao invés da tendência à liberdade, a exploração de um número cada vez maior de nações pequenas e fracas por um punhado de nações riquíssimas e muito fortes: tudo isso originou os traços distintivos do imperialismo, que nos obrigam a caracterizá-lo como capitalismo parasitário ou em fase de decomposição”.

“Se fosse necessário dar uma definição o mais breve possível do imperialismo, dever-se-ia dizer que o imperialismo é a fase monopolista do capitalismo. Essa definição compreenderia o principal, pois, por um lado, o capital financeiro é o capital bancário de alguns grandes bancos monopolistas fundido com o capital das associações monopolistas de industriais, e, por outro lado, a partilha do mundo é a transição da política colonial que se estende sem obstáculos às regiões ainda não apropriadas por nenhuma potência capitalista para a política colonial de posse monopolista dos territórios do globo já inteiramente repartido”.

Dessa transição de uma política colonial para a política imperialista, Lênin depreende a característica central da época de que novas partilhas históricas de regiões do globo, e especialmente as disputas pela hegemonia, se dão unicamente por meio de grandes conflitos militares. Uma visão sóbria acerca da problemática chinesa no globo atualmente, sem esquecer a presença de outras potências imperialistas de grande porte que se colocam de entremeio, como Alemanha e Japão, e as velhas nações coloniais Inglaterra e França...

Lembrando o caráter condicional e relativo de todas as definições em geral, que nunca podem abranger, em todos os seus aspectos, as múltiplas relações de um fenômeno no seu completo desenvolvimento, Lênin afirma que:

“...convém dar uma definição do imperialismo que inclua os cinco traços fundamentais seguintes: 1) a concentração da produção e do capital levada a um grau tão elevado de desenvolvimento que criou os monopólios, os quais desempenham um papel decisivo na vida econômica; 2) a fusão do capital bancário com o capital industrial e a criação, baseada nesse "capital financeiro" da oligarquia financeira; 3) a exportação de capitais, diferentemente da exportação de mercadorias, adquire uma importância particularmente grande; 4) a formação de associações internacionais monopolistas de capitalistas, que partilham o mundo entre si, e 5) o término da partilha territorial do mundo entre as potências capitalistas mais importantes. O imperialismo é o capitalismo na fase de desenvolvimento em que ganhou corpo a dominação dos monopólios e do capital financeiro, adquiriu marcada importância a exportação de capitais, começou a partilha do mundo pelos trusts internacionais e terminou a partilha de toda a terra entre os países capitalistas mais importantes”

Esta dinâmica científica do processo de desenvolvimento das relações entre as potências ganhou realidade trágica com as duas guerras mundiais movidas pela necessidade de definir qual potência seria o “chefe” dos assuntos capitalistas no mundo, conflitos que se recolocaram no tabuleiro europeu. Assim também, como enfatizava Lênin, esses processos foram impregnados com a intervenção da luta de classes dos trabalhadores, em fenômenos de revolução e contrarrevolução, indissociáveis dos caminhos que entrelaçam as relações entre Estados, a economia mundial e a luta de classes. O caráter da época abria a possibilidade do triunfo das revoluções proletárias como saída à barbárie capitalista, inclusive nos países de desenvolvimento capitalista atrasado. Isso ficou patente com a Revolução Russa de 1917, e com distintos processos revolucionários – como na própria China – que levaram Trotski à elaboração final da teoria da revolução permanente, contra a caricatura teórica do “socialismo em um só país”, afamada pelo stalinismo.

Essas bases teóricas da época capitalista foram tidas como inadequadas por Arrighi. Diante delas fazia um contraponto polêmico – muitas vezes sem mencionar – defendendo em seu lugar a ideia dos ciclos sucessivos de acumulação, em que o binômio decadência-ascensão poderia deixar de lado as rivalidades militares características entre as principais potências, em função de fenômenos mais harmônicos condizentes com a capacidade de competição das economias preponderantes, frente às economias em declínio, e portanto, com a capacidade dessas economias de dar vazão a novas etapas de crescimento da riqueza material.
Na entrevista com Harvey, Arrighi menciona que

Considerando que em Braudel, a ideia é justamente que a acumulação capitalista dá saltos, se você não salta com ela, se você não a segue de lugar para lugar, você não a vê. Se você ficar focado na Inglaterra ou na França, você perde o que mais importa no desenvolvimento do capitalismo histórico-mundial. Você tem que se mover para entender que o processo de desenvolvimento capitalista é essencialmente este processo de saltar de uma condição a outra [...]

Mas as etapas históricas, ou o “salto de um lugar para outro, de uma condição para outra” segundo Arrighi, não se movem automaticamente, sem a ação humana organizada em classes sociais e seus Estados, no modo de produção capitalista. Esses saltos tem caráter disruptivo e conflituoso, por vezes de grandes proporções, quando atingem o ponto culminante da disputa entre velhas e novas potências, no marco de movimentos simultâneos entre as distintas classes em luta. Esta dinâmica, acreditamos, não é captada por Arrighi, o que leva a certas comparações históricas que deixam a desejar no quesito da concretude, e perdem seu poder explicativo ao trabalhar com estruturas sócio-econômicas bastante diferentes.

Estariam as atuais relações sino-estadunidenses no mesmo patamar que as relações entre Inglaterra e Estados Unidos na década de 1920?

Apesar de discordar da interação associativa de Mearsheimer (que exige que a China seja considerada como um desafio semelhante ao da Alemanha em 1914, e da Alemanha e do Japão em 1939), Arrighi termina caindo em uma espécie de miragem das analogias diretas, nem sempre pertinente aos próprios exemplos. Seu referencial para pensar a atual relação entre a potência em decadência hegemônica (EUA) e a potência em ascensão (China), é a que houve entre Inglaterra e Estados Unidos na virada do século XIX para o século XX.

Alargando as bases de sua hipótese da ascensão pacífica da China, o sociólogo italiano lança mão de um exemplo histórico, dessa vez no interior da própria época imperialista: os Estados Unidos não haviam tido necessidade de desafiar militarmente a Inglaterra para consolidar seu crescente poderio econômico. Na leitura de Arrighi, isso justificaria não apenas a possibilidade de uma ascensão pacífica da China em nossa época – bloqueando os argumentos militaristas de Mearsheimer e Kaplan – mas também assentariam as condições de possibilidade para uma nova ordem econômica mundial centrada na China, sem que seja militarmente dominada pelo pelos chineses. Não vamos nos deter sobre a hipótese de um domínio econômico-político capitalista de alcance global que não esteja sustentado materialmente pelas armas, algo no mínimo bastante curioso e sem paralelo na história recente. Voltamos à própria indagação de Arrighi: “Nessas circunstâncias, a melhor estratégia de poder da China diante dos Estados Unidos não poderia ser uma variante da estratégia norte-americana diante da Inglaterra?” (Arrighi 2008: 320).

Ainda que existam pontos de contato entre a relação sino-estadunidense e a relação anglo-estadunidense nos anos 1920, as diferenças são tão grandes que traçar um cenário semelhante é no melhor dos casos uma abstração. O problema é que a China – que na analogia de Arrighi se localizaria como os EUA de então, no desalojamento da supremacia inglesa – tem muito pouco a ver com os Estados Unidos daquele momento. O centro de gravidade da economia mundial passava da Inglaterra aos Estados Unidos, mesmo antes que se convertesse na principal potência capitalista. Não é o que ocorre hoje com a China. A China não é um país imperialista como a potência norte-americana daquele momento (isso, a despeito dos traços imperialistas que a China vem desenvolvendo, como mencionamos no quesito das exportações de capitais). Enquanto na década de 1920, quando os Estados Unidos já era o primeiro produtor mundial de muitas mercadorias, sua produtividade do trabalho equivalia a 150% da britânica, ainda sendo a segunda economia mundial por medição do PIB a China contemporânea tem uma produtividade bastante inferior relativamente: em 2014, o The Conference Board revelava que a produção chinesa era apenas 17,1% da estadunidense. A moeda chinesa, ainda que tenha um peso maior do que possuía no século XX, não chega perto da influência do dólar, que antes mesmo da hegemonia norte-americana ficar selada em 1945 já era a moeda de reserva mundial.

Em junho de 1921, Trotski abria uma das sessões do III Congresso da Internacional Comunista elencando a enorme concentração produtiva dos elementos essenciais para a indústria capitalista:

6% da humanidade habita o território dos Estados Unidos, que ocupam 7% da superfície terrestre. 20% da produção global de ouro se encontra nesse país; os EUA possuem 30% da tonelagem da frota comercial do globo, enquanto que antes da guerra tinham apenas 5%. A produção de aço e de ferro constitui, nos Estados Unidos, 40% da produção mundial; a de chumbo, 49%; a da prata, 40%; a do zinco, 50%; do carvão, 45%; do alumínio, 60%, a mesma proporção sobre o cobre e o algodão; do petróleo, de 66% a 70%; do milho, 75%, e dos automóveis, 85% [...] Mas a mudança não se deu apenas na indústria e no comércio mundiais, alcançou também o mercado financeiro. O usurário principal do mundo do pré-guerra era a Inglaterra; logo em seguida vinha a França. O mundo inteiro, inclusive os EUA, deviam a eles. Pelo contrário, neste momento, o único país que não deve nada a ninguém e ao qual todo o mundo deve é os Estados Unidos. Quase a metade do ouro mundial, que serve de base ao sistema monetário, concentra-se nos EUA.

No comércio marítimo, que incide sobre a frota marítima militar, também se via uma relação muito mais próxima entre Estados Unidos e Inglaterra nos anos 20, do que atualmente entre EUA e China. Também tomando Trotski,

Nesta esfera como em tantas outras, a posição dominante antes da guerra pertencia à Inglaterra. Concentrava em suas mãos cerca de 50% da tonelagem mundial. Buscando assegurar seu domínio em todos os sentidos, os Estados Unidos se dedicaram a construir sua frota de guerra tão rapidamente quanto desenvolveram seu comércio durante o conflito. Sua tonelagem, que não passava de 3 ou 4 milhões, se calcula hoje (1921) em 15 milhões, quase a mesma que a Inglaterra.

A situação, ademais, é muito diferente do período do entre guerras, na primeira metade do século XX, em que o problema de saber quem seria o dono dos assuntos capitalistas no mundo escapara do alcance da Primeira Guerra Mundial, e teria de ser resolvida num novo conflito armado de proporções inigualadas até então. De fato, a “cooperação” entre Estados Unidos e Inglaterra – que se pôs em prática quando os Estados Unidos já havia mostrado sua superioridade – esteve muito longe de resolver a crise de hegemonia imperialista aberta pela decadência britânica.

Ainda que superasse a Inglaterra sem necessidade de um conflito unilateral contra a velha potência, este processo de decadência britânica abriu o tabuleiro geopolítico para as maiores conflagrações militares entre as potências imperialistas em ascensão. Após a derrota dos processos revolucionários da década de 1930 – com o auxílio inestimável da contrarrevolução stalinista – a questão da hegemonia e da estabilização do capitalismo mundial se resolveu apenas como desenlace da Segunda Guerra Mundial, com o indiscutível estabelecimento da hegemonia estadunidense (dentre os Estados capitalistas) em meio à Guerra Fria.

Sem dúvida, nestes breves fatores, pode-se enxergar a enorme distância que separa a China atual dos Estados Unidos da década de 1920, que Arrighi busca comparar. Isso não exclui a avaliação inegável de que a China é uma superpotência em ascensão. O que coloca às claras é que parte de uma base muito mais atrasada do que a potência norte-americana do primeiro quarto do século passado.

Os atritos da decadência hegemônica e o fantasma da luta de classes

Ademais, ao calcular uma modificação pacífica da preeminência capitalista global, Arrighi parece subestimar os efeitos dos processos de decadência hegemônica de uma superpotência. No período de ascensão hegemônica dos Estados Unidos, durante o entre-guerras e em meio ao início de uma renovada crise comercial e industrial internacional (1928) com seu centro irradiador na potência estadunidense, as perspectivas acerca dos efeitos da crise econômica sobre a hegemonia eram tema de debate na esquerda, particularmente no interior da III Internacional.

A literatura oficial da Internacional Comunista, já burocratizada pelo stalinismo e responsável por enormes derrotas do proletariado, como na Revolução chinesa de 1925-27, estabelecia que o início da crise comercial e industrial com epicentro nos Estados Unidos diminuía sua força assertiva como potência. Neste contexto, Trotski redigiria sua Crítica ao Projeto de Programa rascunhado por Bukharin para o VI Congresso da Internacional Comunista (1928), incluindo uma série de observações sobre o papel dos Estados Unidos e o problema de sua batalha pela hegemonia. Para Trotski a crise não diminuía a hegemonia norte-americana, e sim empurrava os Estados Unidos a uma política mais agressiva. Ou seja, a nova crise capitalista tornaria mais implacável a hegemonia norte-americana que num período de prosperidade, dado que impulsionaria os Estados Unidos a impor-se sobre os seus rivais utilizando todos os métodos, os “pacíficos” e os militares, em todas as áreas do planeta. A década de 1930 e as consequências da Segunda Guerra Mundial foram o atestado do prognóstico do revolucionário russo.

Imaginando um período de decadência hegemônica dos Estados Unidos, as coisas não se tornam mais suaves. Nenhuma potência que tem a primazia imperialista no mundo decai em silêncio. O instinto de sobrevivência das classes dominantes, que se verifica em geral em cada país contra a classe trabalhadora e os setores oprimidos, é muito mais sensível para a classe dominante da principal potência imperialista global. Isso não significa que sempre e em qualquer circunstância lançará mão de meios militares para preservar seu posto; entretanto, nos momentos decisivos de choque, é mais que sugestivo que utilizará seus recursos materiais e militares para conservar sua preponderância. Já nos referimos às operações de Donald Trump para preparar um terreno mais favorável quando assim o exigir um enfrentamento direto contra um desafiante à altura (que, mais uma vez, está longe de reduzir-se à China, e tem na Alemanha um rival de peso).

Segue Trotski [1] ,

É preciso compreender claramente que se o primeiro período de intervenção norte-americana teve para a Europa conseqüências estabilizadoras e uma consolidação [...] pelo contrário, a linha geral dos Estados Unidos, sobretudo em épocas de crise e dificuldades econômicas próprias, provocará na Europa, como no mundo inteiro, profundas comoções.

Ao mesmo tempo, a própria batalha de uma potência em ascensão por sua hegemonia implica internalizar as complexas contradições da economia e da política mundiais. Ainda tratando do potencial assertivo dos Estados Unidos, Trotski afirmava que a expansão planetária não correspondia a uma “paz civil” duradoura em território ianque. Pelo contrário, a expansão implicava que os conflitos e contradições exteriores impactariam no interior da potência norte-americana, já que hegemonia não significa dominação ilimitada, especialmente no seio da luta de classes internacional. A maior onda de greves na história dos Estados Unidos se deu justamente na década de 1930, durante seu maior impulso ascensional.

O grande ausente da análise de Arrighi: a luta de classes

Ainda se referindo à debilidade estrutural da análise da IC sobre as conseqüências da transição do centro de gravidade da economia mundial para os Estados Unidos, Trotski assinala [2] algo sumamente importante sobre a relação da geopolítica com a luta de classes:

Não se assinala [no documento de 1928] que a potência dos Estados Unidos no mundo e o expansionismo que se deriva dela são os que obrigam este país a introduzir nos alicerces de seu edifício os explosivos do mundo inteiro: todos os antagonismos do Ocidente e do Oriente, a luta de classes na velha Europa, as insurreições dos povos coloniais, todas as guerras e todas as revoluções [...] Se durante a década passada as conseqüências imediatas da guerra imperialista foram a fonte principal de situações revolucionárias, pelo contrário, no curso da segunda década depois da [Primeira] guerra, estas situações surgirão, sobretudo, das relações recíprocas a Europa e os Estados Unidos .

É dessa dinâmica de disputa pela preeminência mundial que o revolucionário russo extraiu a conclusão – ratificada pela História posterior – de que não faltariam situações revolucionárias e contundentes fenômenos da luta de classes fruto da batalha pela hegemonia entre as potências. Poderíamos nos perguntar: a interação entre a China e os Estados Unidos, nessa nova fase da crise econômica mundial, seria um potencial irradiador de situações revolucionárias no mundo?

Assim, uma importante debilidade da análise de Giovanni Arrighi reside em simplesmente ignorar a luta de classes como fator fundamental para a compreensão dos fenômenos, por um lado, e por outro separar as disputas geopolíticas dos efeitos internos que essas disputas tem sobre a luta de classes (e, inversamente, como a luta de classes dos trabalhadores afeta as perspectivas políticas do governo chinês no tabuleiro internacional). Não à toa evita tratar da classe trabalhadora chinesa e os múltiplos conflitos internos fruto dos choques com o capital chinês e estrangeiro, e a influência que as greves e embates de classe na China têm sobre a dinâmica da luta de classes internacional.

Interessante notar que, na mesma entrevista com Harvey que mencionamos neste debate, Arrighi chega a notar que existe uma relação estreita entre a ascensão da China e os conflitos trabalhistas em seu interior, especialmente no que respeita à vontade manifesta da burocracia de Pequim em reprimir as rebeliões operárias e o instinto de insubordinação que atravessa a história milenar chinesa. Não fica claro, entretanto, de que lado desse conflito se posiciona, não sendo do seu interesse pensar uma ordem alternativa ao capitalismo. Ademais, se explica acerca da razão que o motivou a não tratar da classe trabalhadora e sua luta contra o capitalismo na obra O Longo Século XX, localizando essa ausência na fixação pelo “paradigma da financeirização” no desenvolvimento histórico do capitalismo, desde o século XIV...

Pensando a China e seus inúmeros conflitos internos, esta dinâmica assinalada por Trotski tem grande importância. Do resultado da contumaz contenda com Hong Kong dependerá também a capacidade de Xi e do Partido Comunista Chinês controlarem os exacerbados ânimos anti-Pequim exibidos por Taiwan e pela comunidade muçulmana Uighur.

Não menos importante, as contradições crescentes entre a burocracia bilionária e antioperária de Pequim, de um lado, e os setores jovens da classe trabalhadora, de outro, tendem a se incrementar em meio ao surgimento global da potência asiática. Segundo o China Labour Bulletin [3], em 2018 houve 1700 conflitos trabalhistas registrados, muito acima dos números de 2017. Com a desaceleração da economia chinesa ao nível mais lento em três décadas, os trabalhadores chineses protagonizam greves para defender-se contra as demissões e pela proteção contra cortes de direitos. 80% dos 601 conflitos trabalhistas registrados na primeira metade de 2019 ocorreram no setor privado chinês, em busca de melhores condições de trabalho e mais altos salários, além do direito de sindicalizar-se de maneira independente. Trata-se de reivindicações que se chocam co as medidas tomadas pelo Partido Comunista Chinês, que a nível federal e provincial concedem todo tipo de benefícios às empresas privadas, nacionais e estrangeiras, para superexplorar os trabalhadores nativos.

Mais de 25% das greves operárias nas grandes cidades como Pequim e Shanghai se dão no setor de serviços, que acumula os segmentos pior remunerados e mais precários dos trabalhadores. Os trabalhadores das “economias de plataforma” que dominam a indústria e a logística chinesas são parte da vanguarda da luta por direitos trabalhistas. O ódio contra os funcionários do PCCh, muitas vezes ligados aos gerentes de empresa, ou sendo eles mesmos os gerentes, também se transfere em parte para Xi Jinping, que desde que assumiu a presidência em 2012 fortaleceu o controle sobre a Federação dos Sindicatos Chineses, central sindical que atende ao Partido Comunista, a fim de quebrar a vontade de resistência de seus mais de 300 milhões de filiados e dar segurança à patronal.

Ademais, Xi Jinping aumentou o ritmo das perseguições contra estudantes e jovens que buscam auxiliar os trabalhadores chineses a se sindicalizar. Para isso, a burocracia de Pequim conta com um enorme aparato de vigilância policial e repressão, com inúmeros casos de tortura de estudantes presos por colaborar em greves operárias [4].

Com a situação econômica em declínio relativo e o conflito comercial-tecnológico em curso contra Trump, a tendêcia de combinação entre as disputas geopolíticas e a luta de classes se incrementa. Isso se expressou recentemente na indignação da população chinesa diante da perseguição da gigante de telecomunicações Huawei contra o trabalhador Li Hongyuan, em função de uma disputa trabalhista. Li foi condenado a 251 dias de prisão. A onda de descontentamento com essa mostra de censura e perseguição levou os chineses a se exprimirem em apoio à luta dos habitantes de Hong Kong contra a Lei de Extradição, impulsionada pelo regime de Pequim através da governadora Carrie Lam, como um método importante a ser levado em conta no interior da China.

Não há dúvida, portanto, de que a luta de classes será um fator de magnitude central para a evolução da China, merecedora da atenção de todos os que pretendem averiguar os nexos internos e os ritmos de desenvolvimento da potência asiática.

As leis de ferro da luta de classes e a necessária preparação estratégica

A modo de conclusão, tomando esses elementos da análise de Arrighi, é importante observar a dinâmica da ascensão chinesa nos marcos complexos da crise econômica mundial e da profunda modificação das relações entre o gigante asiático e os Estados Unidos, o que fazem prever que sua ascensão não será harmônica. Mesmo imaginar a possibilidade de que a China se transforme em um país capitalista por meios pacíficos fica descartado do tabuleiro de perspectivas em nossa época. Uma evolução nessa direção envolveria grandes comoções mundiais, tanto no terreno militar, quanto no terreno da luta de classes. Tais abalos de magnitude colocariam no horizonte um cenário renovado de crises, guerras e revoluções.

Podemos dizer, portanto, que o equívoco simétrico oposto ao do “dogmatismo militarista” nas relações internacionais, é o da subestimação do caráter convulsivo dos processos de decadência hegemônica na época imperialista, filho do reducionismo pacifista dos interesses capitalistas. A retórica “globalizante” de Xi Jinping, em detrimento do protecionismo cada vez mais aberto de Trump, não torna a China um fator de harmonização global. Qualquer que seja o destino da China, que está longe de ser a única na disputa com os Estados Unidos (a Alemanha é um país imperialista de primeira ordem), não poderá violar os condicionantes históricos de uma época que não permite o surgimento de novos hegemons sem rupturas violentas no cenário mundial.

Se há um cenário descartado nesta equação, é certamente o de um processo de ascensão pacífico da China como hipotética primeira potência imperialista. Como dizia Lênin, no terreno da economia mundial, os resultados da luta de classes e dos conflitos interestatais são os que definem as novas relações de forças. A dinâmica da ascensão chinesa não pode escapar das leis históricas de nossa época. É necessário estarmos preparados para encarar um cenário como esse, o que recoloca em primeiro plano a importância da construção de organizações revolucionárias da classe trabalhadora a nível nacional e internacional.

No terreno propriamente chinês, a fusão entre a jovem classe trabalhadora e a juventude chinesas com a tradição revolucionária da IV Internacional e sua teoria-programa da revolução permanente seria um acontecimento de importância histórico mundial, indispensável para o marxismo em nossa época.

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FOOTNOTES

[1Leon Trotsky, “Stalin, el gran organizador de derrotas”. Buenos Aires: Ediciones IPS, 2014, p. 86.

[2Idem, p. 87.

[3China Labour Bulletin, “The shifting patterns of labour protests in China present a challenge to the union”, https://clb.org.hk/content/shifting-patterns-labour-protests-china-present-challenge-union.

[4Ver “Um espectro ronda a China: a avidez herética da juventude pelo marxismo”, Ideias de Esquerda, http://www.esquerdadiario.com.br/Um-espectro-ronda-a-China-a-avidez-heretica-da-juventude-pelo-marxismo.
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André Acier

São Paulo | @AcierAndy
Cientista político, doutorando pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), é editor do Esquerda Diário e do Ideias de Esquerda
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