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George Orwell: A literatura como denúncia política

A atualidade política da literatura de George Orwell

Afonso Machado

Campinas

domingo 5 de fevereiro de 2017| Edição do dia

A grande imprensa vem noticiando um fato literário: o romance 1984, do escritor inglês George Orwell, está sendo intensamente lido em países como os EUA. Como explicar que este clássico da literatura do século XX ainda chame a atenção de tantos leitores neste início de 2017? Como é que um romance publicado em 1949, torna-se uma espécie de oraculo literário para pessoas que, diante de tantas ameaças conservadoras, não cessam de roer as unhas?

Segundo alguns jornalistas, as medidas políticas e o perfil ideológico do presidente norte americano Donald Trump, contribuem para colocar novamente em circulação um romance que levanta problemas políticos tais como o autoritarismo e a manipulação de massa. Não é pra menos: embora palavras como controle, vigilância, perseguição e tortura não tenham sido inventadas por Orwell, elas se fazem presentes nas preocupantes notícias fornecidas pela imprensa como um todo. Definitivamente, a leitura da obra deste autor inglês proporciona frio na espinha porque o que ela relata não é ficção delirante: é a ficção que leva a uma reflexão sobre aquilo que é ou pode ser verídico(e este realmente é o grande barato da ficção).

Partindo da versão de que o interesse pela obra de Orwell possui relação com os temores que a política de Trump despertam, estamos diante de um importante fenômeno cultural: a literatura que denunciou o totalitarismo político do século passado, ganha força num quadro histórico em que os trabalhadores e as minorias se sentem ameaçados. Para quem é calejado no método marxista, conceber a literatura como forma de denúncia política não representa nenhuma novidade. Certamente o marxismo é a corrente que possui as melhores condições teóricas para lidar com esta questão.

George Orwell foi escritor, jornalista e ensaísta numa época em que o terror sacudia os homens de letras. Ele sentiu na pele a Guerra civil espanhola(1936-39) e a Segunda Guerra mundial(1939-45). Naquele momento, que na expressão do crítico literário Victor Serge foi “ a meia noite do século “, as noções de passado, presente e futuro poderiam desaparecer perante a barbárie. A reação ao fascismo e ao stalinismo gerava diferentes posições estéticas. No caso de Orwell a escrita caminhava na direção daquilo que alguns classificam como romance distópico. Para aquela geração de militantes socialistas, a exemplo do próprio autor inglês, os horrores produzidos pela engenharia ideológica do totalitarismo estimulava a criação de enredos sombrios. George Orwell afirmou que quando escrevia não estava interessado em produzir obras de arte mas sim realizar denúncias.

Um dos possíveis títulos para o livro 1984 seria O Último Homem da Europa. O enredo desolador é bem conhecido: o personagem Winston é um funcionário do Ministério da Verdade, na imaginária região Pista de Pouso Número 1, que integra um bloco da Oceania. Trata-se de uma sociedade totalitária, na qual o culto à personalidade do Grande Irmão traz profundas semelhanças com aquilo que rolava na Alemanha de Hitler e na União Soviética de Stálin. Na adoração da figura do Grande Irmão, reside uma prática política em que o Estado determina o que é fato, o que é real, o que é verdade. A obra expõe que num regime totalitário a produção de imagens, a criação de narrativas, funcionam como artimanhas ideológicas que asseguram a manipulação de massa: o amor, o desejo sexual, a oposição política e a crítica são facilmente reprimidos.

A possibilidade mental de interpretar fatos externos, produzindo outras versões/leituras, não existe perante o discurso oficial do Estado, detentor da verdade. Este é o drama do personagem Winston. Este é o drama de uma população que não pode pensar: quem pensasse cairia nas mãos da Polícia do Pensamento e depois seria vaporizado. Sendo assim a sacada de Orwell ainda atinge pessoas aterrorizadas com um mundo em que os fatos políticos atropelam seus desejos/necessidades. O diagnóstico sobre um futuro asfixiante, a composição futura de uma sociedade baseada no controle das massas, ainda nos toca de perto: mesmo que o imaginário da obra seja produto dos elementos políticos e culturais do seu tempo, ele pode causar terror num jovem leitor.

1984 pode parecer muito pop para leitores que não são muito chegados aos clássicos. Tais leitores incorrem numa atitude perigosa, pois afinal de contas, a literatura não possui prazo de validade. São muitas vezes nas obras do passado que encontramos as energias literárias capazes de incrementar a crítica política ao mundo atual; e o clássico de Orwell está aí pra isso. Comparado a Charles Dickens e possuindo paralelos literários com a obra de outros escritores de peso tais como Jack London e Aldous Huxley, Georg Orwell nos oferece uma fatia sombria do século XX. A luta contra a barbárie hoje, é uma desesperada resistência para que o que Orwell escreveu não saia mais de dentro das páginas do livro.




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