INTERVENÇÃO NO RIO /

General quer liberdade para atirar para matar e defende, para o Rio, os métodos de guerra que usou no Haiti

Gilson Dantas

Brasília

sexta-feira 23 de fevereiro| Edição do dia

O general Heleno Pereira, que comandou tropas militares no Haiti – onde os militares brasileiros foram acusados de dezenas de violações dos direitos humanos - propõe que, no Rio, qualquer membro das forças armadas possa atirar para matar diante de um “suspeito armado”.

Ele acha que os resultados da intervenção militar podem ser “pífios porque os métodos são limitados por uma serie de melindres jurídicos e pequenas burocracias”.

Ele alegou que as tropas brasileiras no Haiti tinham a liberdade de decidir, no próprio local, pelo sargento de patrulha, o que fazer e o que não fazer. Naquelas circunstâncias eles poderiam inclusive diretamente atirar para matar.

O general também propôs snipers [atiradores de elite] bem posicionados para atirarem “quando não houver risco de pessoas inocentes saírem feridas”.

Tudo isso parece confirmar que, treinados e habituados a violações e violências contra os pobres e negros das periferias do Haiti – onde o Brasil agiu com tropas de ocupação a mando dos Estados Unidos/ONU – os generais brasileiros querem agora desenvolver os mesmos métodos, métodos de guerra, nas comunidades pobres do Rio.

Ele também defende que as patrulhas militares levem juízes a tiracolo para decidir operações diretamente ao vivo, no local. Também defende o mandado coletivo, isto é, liberdade para invadir todas as casas que quiserem, esclarecendo que “não é para fazer nenhuma carnifica, nenhum genocídio”.

Confira trechos da noticia [Ex-comandandte do Haiti sugere levar juízes em operações no Rio, de 21/2/18, UOL/Rio de Janeiro]:

“Em meio à polêmica sobre o possível uso de mandados coletivos de busca e apreensão em operações das Forças Armadas no Rio de Janeiro, o ex-comandante brasileiro da missão de paz da ONU no Haiti, general da reserva Augusto Heleno Ribeiro Pereira sugeriu, em entrevista ao UOL, que juízes sejam levados para as operações das forças de segurança durante a intervenção no Rio de Janeiro.
Na opinião do general, os magistrados poderiam conceder ou negar mandados de busca e apreensão individuais ou coletivos no terreno e durante a ação. Segundo ele, esse tipo de medida foi adotada e funcionou bem em operações de forças de paz no Haiti.

Heleno defende que o Judiciário dê respaldo a ações mais duras das forças de segurança, inclusive para que militares possam atirar para matar ao avistar suspeitos portando fuzis —da mesma forma que ocorria na missão da ONU.
Eu acho que estava na hora de o Judiciário se tomar de patriotismo e favorecer a ação de quem está do lado da lei”.

“Algumas das sugestões de Heleno condizem com a pauta que vem sendo defendida nos bastidores do planejamento da intervenção no Rio por integrantes da cúpula das Forças Armadas junto ao governo. A agenda do alto escalão militar está focada, porém, em dar segurança jurídica aos militares” [...]
“Heleno foi o primeiro comandante da Minustah (Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti) entre 2004 e 2005”.

“O governo federal disse nesta semana que estudava a ideia de pedir à Justiça mandados de busca coletivos, com diversos nomes e múltiplos endereços —que poderiam ser apontados até com coordenadas geográficas— para facilitar o trabalho policial durante a intervenção”. [Fiquemos a imaginar a execução de mandados coletivos de busca no Morumbi...ou no Lago Sul em Brasília...]

“O general disse também que o Judiciário deveria dar respaldo ou criar jurisprudência para tornar as "regras de engajamento" das forças de segurança mais flexíveis no Rio. Regra de engajamento é, em linhas gerais, como o militar se comporta ao se deparar com um suspeito armado”.

“No Haiti, cada líder de unidade militar tinha amparo jurídico da legislação internacional —o capítulo sete da Carta das Nações Unidas— para avaliar uma situação de perigo e decidir como agir. "Essa avaliação era muitas vezes do sargento que estava com a patrulha vivendo o problema lá na ponta da linha", disse.
Se o militar avaliasse que um suspeito com um fuzil representava ameaça à sociedade, poderia ordenar que ele se rendesse ou até atirar direto para matar”.

“Em 13 anos de missão no Haiti, 52 investigações foram abertas contra militares brasileiros por motivos variados, segundo levantamento da promotora de Justiça Militar Najla Nassif. Em 18 delas, militares responderam por lesão corporal ou morte, mas todos esses casos foram arquivados”.

"Se eu tiver um ’sniper’ [atirador de elite] bem posicionado, eu faço um trabalho muito bem feito e vou criando respeito pela força legal", disse. Segundo ele, o disparo só pode ser realizado, porém, se não houver risco de pessoas inocentes saírem feridas”.
"Os resultados têm sido pífios porque os métodos são limitados por uma série de melindres jurídicos e pequenas burocracias que ficam parecendo que são em defesa da democracia e acabam sendo em defesa do bandido", disse o general.

[Crédito de imagem modificada: www.portaldoamazonas.com] [Link da notícia: https://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2018/02/21/ex-comandante-no-haiti-sugere-levar-juizes-em-operacoes-de-seguranca-no-rio.htm]




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