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GM: o primeiro grande embate da reforma trabalhista

quinta-feira 31 de janeiro| Edição do dia

As 28 medidas da reforma trabalhista que a General Motors está buscando enfiar goela abaixo dos trabalhadores de suas fábricas vêm escancarar um dos principais objetivos do golpe institucional que abriu caminho para Bolsonaro: a necessidade dos patrões de atacar os grandes bastiões da classe operária industrial, como é o caso dos metalúrgicos. Isso importa muito para os empresários de todo país, ávidos de passar esses ataques, afinal para estes se há sacrifícios a se fazer diante da crise, que sejam os trabalhadores que o façam, enquanto seus lucros seguem intactos.

Crescem os olhos para cima dos poucos direitos que a classe trabalhadora na indústria tem, que na crise já não podem mais aceitar. Não podem mais manter a situação de os trabalhadores da indústria, em sua maioria, ainda trabalharem formalmente e sua média salarial ser maior do que a de outros setores, como serviços ou comércio. Em especial nestes bastiões, que conquistaram um nível de organização importante por conta da luta contra a ditadura, o que fez com que, mesmo numa transição pactuada da ditadura para a democracia, tenham conseguido "direitos demais" (de acordo com a burguesia).

Daí surge toda a discussão que a FIESP e todo setor industrial fez em prol do golpe, da reforma trabalhista e da reforma da previdência com a combinação de outras demandas como a simplificação tributária. Entretanto o golpe ainda não foi suficiente para esses ataques irem até o fim. Depois da aprovação da reforma trabalhista no ano passado, houve certo recuo das patronais de aplicá-la mais até o fim por conta de conflitos que surgiram, insegurança jurídica muito grande, instabilidade política no país e do risco que significa um ataque frontal ao movimento operário mais concentrado.

Ou seja, apesar do golpe institucional e o governo Temer conseguirem aprovar no parlamento a reforma trabalhista, o ataque precisa ser imposto no local de trabalho, em cada categoria, derrotando um movimento operário que não está derrotado. A partir da mudança de cenário com as eleições manipuladas pelo judiciário que trouxeram um governo de extrema-direita que abertamente vem atacar os trabalhadores, a situação política que a General Motors encontra o país agora é bem mais favorável aos seus interesses: ainda que repleto de crises como as denúncias envolvendo Flavio Bolsonaro, estamos diante de uma "lua de mel" do governo Bolsonaro, com a alta popularidade do governo e a trégua das centrais sindicais. Isso faz com que as empresas sintam-se mais a vontade para realizar a reforma trabalhista nos grandes centros industriais.

Não significa que a vitória da patronal está dada: é preciso impor na luta de classes o que se aprovou no parlamento, e apenas o anúncio das medidas já causou grande indignação entre os trabalhadores. Na planta de Gravataí, por exemplo, os trabalhadores chegaram a realizar uma manifestação em repúdio às propostas.

Essa é a primeira patronal multinacional (da indústria automotiva que é um dos carros-chefe da economia) a querer aplicar a reforma nesse nível. Portanto o resultado disso vai ser um aceno muito claro para todas as outras patronais. Exemplo disso é o presidente da Mercedes ter declarado estar solidário à causa da GM de suspender investimentos no país por falta de rentabilidade, ressaltando que "o Brasil precisa ser mais liberal". Se essas medidas passam num bastião do movimento operário como esse sem uma forte resistência, serão a porta de entrada para que se apliquem ao conjunto da indústria e também um sinal aberto para a aprovação da reforma da previdência, mãe de todas as reformas.

Por estar acontecendo numa empresa desse porte, o impacto disso na complexa cadeia produtiva em volta das montadoras pode ser enorme. Nesta semana mesmo a GM começou a se reunir com os seus fornecedores para discutir essa sua reestruturação e negociar preços mais baixos. Se a GM impõe preços mais baratos pelos insumos, estrangula essas indústrias e força ataques aos trabalhadores. O controle da produção das fornecedoras costuma ser bem rígido por parte das montadoras, o que coloca a hipótese da GM querer que os fornecedores implementem medidas duras da reforma trabalhista para reduzir os encargos trabalhistas e assim reduzir o preço dos insumos e peças.

Se aproveitando da chantagem de fechar as fábricas no Brasil, a empresa busca também incentivos do governo. A fala do secretário de Guedes, de que “se precisar fechar, fecha” parece servir como resposta, é como se dissesse que o maior incentivo que o governo tem para oferecer para a GM já foi dado: a reforma trabalhista e as melhores condições para aplica-la.

Não se pode descartar uma queda de braço entre as montadoras e o governo por mais incentivos fiscais, já que o novo programa de governo para a indústria automobilística (Rota2030) dá incentivos apenas para as áreas de pesquisa e desenvolvimento, diferente do antigo programa InovarAuto (2012-2017) onde eram presentes medidas de proteção ao setor como pesadas sobretaxas para importação de veículos. Parece que com uma política de menos estímulos do governo federal, as montadoras estão partindo para uma estratégia de buscar incentivos estaduais e municipais (não à toa já saiu pronunciamento dos municípios e do governo estadual).

É importante se ter claro que a implementação dessas medidas no Brasil são parte de uma reestruturação internacional, tendo suspensões e reduções de salário também na Argentina, além do fechamento de 3 fábricas nos EUA e uma no Canadá. Tudo não passa de uma chantagem absurda, tanto porque no ano passado já foi realizado um “corte de custos” com o acordo de 3 anos sem aumento de salário em São Caetano do Sul, quanto pelo fato do Onyx ser líder de vendas pelo quarto ano consecutivo no Brasil.

Sacrificam assim os trabalhadores para fazê-los pagar por uma crise que os patrões criaram. Por enquanto as centrais sindicais, que no começo do ano cumpriram o papel traidor de assinar uma carta de “respeito” ao governo Bolsonaro, e apesar de terem mudado um pouco o discurso recentemente, até agora nada ou pouco fizeram para organizar a luta. Mesmo a Conlutas, que se coloca à esquerda do PT, está seguindo os mesmos passos do imobilismo da CUT e da Força Sindical.

Nós do Esquerda Diário e do Movimento Nossa Classe nos solidarizamos com todos os trabalhadores da GM e colocamos nossas forças para juntos enfrentarmos esse ataque. Achamos que é fundamental desmascarar essa chantagem da patronal exigindo a abertura de livros de contabilidade para que se escancare para onde está indo o dinheiro, inclusive os investimentos que, segundo o último acordo com o sindicato, deveriam ter sido feitos na planta de São José dos Campos porém não foram.

A aplicação da reforma trabalhista na GM deixará um caminho aberto para os capitalistas atacarem todos os operários da indústria do Brasil, por isso mais que nunca é necessário que a CUT, a CTB e também a Força Sindical rompam com a trégua ao governo e organizem assembleias e um plano de luta efetivo que unifique as plantas da GM com a enorme indústria regional do ABC, com os trabalhadores de toda a cadeia produtiva e com todos os trabalhadores e trabalhadoras atacados pelas reformas.

Chamamos a Conlutas para que seja contrapressão a esse imobilismo das centrais, aprovando em assembleia junto aos trabalhadores de São José dos Campos o repúdio aos ataques da GM e um grande ato em frente a GM mobilizando todas as forças no estado de SP.




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