Internacional

CÚPULA IMPERIALISTA

G7: frágil unidade imperialista frente à ameaça chinesa e o temor à recessão mundial

Não os uniu o amor mas sim o espanto: a ameaça chinesa, assim como o temor à recessão mundial é o que conquistou essa frágil unidade das potências do G7 na França.

terça-feira 27 de agosto| Edição do dia

Macron conseguiu seu G7, diz a imprensa francesa. Le Monde anuncia em seu editorial “Macron no G7: a audácia como alavanca diplomática”. O que não dizem estes escrivães dóceis do poder é que este “êxito” foi em troca de não apenas DE não confrontar Trump, mas também de dividir palanque com o dono da Casa Branca. Mais ainda, quem além do midiático, saiu melhor localizado concretamente do G7 foi Trump.

Não satisfeito em ter conseguido obrigar a França a alterar seu projeto de taixa Google”, Trump conseguiu vários avanços comerciais: uma maior abertura do mercado interno japonês aos produtos yankees, o arremate de um “grande acordo comercial” depois do Brexit com a Grã Bretanha (sem que Boris Johnson possa questionar algo), assim como a promessa de Angela Merkel, preocupada com as ameaças alfandegárias que pesam sob os fabricantes alemães, de avançar “o mais rápido possível” rumo à consolidação de um acordo comercial entre a União Europeia e os EUA.

Quem ganhou então o G7?

A realidade é que em meio a nuvens pesadas que ameaçam a economia mundial ninguém queria inquietar o presidente estadounidense, por medo de que a cúpula terminasse com um novo escândalo, como a do ano passado no Canadá. Assim como Macron, nenhum outro líder das potências presentes ousou contrariá-lo, em especial sobre a guerra comercial que leva adiante com a China.

Assim, quando um jornalista lhe perguntava se seus aliados lhe haviam aconselhado sobre terminar o conflito com Beijing, Donald Trump disse: “Ninguém me disse isso. Ninguém teria se atrevido. Acredito que respeitam a guerra comercial”. Mais ainda, na realidade todo o G7, preparado pela presidência francesa, tinha no foco como conter o ascenso de Pequim. Assim, na prévia, Macron se reuniu com Putin preocupado com que a aliança estratégica entre a China e a Rússia siga se consolidando, e ver se é possível reestabelecer os laços de utilidade com o presidente russo.

Na cúpula em si, a presença do primeiro ministro hindu Narendra Modi, que aplica uma política abertamente reacionária e arriscada em Cachemira frente à maioria muçulmana do Estado, que em outros momentos havia gerado ressentimentos em líderes ocidentais, é uma demonstração forte da importância que o Ocidente atribui à Índia como barragem frente à influência da China na Ásia e no Oceano Índico. Sempre com a aprovação de Trump. Desta forma também foi convidado o primeiro ministro australiano Scott Morrison, um dos mais decididos apoios de Trump em sua cruzada contra a China. “A participação da Austrália é uma oportunidade para dividir nossa perspectiva do Indo-Pacífico com as principais democracias do mundo”, disse o líder de governo de Canberra antes de partir para a França.

Igual significado teve a presença de cinco países africanos, do ditador egípcio Abdel Fatah al-Sissi (presidente em exercídio da União Africana e sócio de projetos euro-mediterrâneos), passando pelo senegalês Macky Sall (Dakar, capital de Senegal, antiga colônia francesa, é a cidade eleita para abrigar a próxima cúpula chinesa-africana de líderes em 2021) entre outros, assim como o novo presidente sul-africano Cyril Ramaphosa (primeira economia africana e sócio estratégico de Pequim), para contrariar com a rede de relações em seu velho pátio traseiro colonial, assim como outras novas, a presença crescente da China na África.

O último canto do cisne do moribundo multilateralismo?

Este G7 seria uma mostra da utilidade do multilateralismo, segundo gritam os mais entusiastas comentadores da cúpula frente aos nacionalistas. Mas seria muito desmedido dizer algo assim. O caso iraniano, por exemplo, está muito longe de ser resolvido, apesar da visita “surpresa” do Ministro de Assuntos Exteriores do Irã, que havia prevenido Trump, que se transformou na “grande audácia” de Macron. Ainda que se tratou de um sinal de distensão após a escalada das últimas semanas, não existe ainda a mais mínima mudança sobre os temas espinhosos nas diferenças entre o Irã e os EUA. “Nada está feito, as coisas são eminentemente frágeis”, se apressou a adicionar Macron, prova que a falta de garantias das negociações concluídas no marco desta cúpula, encerrada com uma simples conferência de imprensa conjunta de Trump e Macron, sem comunicado comum referendado pelos membros do G7.

Mais prosaicamente, poderíamos dizer que não nos unificou o amor mas sim o espanto: a ameaça chinesa assim como o temor da recessão mundial é o que conquistou esta frágil unidade das potências do G7. Ainda em um comentário publicado no sábado, a agência oficial chinesa Xinhua disse que era pouco provável que a “reunião deste ano possa gerar algum tipo de liderança coletiva ou iniciativa concreta que possam beneficiar o planeta”, esta espécie de encontro dos “amigos” do mundo livre não passou desapercebido por Pequim. A unidade das potências ocidentais é o grande temor da direção do Partido Comunista Chinês.




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