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Futebol: 80 anos do dia em que o Perú humilhou Hitler

Berlim foi sede dos Jogos Olímpicos de 1936, onde o PerU goleou nada mais nada menos que o país natal do Führer, na Áustria. Depois, o Comitê Olímpico internacional cancelou a partida e os humildes tiveram que se retirar

sábado 13 de agosto| Edição do dia

Berlim foi sede dos Jogos Olímpicos de 1936, onde o Perú goleou nada mais nada menos que o país natal do Führer, na Áustria. Depois, o Comitê Olímpico internacional cancelou a partida e os humildes tiveram que se retirar

No torneio participaram 16 equipes nacionais que disputaram uma eliminatória entre as 16 seleções, ou seja, sem fase de grupo e começando desde as oitavas de final.

A equipe italiana se consagrou campeã pela primeira vez após ganhar a final contra a Áustria por 2 a 1. Alemanha? Terminou em sexto e foi uma queda mínima para Hitler, que sabia ansiava o poder da Alemanha e pensava que o esporte poderia ser um dos âmbitos a desenvolver.

Aproximava-se a Segunda Guerra Mundial. “Uma história que tem a ver com a dignidade”, disse Eduardo Galeano em uma entrevista.

Galeano, o amante da bola no pé, se surpreendeu ao saber desta história tão particular e decidiu colocá-la em seu livro “Espelhos, uma história quase universal”. Anunciou-o assim em um programa jornalístico da TV Uruguaia, enquanto a seleção Charrúa dava aula no mundial de futebol de 2010 disputado na África do Sul: “Nos Jogos Olímpicos de 36, que foram organizados por Hitler em Berlim para demonstrar a superioridade da raça ariana, ele estava em frente ao palco, num lugar privilegiado do estádio de Munique, assistindo a partida entre Peru e Áustria, sua terra natal [...]. O Peru ganhou de 4 a 2, apesar de que o árbitro – para evitar desgostos ao Führer – anulou três gols peruanos. Imgine como isso caiu a Hitler [...]. Nesta mesma noite os dirigentes se reuniram e anularam a partida. Então, a delegação peruana, em um exemplo de dignidade, se retirou dos Jogos Olímpicos”.

Na década de trinta, a seleção peruana participou do primeiro Mundial disputado no Uruguai, e ganhou uma Copa América em Lima, em 1939. Para Galeano, naquele campo se destacou “O Rolo Negro”, apelido do dianteira negra goleadora composta por José Maria Lavalle, Adelfo Magallanes, Lolo Fernández, Alejandro Villanueva e José Cholo Morales. Somada à essa façanha descrita por Eduardo Galeano, o povo peruano se comoveu e fez valer seu orgulho por essa geração de 30.

Logo surgiria uma polêmica, já que em um inquérito conduzido por Luis Carlos Arias Schreiber (jornalista da revista Don Balón Perú), observava-se que a partida foi anulada por uma entrada de fãs peruanas no campo, que bateram nos jogadores austríacos e, para piorar, os dirigentes peruanos chegaram tarde para uma reunião que fora convocada para fazer sua defesa. Decidiu-se anular o jogo disputado, que se repetiria à portas fechadas, já que supostamente seu desenvolvimento normal tinha sido impedido. Por fim, a defesa peruana nunca foi escutada, e o Comitê Olímpico com a FIFA, julgaram a favor dos europeus.

O mais estranho desta investigação, que o primeiro mundo goza de documentação escrita (jornais londrinos), é que os simpatizantes peruanos puderam rebelar-se tão livremente em um lugar onde os consideravam inferiores e onde uma rebelião tem complicações frente a todo aparato que já sabemos como pode reagir. Por outro lado, a denúncia austríaca indica que as provocações por parte dos sul-americanos foram feitas no final da partida, e no início dos acréscimos, quando o Peru fez os dois gols da vitória... Porque a Áustria não se queixou no momento das agressões?

O Comitê Olímpico Internacional deu lugar às brigas austríacas. Acordou-se uma reunião para as 9 da manhã do dia seguinte e segundo o documento oficial dos vencedores, os dirigentes peruanos chegaram às 11h, quando a comissão já estava em pé. Sem escutar a versão dos peruanos, foi decretada a repetição do encontro para a segunda-feira, 10 de agosto. Para evitar este ultraje, o Perú retirou-se da competição, a pedido de seu governo militar sob o general Oscar Benavides. E a Áustria foi para as semifinais.

Apesar da humilhação que haviam sofrido no campo, o país natal de Hitler venceu a Polônia nas semifinais por 3 a 1. No final o primeiro lugar ficou para Itália, que ganhou por 2 a 1 nos acréscimos e se tornou campeã. Benito Mussolini e Hitler, sem nenhuma dúvida, penduraram a medalha.

Em protesto contra essas ações, que os peruanos consideraram como insultantes e marginalizante, as delegações Olímpicas do Peru e da Colômbia deixaram a Alemanha. As delegações da Argentina, Chile, Uruguai e México expressaram sua solidariedade ao Peru.

"Pode parecer uma pequena história, mas acredito que tem muito a ver com as diversas dimensões que tem o futebol, que é às vezes uma fonte de dignidade coletiva. Isto teria que se ensinar nas escolas: sabem uma coisa, crianças, nós pertencemos a um país que humilhou Hitler. Não seria lindo começar uma aula assim?" Eduardo Galeano

*Após esta situação vivida pela equipe Inca em terras germanas, Michael Dasso, membro do Comitê Olímpico Peruano manifestou:
“Não temos fé no atletismo europeu. Viemos aqui e encontramos um punhado de comerciantes”.




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