Cultura

160 ANOS DE FREUD

Freud e a questão homossexual

Nos anos 1920 ocorreu um forte debate entre os membros da IPA (Associação Internacional de Psicanálise, fundada por Freud) sobre se deveriam ser aceitos psicanalistas homosexuais como membros dessa associação. O que disse e o que fez o fundador da psicanálise?

domingo 8 de maio de 2016| Edição do dia

Sigmund Freud nasceu em maio de 1856 em Freiberg, uma pequena cidade da atual República Tcheca, que na época pertencia ao Império Austro-Húngaro. Morreu em 1939, em Londres, cidade a qual emigrou em consequência do perigo que corria por conta de sua ascendência judaica frente ao avanço do nazismo. Estudou medicina, se especializou em neurologia e seu interesse em abordar os casos de neurastenia (neurose) o levou a construir uma teoria e uma prática para abordá-los: a psicanálise.

Em 1903, dois anos antes de escrever “Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade”. Freud foi entrevistado por um jornal de Viena que queria saber sua opinião sobre o julgamento de um profissional vienense acusado por suas práticas homossexuais. Sua resposta não deixou dúvidas “... o homossexual não é propriedade de um tribunal. Além disso, tenho a firma convicção de que tampouco os homossexuais devem ser tratados como doentes...”.

Em 1920, a Associação Holandesa de Psicanálise recebeu a solicitação de membro de um médico conhecido por suas manifestações homossexuais. Os holandeses, antes de dar uma resposta, consultaram Ernest Jones, que pertencia ao círculo próximo a Freud. Jones, em uma carta que escreveu a Freud, conta qual foi sua resposta: “aconselhei a que não aceitassem... e agora esse homem foi descoberto e condenado à prisão” e lhe perguntou se considera que sempre deveriam ser recusadas as solicitaçõesde psicanalistas homossexuais. Otto Rank e Freud se contrapõem à sua colocação e respondem “sua pergunta, Ernest, concernente à possível qualidade de membros homossexuais, foi considerada por nós e discordamos de você. De fato, não podemos excluir tais pessoas sem ter outras razões suficientes, assim como não estamos de acordo com sua perseguição legal.” A posição de Rank e Freud sustentava que a homossexualidade devia ser um fator neutor ou um não fator na avaliação dos candidatos.

Em dezembro de 1921, dentro do comitê que dirigia a IPA, se enfrentaram pelo menos duas posições: a de aceitar ou não a solicitação de analistas homossexuais aspirantes. Os vienenses, Ferenczi, Rank e Freud, consideravam que sim; os berlinenses, liderados por Karl Abraham, diziam que talvez sim, talvez não, mas sustentavam que “aos olhos do mundo a homossexualidade é um crime repugnante e se fosse cometido por um de nossos membros nos traria um grave descrédito.”

Mas os que mais resistiam à posição de Freud a respeito da homossexualidade eram os analistas dos Estados Unidos.

Freud manteve por mais de sete anos correspondência com James Putnam, um analista de Harvard, que defendia que os pacientes necessitam “mais do que conhecer a si mesmos”, conhecer as “razões de porque deveriam adotar ideais mais elevados para suas obrigações”. Os esforços de Freud para que Putnam abandonasse seu moralismo diante de pacientes em análise foram em vão. Mas teve, pelo menos, a oportunidade de ridicularizá-lo. Em uma ocasião Putnam relatou a Freud suas fantasias – de uma vida feliz em família – e este respondeu: “Você está sofrendo de um sadismo muito intenso e precoce, que se expressa através de uma bondade excessiva e autotortura. Por trás da fantasia de uma vida familiar feliz você deveria descobrir as fantasias normais reprimidas de uma rica realização sexual.” E em uma de suas últimas cartas a Putnam, Freud foi mais direto: “A moral sexual tal como a define a sociedade – e como exemplo extremo a sociedade norteamericana – me parece muito depreciável. Me identifico com uma vida sexual mais livre.”

Freud visitou os Estados Unidos em apenas uma ocasião, foi no outono de 1909, com o único propósito de difundir sua teoria. Realizou cinco conferências de introdução à psicanálise.

Esta breve viagem ratificou o que já sabia sobre a sociedade norteamericana: que ostentavam uma moral puritana, que eram sexualmente reprimidos, e que sublimavam sua energia sexual através do consumo e da acumulação.

Freud, pela relação epistolar que manteve com Putnam, soube que o que se exercia na América do Norte não era uma prática psicanalítica, ao menos não aquela que ele construiu. Que houve com os pacientes homossexuais que foram atendidos por analistas como Putnam? Este nunca abriu mão de sua posição de que devia intigar nos pacientes sua própria visão ética.

O que defendia Freud para os homossexuais ou para a psicanálise?

Talvez para os dois, mas o que se colocava em jogo era a sua teoria psicanalítica. Freud defendia, em “Três ensaios sobre uma teoria da sexualidade”, que a psicanálise demonstrava que toda pessoa podia fazer uma escolha de objeto homossexual e que os sentimentos libidinosos com pessoas do mesmo sexo desempenham um importante papel na vida sexual.

Freud, também, se opunha a considerar as pessoas homossexuais com um grupo especial. E foi por essa razão que se opôs ao movimento homossexual alemão, liderado por Karl Ulrich, que se autopercebiam como o terceiro sexo, ao qual ele respondeu em seus “Três ensaios...”.

Ainda que, junto a eles, se pronunciou contra a penalização de pessoas gays.

Anos mais tarde, em 1930, quando a legislação austrogermana planejava modificar o código penal, no qual penalizariam as práticas homossexuais, Freud assina uma declaração na qual se rechaçava as leis que penalizavam as relações homossexuais. Na declaração se defendia que penalizar a vida sexual era uma violação dos direitos humanos.

Carta de uma mãe

Freud recebe, em 1935, uma carta de uma mãe norteamericana preocupada com seu filho. “Deduzo – diz Freud – que seu filho é homossexual. Me impressiona que não use esta palavra em sua informação sobre ele...”, e acrescenta, “a homossexualidade não é uma vantagem, mas também não é algo de que alguém deva se envergonhar; um vício ou uma degradação, nem pode ser classificado como uma enfermidade”. E, mais a frente, Freud diz: “Você me pergunta se posso ajudá-lo, devo supor que me pergunta se posso abolir sua homossexualidade e colocar em seu lugar a heterossexualidade...”, em relação ao que afirma: “Se é infeliz, se vive dilacerado por seus conflitos... a análise pode lhe trazer harmonia, tranquilidade mental...”.

A resposta à mãe norteamericana, escrita em inglês, pode se supor que não estava dirigida a ela, mas sim aos analistas desse país. Seu objetivo era lhes dizer que as pessoas homossexuais poderiam não ser tratadas adequadamente nesse país.

Contudo, apesar de todo essa viagem que realiza Freud, por que expulsou do consultório a sua paciente que chamou de “a jovem homossexual”?

Será o tema de uma próxima coluna.

Leia mais: Em 1935, Freud já dizia que a homossexualidade não era “doença” e não devia ser “curada”

A descriminalização da homossexualidade na URSS: um marco na história da liberação sexual

Tradução: Fernando Pardal




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