Política

DIÁLOGO COM O PSOL

Frente ao chamado do PSOL-RJ ao PCdoB para coligação: essa não é a saída que o Rio precisa

No dia 31 de agosto, o PSOL tornou público que seus diretórios municipais e estaduais, do Rio de Janeiro, haviam convidado o PCdoB para compor a pré-candidatura de Renata Souza enquanto vice.

Simone Ishibashi

Rio de Janeiro

terça-feira 1º de setembro| Edição do dia

Imagem: Reprodução

O PSOL, no Rio de Janeiro, dá mais um passo na direção oposta àquela que os trabalhadores, a juventude, as negras e negros e todo o povo necessitam. Marcelo Freixo, cabe lembrar, desistiu de sua candidatura, considerada forte para a prefeitura do Rio, sob a alegação de que o PSOL não havia conseguido um acordo com o PT, PCdoB, PSB, e até mesmo o PDT, para “combater o fascismo” através de “unidade ampla”. A carta enviada ao PCdoB, em busca de uma coligação, pode ser lida aqui.

Mesmo assim, o PSOL anunciou a pré-candidatura de Renata Souza, uma mulher negra, vinda da Maré e do mandato da Marielle. No Rio de Janeiro, o PSOL poderia estar à frente de uma campanha que servisse para indicar um caminho distinto das tentativas de conciliação entre interesses opostos: os dos trabalhadores e do povo, de um lado; dos capitalistas e seus partidos, de outro. Sobretudo em meio à enorme crise econômica, política e social que assola o Rio de Janeiro e exige uma resposta à altura com mudanças profundas e radicais. Mas não é isso que está se desenhando. Aqui, como a exemplo de várias capitais, o PSOL, ao fazer o chamado ao PCdoB para compor sua chapa como vice, mostra sua disposição em seguir na estratégia da conciliação de classes.

Ao buscar coligação com o PCdoB, o PSOL se põe lado a lado com o partido de Flávio Dino, que está articulando um “MDB de esquerda” em que caberiam as mais variadas gamas de representação política burguesa, menos uma política de independência de classe. A tentativa de construir manifestos e frentes com alas dos capitalistas e golpistas, como se isso fosse oferecer qualquer resistência à Bolsonaro, é uma verdadeira falácia, que atende única e exclusivamente a cálculos eleitoreiros que em nada podem favorecer os trabalhadores e o povo. Como demonstração disso, o governo de Flávio Dino, no Maranhão, aplicou a reforma da previdência, mesmo durante a pandemia, mostrando que está no pólo oposto da oposição à política de ataques aos trabalhadores. O candidato do PCdoB à prefeitura de São Paulo, Orlando Silva, foi relator da MP 936, medida provisória editada por Bolsonaro em abril que permitia aos empresários demitir e suspender contratos, sem quaisquer prejuízos.

Do ponto de vista da luta de classes, o PCdoB está à frente de vários sindicatos importantes, através da CTB, que no Rio de Janeiro tem inclusive uma presença mais significativa que em outros estados. Um exemplo é o SINTECT (Sindicato dos Trabalhadores da Empresa Brasileira de Correios Telégrafos e Similares), que há 10 dias está protagonizando uma importante greve. No entanto, para além de não movimentar qualquer unidade entre os trabalhadores dos Correios e dos demais setores que dirigem, nas redes sociais da pré-candidata do PCdoB, Enfermeira Rejane, praticamente não há menção sobre a luta. A CEDAE no Rio, também é dirigida pelo PCdoB e tem um largo histórico de desarmar os trabalhadores frente às tentativas de privatização de uma das empresas públicas mais importantes do Estado. Uma separação da política e da luta sindical bem ao gosto das burocracias, que seguem atuando sob medida para não questionar profundamente os lucros capitalistas.

No passado, esse mesmo partido compôs a coligação com Garotinho, que tinha Benedita como vice. Em 2006, o PCdoB, após lançar chapa própria, apoiou Cabral no segundo turno. Firmando a aliança que elegeria o mesmo em 2010, no primeiro turno. Em 2008, Jandira concorreu à prefeitura do Rio pela coligação PCdoB/PT, e, ficando em quarto lugar, apoiou Eduardo Paes do PMDB, base aliada de Lula, virando Secretária de Cultura da Prefeitura do Rio. Segundo as suas próprias palavras: “A aliança com o Eduardo Paes foi um pedágio nacional que nós pagamos para sustentar um projeto maior, que era Lula e Dilma. Eu fui candidata em 2008, não fui para o segundo turno e escolhemos o campo Lula.” Foram parte de construir a crise econômica, política e social que o Rio vive hoje, com uma política de conciliação de classes que prestou confiança a alguns dos mais nefastos corruptos que já governaram o estado e a cidade.

Não é possível saber ainda se o PCdoB aceitará abrir mão de encabeçar uma lista comum. Uma nota muito similar do PCdoB veio ao público no dia 27 de agosto na qual a Enfermeira Rejane declarava que buscaria o PSOL e o PT para propor serem vice, enquanto em posts feitos nas redes reafirmava querer Benedita da Silva do PT como vice. No entanto, para além do resultado de tais negociações, o que já pode ser dado como certo é que essa coligação, a exemplo de várias que o PSOL, vem estabelecendo nacionalmente aponta no sentido oposto à uma resposta de fundo para a crise para os trabalhadores.

O PSOL com essa movimentação não está fortalecendo a esquerda, mas trabalhando em prol da reedição das velhas fórmulas, do velho reformismo, da perpetuação da lógica pragmática e de adaptação às burocracias sindicais e políticas que ajudaram a pavimentar o caminho para o governo da extrema direita. Em suma, do que deveria ser superado. O PT, apoiado pelo PCdoB, governou 13 anos para os capitalistas, não organizou qualquer resistência ao golpe e a Bolsonaro. Isso sem falar dos intentos de aliança com partidos diretamente burgueses como o PDT, PSB, Rede e PV, como o PSOL está estabelecendo em Belém. Essas alianças, como demonstra o exemplo de Belford Roxo onde o PT está apoiando o candidato Wagner Carneiro do MDB, um bolsonarista assumido, ao contrário de combater a direita é funcional a ela.

No Rio de Janeiro, assolado por crises políticas incessantes, onde a família Bolsonaro intervém para salvaguardar seus interesses e seus esquemas, no qual já se acumulam 14 mil mortes pela Covid-19, e em que a desigualdade, com 23% da população dependendo do auxílio emergencial, o desemprego e a violência contra os negros e pobres nas favelas não dão trégua, é onde mais se exige uma saída anticapitalista e revolucionária. Um programa de ruptura aberta com o imobilismo do PT e PCdoB, e com a colaboração com os aparentes oposicionistas a Bolsonaro hoje, mas que são os golpistas e capitalistas que mergulharam a cidade nessa situação. O Rio de Janeiro clama por uma saída de fundo que envolve uma reforma urbana radical, com um plano de obras públicas controlado pelos próprios trabalhadores financiado pelo não pagamento da dívida pública. Os lucros dos capitalistas não podem seguir intocados, enquanto os trabalhadores e o povo pagam pela crise que não criaram. E não é possível ter ilusões que uma coligação com o PCdoB poderá trazer isso.




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