Internacional

CRISE DO NPA FRANCÊS

Frente à crise do NPA na França, "Precisamos de um grande partido revolucionário!"

Atores das recentes lutas na França e militantes revolucionários estiveram presente neste domingo ao encontro de abertura da Universidade de Verão do Novo Partido Capitalista (NPA). Anasse Kazib, ferroviário e militante do NPA - Revolution Permanente, colocou as principais questões do próximo período e a necessidade de construir um partido revolucionário no momento em que o NPA está passando por profundos debates sobre seu futuro.

quarta-feira 26 de agosto| Edição do dia

Na sequëncia, a transcrição da fala de Anasse Kazib no primeiro dia de debates da Universidade de Verão do NPA:

"Boa noite a todos e a todas. Bom, eu tenho a difícil tarefa de resumir uma greve dos transportes que durou mais de cinquenta dias em 4 minutos. Farei o melhor que conseguir. Essa luta contra a reforma da previdência foi explosiva e para compreender porque ela foi tão explosiva sobretudo no setor dos transportes, é preciso retomar uma data central que foi a greve de 24h do dia 13 de setembro na RATP [Rede de transportes parisiense].

Esse dia foi o símbolo de uma forte radicalização desta nova geração que está na RATP, que lembrou o que alguns chamaram de efeito da "colete-amarelizacao". E vimos que o método da greve combinado com a combatividade e a radicalidade nessa greve majoritária conseguiu paralisar Paris neste dia 13 de setembro. Mas os companheiros da RATP não fizeram só isso, eles foram o motor para diversos setores, foram uma locomotiva sobretudo para o setor onde eu trabalho que é a SNCF [empresa de transporte ferroviário da França]. Eles lançaram uma advertência ao conjunto das direções sindicais.

Para aquelas e aqueles que se lembram das imagens, foi o lema "em dezembro, ilimitada" que impôs com bastante antecedência o pré aviso de greve ilimitada. É de se lembrar que no [sindicato da] SudRail, por exemplo, o pré aviso estava dado já em outubro, mais de três meses antes da greve. Isso é algo histórico e é a primeira coisa que precisa-se compreender para entender esse movimento de greve. E sobretudo essa greve do 5 de dezembro que, infelizmente, por outro lado, tivemos a burocracia sindical que, assim como frente ao movimento dos Coletes Amarelos e, parafraseando Trotski, não fizeram nada mais do que tentar apagar o fogo ao fazerem o chamado dessa greve do dia 5. Por exemplo, Philippe Martinez [diretor da central sindical CGT] que alguns dias antes do dia 5 falou na Sud Radio que o governo poderia evitar o dia 5 dezembro".

Então, de um lado tinha o 13 de setembro dos agentes da RATP em efervescência, determinados a finalizar com a reforma da previdência. E doutro lado tinham as direções sindicais que tentaram evitá-lo ao máximo. Para nós, nessa luta contra a reforma da previdência, tem um momento que é central, que é o da trégua. Este momento foi crucial. Desejada pelo governo, a trégua foi acatada por uma parte das direções sindicais de maneira direta ou indireta. E nossa tarefa como militantes revolucionários no transportes neste momento foi a de construir a famosa coordenação RATP SNCF (transporte urbano e ferroviários) da qual vocês já ouviram falar.

E depois do dia 13 de setembro nossa tarefa foi de, pouco a pouco, lançar as bases desta futura coordenação através do que a gente chamava de encontros RATP - SNCF. E a cristalização deste trabalho foi feita no momento desta trégua, quando impedimos e frustramos as estratégias de derrotas das direções sindicais e a vontade do governo. Notadamente, no dia 23 de dezembro, quando paralisamos a Gare de Lyon. Eu vou lembrar pra sempre a BFM [principal canal de notícias francês] saindo com o título "Será o retorno da base?". E nós estávamos certos que através desta coordenação RATP SNCF, o dia 23 de dezembro, sim, era o retorno da base. E o retorno da base continuou durante todo esse período!

Esta coordenação tornou possível mostrar a uma nova geração, para aqueles que estavam pela primeira vez em greve, a necessidade da auto-organização e da coordenação desde a base. Isso lhes permitiu fazer experiências com o papel nefasto das burocracias sindicais. Especialmente em torno da preparação dos fundos de greve, houve companheiros que disseram "Eu não sabia o que era um fundo de greve, mas por que não coletamos dinheiro durante três meses para estarmos prontos?"

Como sabíamos que em algum momento iríamos ser apanhados pelo nosso aluguel, pela nossa geladeira, sabíamos que teríamos que preparar fundos de greve. E quando aqueles companheiros viram as direções sindicais pedido trégua sem dar um centavo sendo que elas, em alguns casos, tinham milhões nos cofres, isso lhes permitiu fazer suas primeiras experiências de auto-organização.

Para concluir esta primeira pergunta, é preciso dizer que, infelizmente, não foi suficiente, e todos nós concordamos com isso. Estávamos convencidos de que mesmo um setor forte como o dos transportes, mesmo em uma greve forte e renovável como essa foi, não era suficiente, que havia necessidade de estender a greve, que havia necessidade de generalizá-la.

A coordenação foi uma grande experiência e consideramos que também estava dentro de nossas atribuições fazer um trabalho à imagem das reuniões da RATP-SNCF, que tínhamos que recorrer a outros setores fortes e, portanto, começamos a organizar reuniões interprofissionais para discutir e impactar companheiros coletores de lixo e trabalhadores de energia, antes de sermos parados por essa crise sanitária e pelo confinamento.

Mantivemos muito contato com eles, e esta experiência de coordenação RATP-SNCF deu muitas outras idéias a outros setores. Como com nossos camaradas do setor privado - que eu saúdo - que construíram a coordenação OPTIL, poucas pessoas a conheçeram, mas ela reuniu todas as empresas Transdev, de Keolis de toda a região parisiense, que se coordenaram e que vieram nos ver em uma reunião da coordenação e que nos disseram "Camaradas, fizemos esta coordenação porque dissemos a nós mesmos que se na RATP e na SNCF vocês puderam fazê-lo, então no setor privado nós também podíamos fazê-lo, também éramos capazes de fazê-lo" e eles conseguiram fazê-lo e nós estamos orgulhosos disso!

Manon B: "Como você estava dizendo, não era suficiente antes do confinamento e sabemos que os ataques não vão parar e já podemos ver até mesmo recomeçando e se intensificando. Como fazer desta vez colocando todo o conjunto dos trabalhadores e especialmente o setor privado na luta?

Anasse K: O verdadeiro problema, camaradas, é o programa e a estratégia, quando olhamos para trás durante os últimos quatro anos, podemos ver que não faltaram lutas. Vimos que o conjunto de setores da classe trabalhadora se mobilizou entre 2016 e 2020. Tivemos a juventude e especialmente o setor privado, onde eles disseram "Le Havre é a capital da greve", podemos lembrar o porto e a ponte do Havre com milhares e milhares de estivadores e grevistas.

Depois em 2018/2019 houve o movimento dos Coletes Amarelos que marcou todos nós, atingiu em cheio todos nós. Em 2019/2020 tivemos o setor do funcionalismo público e dos transportes. E podemos dizer também que, ao final do confinamento, também tivemos os setores mais precários da classe trabalhadora e os bairros populares que saíram para as ruas, com os trabalhadores "sem documentos". E quero saudar nossos companheiros de Frichti que levaram uma luta exemplar nesse momento.

Nosso principal problema será propor um programa longe de todo este corporativismo de merda, preciso dizer isso, que divide e faz sair um setor após o outro, separadamente. Essa será a primeira coisa que teremos que fazer agora depois das férias de verão. A segunda coisa é a questão da estratégia, devemos pôr um fim a estas estratégias de derrota, a estas greves picotadas, saltando dias de greve e outras coisas.

E o papel dos revolucionários no próximo período será alavancar ao máximo os trabalhadores em todos os lugares onde estamos presentes para adquirir os meios de, como a coordenação da RATP-SNCF, poder adquirir a capacidade de liderar os próximos movimentos, e isso é essencial. Essas são as duas tarefas.

Mas, mais amplamente no próximo período, teremos com a crise econômica ataques regrados e centrais, e não apenas contra-reformas. Vamos ter ataques a toda a classe operária, mas também a todas as massas populares. O que está em jogo é a sobrevivência, companheiros, a sobrevivência da humanidade e, portanto, a necessidade de pôr fim a um sistema apodrecido que, quando não te mata com guerras imperialistas ou crises climáticas, acaba te matando com epidemias, como vimos com a Covid; ou acaba te matando com crises econômicas, desemprego em massa, demissões e precariedade.

Teremos que lutar contra tudo isso, teremos que lutar para pôr um fim a este sistema e construir outro projeto de sociedade. E para nós, precisamos nos equipar com uma ferramenta capaz de propor este programa e esta estratégia a todos estes setores em luta. Não há outra ferramenta a propor além de um partido revolucionário, um partido revolucionário que seja capaz de unificar todas as tendências revolucionárias, mas também todos os companheiros com os quais pudemos militar nas últimas batalhas, entre eles Coletes Amarelos, jovens, etc. E espero que Almamy Kanouté, Youcef Brackni e Assa Traoré sejam militantes revolucionários e que eles levantem conosco um grande partido revolucionário para realizar este projeto de transformação social.

E, finalmente, para concluir, uma palavra para voltar ao que Almamy disse. Ele estava falando do "separatismo", que na realidade ele [Macron] não diz respeito apenas aos bairros operários e às pessoas racializadas. Todos eles estão tentando nos colocar no mesmo saco. Mas devemos responder uma coisa ao governo, que se o "separatismo" significar acabar com suas guerras, acabar com suas crises climáticas, sanitárias e econômicas, que eles saibam que nós, nós somos marxistas, somos revolucionários e estamos determinados a acabar com isso definitivamente e a nos separar desse punhado de parasitas!

Tradução: Lina Hamdan




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