ELEIÇÕES RIO DE JANEIRO

Freixo e uma carta de conciliação com os empresários

terça-feira 25 de outubro| Edição do dia

Na segunda-feira Marcelo Freixo emitiu uma carta que coroa uma guinada de mostrar-se avesso ao suposto radicalismo que é atribuído ao PSOL, a carta é somente um símbolo a mais no que já havia declarado em entrevistas à Folha, ao Estado e com a indicação de uma neoliberal que foi secretária de finanças de Eduardo Paes para ser sua conselheira.

Essa perspectiva de conciliação com os empresários embora presente no primeiro turno acelerou-se na reta final do segundo turno e chegou até mesmo ao ponto de negar a crítica verbal que fosse ao golpe institucional, como ele fez na entrevista à Folha de São Paulo. Esta carta, é um claro aceno aos empresários, é ao mesmo tempo diz a todos os trabalhadores e jovens que vêm esperança em sua candidatura que o tempo não será de "profundas" mudanças, e sim de conciliação de classes.

A mídia e muitos ativistas compararam essa carta com a de Lula em 2002, vejamos as semelhanças e diferenças.

Lula fez sua carta (pode ser lida na íntegra aqui) em uma grave crise econômica, o dólar disparava frente ao real, ocorria um ataque especulativo e o país beirava a moratória frente ao FMI. A campanha tucana e da mídia explorava o “medo” do sindicalista na TV, apesar de tantos anos de preparação do PT em mostrar-se de cuidadoso administrador do capitalismo nativo em prefeituras e governos estaduais. Na carta que foi acompanhada da nomeação de um nome forte do mercado financeiro, Henrique Meirelles, dizia em alto e bom som “honrarei os compromissos com os credores” e repetia muitas vezes os mantras neoliberais de responsabilidade, combate à inflação, superávit primário, etc.

A longa carta de Lula combinava isso com a promessa à “esperança” que era mote de sua campanha, falava até em Reforma agrária e crescimento com justiça social. O que se viu na sequência é história conhecida, mas a aqueles mais novos lembramos: aumento dos juros, superávit primário, reforma da previdência, aumentando o tempo para a aposentadoria, um conjunto de ataques contra os trabalhadores e a serviço dos patrões e banqueiros, "que nunca lucraram tanto", como se gabava Lula.

Lula fez a carta quando liderava as pesquisas e como “passaporte” à Casa Grande.

A carta de Freixo difere fortemente em seu contexto. Mas não tanto em alguns conteúdos como argumentaremos. Em primeiro lugar na forma, é quase “lacônica” em comparação a de Lula. Se dá em um contexto em que ele está bem atrás nas pesquisas e diferentemente de Lula tem a mídia atacando (por outros interesses) a seu concorrente. E para exemplificar maior diferença, a prefeitura do Rio não está tão “quebrada” como o governo federal estava. Ainda que o Estado do Rio esteja ainda mais e tratar o problema da "responsabilidade fiscal" do município por fora do drama que é uma saúde destruída, aumento do desemprego, crise econômica, é tratar falsamente como se a o município fosse uma ilha e a crise do estado não o atingisse.

A prefeitura carioca mal tem dívida, pode torrar bilhões em obras faraônicas. A pressão do “mercado” sobre Freixo visa única e exclusivamente discipliná-lo, sequer pode argumentar algo sobre a dívida para exercer esta pressão. A carta antede aos interesses de setores da classe dominantes, como prova de que é realmente possível embarcar em sua campanha contra Crivella, e assim ajudar os empresários e votantes de Osório, Índio da Costa, e Pedro Paulo (PSDB, PSD e PMDB respectivamente) a rumarem a Freixo.

O esforço de moderação de Freixo na carta “Compromisso com o Rio” (pode ser lida aqui na íntegra) não encontrou frases tão “absolutas” como aquelas de Lula sobre honrar os compromissos externos – mas nem precisava visto que a prefeitura tem pouca dívida- e pode limitar-se às seguintes promessas “responsabilidade com o orçamento” e “respeitar os contratos com situação regular”, ou seja toda PPP e OSs que não tiver corrupção comprovada ficará onde está. Nem falar dos contratos das máfias do transporte, o poder da família Barata ficará onde está.

Onde foi parar o “gradual” fim das OSs? Ficou aparentemente no primeiro turno, agora é para valer... Diferente da carta de Lula que ainda tinha promessas à “esperança” em nenhum lugar da carta de Freixo lê-se compromissos com o fim das milícias, com saneamento básico, com a saúde e educação que são eixos de sua campanha.

As promessas a elite feitas por Lula eram mais explícitas, mas tratava-se de um governo nacional e não municipal, uma situação maior de crise fiscal, e mesmo com diferenças há duas coisas em comum. Uma procura do eleitorado de classe média alta e conservador seguindo as regras (neoliberais) do jogo e garantindo um sorriso maroto da elite e sua maior porta-voz, a Globo. Veremos ainda se mesmo com todos esses gestos Freixo repetirá Lula em algo mais, em uma vitória eleitoral, pois na retórica da conciliação entre empresários e patrões num "governo para todos" Freixo trilha um caminho que não se difere da trajetória petista.

O MRT e o Esquerda Diário vem se posicionando diariamente através de notas de sua redação, analistas e colunistas como Carolina Cacau que foi candidata a vereadora pelo PSOL no Rio de Janeiro, em primeiro lugar em combate contra as ideias da direita representadas por Crivella, Bolsonaro e muito outros, mas também faz isso buscando superar a conciliação de classes do PT e que Freixo busca reeditar como vemos nessas recentes iniciativas. Para não repetir os erros do PT chamamos os eleitores de Freixo a juntos construirmos um programa e uma força anticapitalista porque, para realmente derrotar a direita é preciso avançar num programa que se enfrente com seus privilégios e suas fortunas, suas propriedades.




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