Educação

COTAS RACIAIS

Fraude nas cotas raciais na UFMG: transformar a indignação em luta contra o racismo

Após a divulgação da matéria da Folha, no domingo (24), sobre brancos que usaram as cotas raciais para entrar no curso de medicina da UFMG, a repercussão não para nas redes sociais. Milhares de estudantes expressaram sua indignação.

quinta-feira 28 de setembro| Edição do dia

Foto: Arquivo Faculdade de Medicina

No domingo (24) a Folha de São Paulo divulgou uma matéria sobre brancos que usaram as cotas raciais reservadas para negros para entrar no curso de medicina da UFMG, o mais concorrido da universidade. Imediatamente várias outras mídias replicaram a denúncia, em quase todos os casos divulgando fotos dos estudantes acusados de fraude e com um tom de sensacionalismo.

A enorme repercussão da denúncia, muito compartilhada nas redes sociais, também gerou debates entre os estudantes. Explodiu uma indignação entre estudantes negros e brancos, em defesa da inclusão dos negros na universidade e contra as fraudes.

O Diretório Acadêmico Alfredo Balena (DAAB), representante dos estudantes de medicina da UFMG, também divulgou uma breve nota em que “reconhece e apoia a política de cotas raciais”, repudiando as fraudes e chamando a UFMG a “coibir tais ações fraudulentas” que atrapalham a inclusão de negros e indígenas na universidade.

A UFMG também se pronunciou em resposta à procura de diversos veículos da grande mídia. As declarações do Pró-Reitor Adjunto de Assuntos Estudantis, Rodrigo Ednilson de Jesus, foram de que era necessário um “controle social dentro da universidade” por parte dos estudantes, para o “aprimoramento da política de cotas”.

DEFENDER AS COTAS E COMBATER O RACISMO

Nos somamos à indignação de milhares de jovens e dos estudantes da UFMG que defendem as cotas raciais como uma conquista do povo negro. As cotas foram arrancadas com muita luta por parte do movimento negro e dos estudantes, em um país marcado pelo racismo, que esteve presente desde a escravidão e continuou mesmo após a abolição, influenciando de forma profunda cada aspecto da formação social e econômica do país.

Nos somamos à indignação diante das fraudes e aos que veem a importância de defender as cotas raciais como uma conquista dos negros em um país tão racista como o Brasil. Defendemos o direito democrático a autodeclaração como forma de que os negros assumam orgulhosamente sua identidade e sua negritude. Ao mesmo tempo não podemos cair em armadilhas que tentam individualizar o problema, como se todo o problema do racismo profundo da sociedade fosse solucionado com punições individuais aos indivíduos brancos, pois isso retira o foco da responsabilidade que o Estado e esta burguesia herdeira da Casa Grande têm ao reproduzir, perpetuar e manter vivo o racismo profundo que atinge os negros.

Por isso, queremos transformar a indignação em um ponto de apoio para a luta antirracista dentro e fora da universidade, e não queremos que seja canalizada para fortalecer uma visão que acha que a punição dos indivíduos brancos possa por fim ao racismo, ou alimentar armadilhas que se apoiam em casos como este para dividir os estudantes e colocar negros contra brancos, além de terminar fortalecendo a esperança que a resolução de um problema histórico e estrutural se dê através de instituições do Estado racista ou das próprias Reitorias da UFMG e de outras universidades, que são tão racistas quanto. Não à toa o próprio governo federal golpista comandado por Temer se apressou em anunciar que irá publicar uma portaria que obrigará as universidades a criarem comissões institucionais de averiguação, que controlarão o processo do acesso às cotas e violarão o princípio da autodeclaração.

O racismo se reproduz dentro da UFMG não somente com as fraudes no sistema de autodeclaração para cotas raciais, apesar de este ter sido um assunto escolhido pela mídia para “centrar fogo” e angariar audiência com sensacionalismo. O racismo se reproduz também com o trabalho precário e mal pago na limpeza, nas portarias e na jardinagem; com a presença da PM no campus; com a falta de assistência estudantil adequada para todos; com o próprio vestibular, todos estes reproduzidos e sustentados no racismo profundo perpetuado pela burguesia e pelo Estado.

Por isso dizemos que a Reitoria, o Conselho Universitário e a burocracia acadêmica são instituições racistas que mantêm a desigualdade entre negros e brancos na universidade de diversas maneiras. Durante décadas se posicionaram contra as cotas. Organizam o trabalho precário na universidade, que é uma das vias principais de reprodução das desigualdades raciais no nosso país. Atacam a assistência estudantil, da qual os mais dependentes são os estudantes negros. Defendem o vestibular que deixa a maioria dos jovens fora das universidades e especialmente das universidades públicas. Apagam a cultura e a heroica luta do povo negro dos currículos dos cursos. Reprimem e perseguem as manifestações estudantis e a realização de festas no campus. E no último mês o Reitor impôs a presença da PM no campus da universidade, assassina e inimiga histórica dos negros do Brasil.

Não será das mãos desta Reitoria e da burocracia racistas, que mandam e desmandam na universidade, que virão a defesa e muito menos novas conquistas para os negros. Nem do Estado brasileiro, que é o responsável histórico de tantas mortes e tanta desigualdade, que não garante as condições mínimas de educação, moradia e saúde à população negra, que obriga jovens trabalharem desde muito novos, e que assim impede que os negros cheguem ao ensino superior em igualdade de condições com os brancos.

O vestibular via SISU, mesmo com as cotas, ainda é um filtro racial e de classe que deixa de fora das universidades mais de 80% dos jovens do país, sendo que dentre os aprovados 75% ainda são obrigados a se endividarem nas particulares.

As denúncias da grande mídia e o posicionamento da UFMG incentivando um “controle social” por parte de uns estudantes contra os outros podem dividir ainda mais os estudantes, em vez de fortalecer uma união necessária para batalhar pelo aprofundamento do combate ao racismo e pelas demandas do movimento estudantil. Comissões de averiguação ou sindicâncias instauradas pela Reitoria só podem coibir os próprios negros de se autodeclararem como tal e diminuir o tamanho e a força deste imenso grupo social, decisivo para a luta contra o racismo e as desigualdades do país. Ao contrário, precisamos lutar para unir mais os estudantes com independência da Reitoria e de sua demagogia que se diz defensora dos negros quando convém.

Defendemos com intransigência as cotas, e que sejam proporcionais à proporção de população negra e indígena de cada estado. Lutamos pelo fim do vestibular, pela estatização das universidades e instituições particulares que enriquecem com a educação (como as do grupo Kroton/Anhanguera), pela revogação da PEC 241/55 do teto de investimentos e por 10% no PIB nacional para a educação. Somente desta forma será possível garantir acesso para todos os negros e negras que queiram cursar medicina, sem que tenham que competir com outros negros e brancos.

Cada direito dos negros, no Brasil e no mundo, foi conquistado com uma luta heroica, contra a burguesia e a elite racistas do Brasil e dos países europeus. A escravidão caiu sob a luta de séculos dos negros, que fizeram uma Revolução no Haiti e revoltas e quilombos no Brasil. Os primeiros direitos dos negros trabalhadores foram conquistados nas greves operárias do início do século XX. Ainda mais em tempos de retrocessos e de governo golpista, a luta antirracista, para que seja vitoriosa, deve confluir com a resistência dos trabalhadores, mulheres, LGBT, negros e brancos em um questionamento ao Estado e às instituições que atacam a todos.

Como dizia Malcom X, “Não há capitalismo sem racismo”, pois o racismo foi um produto do capitalismo para justificar uma das maiores aberrações da história da humanidade, que foi o lucrativo comércio de carne negra. Isso significa dizer que não é possível conquistar o fim do racismo e a igualdade entre negros e brancos em um sistema baseado na desigualdade e na exploração, e por isso é preciso partir da defesa de cada uma das conquistas para avançar num questionamento profundo de toda a sociedade através da luta de classes e de uma saída revolucionária.




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