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FRANÇAS EM CHAMAS

França: uma nova geração militante de trabalhadores e estudantes

No marco da X Conferência da Fração Trotskista, conversamos com as companheiras da delegação da Corrente Comunista Revolucionária do Novo Partido Anticapitalista da França, sobre as lições do grande processo de luta contra a Reforma Trabalhista, da qual foram parte ativa, e sobre as perspectivas que se abrem para o ativismo combativo e a esquerda revolucionária nas fábricas, faculdades e colégios.

sexta-feira 12 de agosto| Edição do dia

Como surgiu o processo de luta?

A primeira coisa a dizer é que a mobilização começou de uma maneira bastante espontânea. Com uma efervescência nas redes sociais e a pressão que a juventude exerceu sobre os sindicatos na primeira mobilização de 9 de março foi uma entrada em cena bastante explosiva e importante nas ruas. Desde o começo da mobilização, a política do governo era impedir o “Todos Juntos”, de romper a unidade sindical, fazendo concessões a diferentes setores, aos caminhoneiros e à juventude. Frente a isto, a política das direções sindicais foi de evitar a sincronia entre a juventude e os trabalhadores. Tivemos datas de manifestações muito espaçadas, com ritmos de mobilização que são muito diferentes para os jovens, que são mais aceleradas, mais explosivos que a dos trabalhadores.

Houve distintos momentos na mobilização...

Sim, podemos distinguir duas etapas no movimento. Até a metade de abril aproximadamente, uma mobilização bastante importante por parte da juventude, entre os secundaristas mas também nas universidades, com um caráter muito explosivo e um ativismo muito importante. Teve dificuldades na massificação, mas havia uma tendência importante à auto organização, com a organização da assembleia geral, de um comitê de organização e de um órgão de coordenação nacional dos universitários e dos secundaristas.

No fim de abril, quando o governo utilizou pela primeira vez o artigo 49.3 que permite aprovar a lei sem o consenso do parlamento, houve uma volta da mobilização com a entrada em cena dos setores combativos da classe trabalhadora. Os caminhoneiros, os trabalhadores de refinarias, os portuários, os garis, os ferroviários. No dia 14 de junho, data de mobilização nacional em Paris, houve mais de 1 milhão de pessoas e uma presença de colunas importantes da classe trabalhadora. Mas durante o período de férias escolares, o governo fez passar a lei com uma segunda utilização do artigo 49.3, em fins de julho.

Qual foi o contexto em que se deu o movimento?

Daniela: As mobilizações tiveram a particularidade de desenrolar-se no contexto do estado de emergência e do giro bonapartista, antidemocrático do governo e do Estado. De certa maneira, vemos que se produziu uma polarização muito forte na sociedade francesa. Ao mesmo tempo em que há mobilizações que se opõem à lei trabalhista, houve também eventos totalmente bárbaros, como os atentados em Niza, que produziram uma reação extrema do estado francês e uma polarização muito forte na sociedade.

O governo utilizou os atentados para justificar sua política repressiva, mas isso funciona cada vez menos porque a população começa a ver que a polícia é muito eficaz para nos reprimir nas manifestações, mas não é capaz de impedir os atentados que em grande parte são produto do colonialismo da França, da xenofobia e da repressão brutal da polícia nos bairros contra os imigrantes. E isto não é de agora certamente, senão de anos e anos, como vimos na revolta na periferia em 2005. Tenho a impressão que se o ISIS pode recrutar gente na França, basicamente jovens, é porque não se sentem acolhidos pelo país e porque sofrem a repressão policial cotidianamente, a miséria, o desemprego.

Para nós, os que podem dar uma resposta a esta situação, para evitar que continuem os brutais atentados, são efetivamente os trabalhadores, a classe operária junto aos diferentes setores oprimidos, os que podem dar uma resposta para transformar o mundo.

Havia uma concordância geral da maioria da população que esta reforma é muito prejudicial. Havia uma oposição muito ampla de mais de 75% da população com a lei imposta pelo Partido Socialista. O debate fundamental era saber qual era a estratégia, qual era o método, com que se poderia impor uma derrota ao governo e a retirada total da lei. E a respeito disso houve ao menos duas grandes estratégias que se enfrentaram na mobilização.

Uma que era a principal força dirigente no movimento operário, a CGT, que aparecia no cenário nacional com uma cara muito radical. O governo acusava seu secretário geral de ser um terrorista etc. Mas a radicalização do discurso da CGT e seu método de luta não correspondiam a uma estratégia que permitisse armar o movimento, unindo todos os setores em luta e avançar até a greve geral. É que para ganhar, é necessário paralisar de conjunto a economia de maneira a obrigar aos capitalistas e o governo a retroceder no plano de ataque contra os trabalhadores. Pelo contrário, a estratégia da CGT é somente a negociação.

Em meio a isto, emerge notavelmente na juventude que é cada vez mais autônoma, uma estratégia mais radical nas ações de rua. Nas manifestações houve milhares de jovens que fizeram ações combativas resistindo uma enorme pressão policial. Por exemplo, na última marcha estava à frente uma juventude radicalizada que se manifestou sozinha, separada dos sindicatos por um cordão policial, separada da massa que estava atrás. A principal debilidade que nós vemos no movimento autônomo é não ser uma alternativa para todos os trabalhadores de base que eram críticos à política da CGT, ou que pensavam que a CGT deveria ir mais longe.

Quais são as características que mais se destacam no processo?

Elsa: algo muito importante neste movimento de luta é que houve uma entrada em cena combinada de diferentes setores com métodos de luta diferentes mas com a aspiração ao mesmo objetivo e que lutavam por ele. Se repararmos, efetivamente o movimento estudantil, como dizia Marina, tem assembleias gerais bastante massivas, tentativas de autoorganização.

O movimento operário está com numerosos setores em greve, em particular o setor privado e os precarizados, quando há muito tempo não havia uma mobilização deste setor. E finalmente, inclui ao lado Nuit Debout (Noite em Pé), um fenômeno que se assemelha aos Indignados do Estado Espanhol, que se caracteriza pela ocupação de praças.

Toda esta mobilização ocorreu em um contexto de estado de emergência, instaurado depois dos atentados de novembro de 2015, que permitiram ao governo exercer uma repressão policial muito dura. No entanto, isto foi um forte elemento de radicalidade porque nos permitiu obter certas reflexões de luta e autodefesa, simplesmente para nos defender das agressões policiais permanentes.

“Todo mundo odeia a polícia”

Ideologicamente, levou muitos estudantes a desmascarar a natureza do estado burguês, porque vínhamos de uma época na qual todos aplaudiam a polícia nas ruas “que nos preservavam dos terroristas etc.”.

De fato, passamos de consignas como “a polícia conosco” do começo do processo, à que logo foi a mais levantada de todas as consignas nas mobilizações: “Todo mundo odeia a polícia”. Isto se inscreve em uma dinâmica em que o Partido Socialista estava na origem deste ataque antipopular e desta repressão muito dura. Por isso o Partido Socialista e os Republicanos, os dois partidos burgueses tradicionais, estão em uma dura crise, com sua base social muito menos iludida em uma saída democrática eleitoral. Penso que uma das características particulares deste movimento é a construção de sua vanguarda, muito política e muito radical que se levantou durante quatro meses, muito determinada, que continuou apesar da repressão, e que não está dado que vá adormecer.

Que papel teve o Revolution Permanente [versão francesa do Esquerda Diário]?

Marina: Neste movimento, a questão da batalha midiática foi uma questão central porque no começo da mobilização havia um sentimento geral contra a lei de reforma trabalhista e a favor da mobilização, com mais de 60 a 70% da população que aprovava a manifestação. Por esta razão, os diários burgueses e tradicionais levaram a cabo uma verdadeira campanha contra os “anarquistas que estavam ali para quebrar tudo”, também contra os grevistas que eram comparados com sequestradores e terroristas, como se referiu Daniela. E neste contexto, a Revolution Permanente pôde transformar-se em uma mídia referência para a mobilização, sendo o contrapeso ideológico. O vimos nas dezenas de colaborações que nos mandavam de toda França, pedindo para informarmos o estado da mobilização.

O peso dos vídeos que mostram a violenta repressão policial foram compartilhados e vistos milhares de vezes. O vimos no movimento operário durante a greve dos ferroviários, quando via Revolution Permanente lançamos uma campanha de solidariedade desde as assembleias gerais estudantis, que transmitimos desde o diário, e quando nos encontrávamos nos piquetes nas estações para intervir alinhados aos trabalhadores, recebíamos uma calorosa recepção. Nos diziam “é genial o que fizeram, nos devolve o ânimo, de quando nos colocam na primeira página dos diários como sequestradores, que impedimos as pessoas de ir à Eurocopa etc.”. E sob esta ótica, o Revolution Permanente pôde desempenhar um verdadeiro papel. Mas não somente para cobrir a mobilização, o Revolution Permanente permitiu também ter uma tribuna, propor em grande escala uma política e tomar posição nos debates abertos, debates estratégicos da mobilização na perspectiva da greve geral, da auto organização.

Que perspectivas tem o movimento e a situação geral?

Elsa: podemos afirmar que há alguns elementos a destacar. O primeiro é que inclusive se Hollande tentou aprovar sua lei, toda a determinação da vanguarda que falávamos antes, toda essa radicalidade contribui para a formação de toda uma geração militante e isso é algo que não podem nos tirar. Toda esta radicalidade e esta determinação se combinam com toda uma série de novos ataques que preparam e de uma nova reforma antipopular. Já se designa o dia 15 de setembro como uma nova jornada de mobilização e penso que isso é bastante significativo já que as direções sindicais se viram obrigadas a convocá-la pela pressão de toda a população que deseja isso terminantemente. Vamos ver como se dará nas faculdades.




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