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França: os coletes amarelos chamam a retornar às ruas frente a crise no país

Em um contexto marcado por um desastre social sem precedentes, os coletes amarelos estão pedindo que as pessoas saiam às ruas para enfrentar a crise. Para o 12 de setembro, junto com o retorno das férias, vários coletivos que integram o movimento estão pedindo que a população saia às ruas por "um retorno às bases" de suas demandas.

terça-feira 8 de setembro| Edição do dia

Um primeiro chamado ao retorno das demandas iniciais do movimento

Os coletes amarelos na França pedem um "retorno às bases", em referência aos métodos e as demandas que impulsionaram o movimento disparado pela crise econômica. A convocatória promovida por Jérôme Rodrigues, figura do movimento, para sair às ruas em 12 de setembro foi publicada no início de agosto e rapidamente teve a adesão de muitos coletivos de coletes amarelos de toda a França.

Nesse momento, Jérôme Rodrigues pediu o retorno às fontes, não só voltando aos Champs Eliseés, cenário dos primeiros atos massivos do movimento, mas também recordando suas demandas. Entrevistado pela RT França, o referente dos coletes amarelos recordou os grandes eixos programáticos do movimento em torno de "uma vida melhor, uma democracia direta e participativa e fim dos privilégios de nossos governantes e contra a violência policiai".

Essa mobilização ocorrerá em um contexto social explosivo, marcado por uma profunda crise econômica e ao ataque direto das condições laborais de muitos trabalhadores. "Há uma onda de demissões, 700.000 jovens que chegam a um mercado de trabalho quase inexistente. (...) O descontentamento e a raiva que veremos em setembro não será só dos coletes amarelos: será de todos os cidadãos", disse Rodrigues. "Estamos aqui para restaurar não a economia da França, mas sim a economia de nossas casas. Porque os que fazemos viver a frança somos nós, os coletes amarelos, os cidadãos com raiva, os que trabalham todos os dias, os que deram a vida durante a pandemia de coronavírus", sinalizou durante uma live no Facebook.

Para os coletes amarelos, esta data é uma oportunidade para sair às ruas de forma visível. o movimento evoluiu em suas formas depois do primeiro aniversário de sua existência em novembro de 2019. Se as manifestações dos sábados foram muito menores em 2020, inclusive em Paris, isto não impediu que os coletes amarelos estivesses presentes nos piquetes e nas manifestações do movimento mediante seus métodos. Esta primeira data de mobilização, no próximo sábado, servirá também de pontapé inicial para o "retorno social" depois das férias.

A questão da unidade surge de maneira contundente

Diante de um retorno marcado pela crise sanitária e econômica, a questão da unidade é um tema importante para as próximas mobilizações. Consultado pela RT França sobre a questão da "convergência", Jérôme Rodrigues voltou a chamar a todos que lutam por outra sociedade e contra o Governo a "unir-se". Um chamado que corresponde ao estado de ânimo de todos os que participaram nas últimas mobilizações.

Nesse sentido, podemos ver certa confusão no texto da convocatória de manifestações antirracistas, que começa dizendo "Não nos dividirão! O único racismo sistêmico que existe na França é o do bloco de elite, da burguesia, frente ao restante da população, dos ’que não tem nada’". Esta formulação da impressão de negar a existência de um racismo sistêmico na França, contra o qual dezenas de milhares de jovens se levantaram em julho. Mobilizações antirracistas nas que também participou Jérôme Rodrigues e outros coletes amarelos.

De fato, os coletes amarelos e os habitantes dos bairros operários enfrentam os mesmos problemas de precariedade e desemprego, como demonstraram as convergências obtidas em 2018-2019, em particular com o Comitê Adama (em referência a Adama Touré, jovem negro assassinado pela polícia). Mesmo assim, a violência policial que sobreveio ao movimento dos coletes amarelos se destaca regularmente nos bairros operários, um verdadeiro campo de provas para "manter a ordem" como foram as colônias em sua época.

Este tema é muito importante, em um momento em que, seguindo os passos da extrema direita, o Governo lançou uma ofensiva racista e de segurança, polarizando o debate público sobre o tema da segurança e combater a importante dinâmica de mobilização aberta contra o racismo e a violência estatal, a raiz das revoltas nos Estados Unidos. Uma onda de mobilização que colocou em primeiro plano o racismo de Estado, que agora o governo busca utilizar para dividir a classe trabalhadora. Neste sentido, mais que querer deixar de lado a esta questão, a unidade implica pelo contrário lutar e denunciar o racismo e a violência policial que ocorrem diariamente nos bairros operários, sinalizando ao inimigo comum de quem luta contra o racismo, por condições de vida dignas e por outra sociedade.

A unificação da revolta

De maneira mais ampla, este debate coloca a questão da unidade da revolta que se necessita para a volta do período das férias. De fato, estará marcado pelo desastre social gerado pela crise com a eliminação de 800.000 postos de trabalho sob o crescente número de Planos Sociais que indicam o aumento da pobreza, mas também os ataques às condições laborais no marco dos Convênios Coletivos de Trabalho. Ataques contra trabalhadores levados a cabo depois que o Governo anunciou um plano de 100 bilhões de euros dirigidos centralmente a grandes corporações.

Neste contexto, um plano de luta real será fundamental, para ir mais além da simples jornada profissional (de distintos setores laborais) chamada para 17 de setembro por outros sindicatos. Este plano de luta terá que se articular em torno a demandas que rechacem que os trabalhadores e a maioria da população pague pela crise. Um objetivo alinhado com o dos coletes amarelos. Como destaca Sabine, um colete amarelo entrevistado pelo meio francês Slate: "o descontentamento se ampliou com a explosão das mentiras do Governo e seus aliados midiáticos, farmacêuticos e financeiros, de sua implacável criminalidade para seguir eliminando leitos e saqueando nosso sistema de saúde. E apesar dos lucros e dos bilhões outorgados a grandes grupos, as demissões aceleraram!".

Portanto, um programa contra a crise deveria incluir o rechaço absoluto das demissões e sua proibição, a nacionalização sob controle dos trabalhadores das empresas ameaçadas de fechamento, a repartição do tempo de trabalho como resposta ao desemprego que afeta a mais de 6 milhões de pessoas na França, mas também o fim dos contratos precários que constituem um método de ajuste dos empresários diante da crise. Um programa deste tipo, articulado com um plano de luta para impor isso nas ruas e pela greve, seria central para unificar aos coletes amarelos e ao movimento operário em torno das demandas comuns contra o Governo, mas também os grandes patrões que ditam a Macron sua política econômica. Finalmente, enquanto Gérald Darmanin, Ministro de Interior, prepara uma grande ofensiva racista com as forças repressivas, esta luta terá que ir no sentido de uma clara denúncia da política governamental que intensificará a repressão contra as classes populares e o racismo.

Se os coletes amarelos continuam mostrando sua aspiração a unidade, as direções sindicais deveriam como mínimo iniciar a ruptura do diálogo social. Desde o início da crise, o Governo tratou de recuperar a liderança do movimento operário aumentando o número de reuniões com as direções sindicais. Estas obviamente não permitiram obter concessões e inclusive cumpriam um papel traidor em um momento em que muitos sindicatos locais lutavam para fechar as negociações e obter condições sanitárias dignas. No mesmo sentido, o "diálogo social" constitui um verdadeiro obstáculo para o surgimento de demandas e um plano de luta que esteja a altura, e por conseguinte a unidade de todos os setores aos que o Governo pretende fazer pagar pela crise.




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