Internacional

REFORMA DA PREVIDÊNCIA

França: Encontro “a vitória é possível”: nenhuma trégua até a retirada da reforma!

Na noite de quarta-feira ocorreu um encontro do Révolution Permanente na periferia de Paris com os protagonistas da região metropolitana nesta greve histórica que paralisa o país, que após 15 dias de luta, a mobilização conta com um alto apoio da opinião pública. Uma mobilização que por sua amplitude e força levou o ministro Delevoye a sair de seu cargo. O que os grevistas querem é a completa retirada da reforma. A palavra de ordem unânime no encontro: nenhuma trégua até a retirada da reforma!

domingo 22 de dezembro de 2019| Edição do dia

Tradução baseada em artigo publicado originalmente na quinta-feira 19 de dezembro no Révolution Permanente, portal francês da rede do Esquerda Diário

A aliança daquelas e daqueles que sabem que é preciso mudar a sociedade, por uma greve geral política

No dia seguinte à muito acatada jornada de greve do dia 17 de dezembro ocorreu um pouco após o meio-dia nosso encontro “a vitória é possível” em Saint-Ouen. O objetivo era reunir numa mesma tribuna os protagonistas da greve em curso: os grevistas da RATP (empresa responsável pelo metrô e trólebus em Paris), da SNCF (empresa nacional de trens), da educação nacional, bem como a juventude estudantil, com o objetivo de discutir a continuidade do movimento e as perspectivas de vencer o governo agora que este jogou a carta de chantagem de “trégua de Natal”.

A força do encontro se expressou em reunir os principais pátios da RATP, que estão no coração da luta na região parisiense. Estiveram presentes os pátios de Belliard, Aubervilliers, Pavillons-sous-bois, Nanterre, Pleyel, Flandres, Saint-Denis, Lagny ou Charlebourg. Ao seu lado se sentavam os ferroviários de Châtillon, do Norte de Paris, de Bourget, Saint-Lazare e também os professores da jurisdição 93 e estudantes de numerosas universidades parisienses.

Esses diferentes setores que encarnam os pilares da greve estiveram presentes na tribuna. Clément, grevista do Centro Técnico de Châtillon e Anasse Kazib da Triagem de Bourget pela SNCF, ambos militantes do Révolution Permanente, Adel Gouabsia, operador do RER A e Nádia do pátio de Flandres da RATP, Ahleme, professor em Epinay sur Seine, e Ariane, estudante em Paris 1-Tolbiac, também militante do Révolution Permanente.

Um depois do outro, apesar do cansaço mostrou no encontro sua determinação de não enfraquecer. Cada um contou seu orgulho de participar dessa greve histórica, inédita, que reabilitou a força da greve e poder dos trabalhadores na transformação da sociedade, rompendo com as políticas neoliberais que exploram, oprimem e precarizam a vida da maioria da população.

Um poder que mostra sua força e se mantém no tempo, graças as alianças tecidas entre os diferentes setores, tais como os professores e estudantes que reforçam os bloqueios de pátios de ônibus apesar da repressão dos últimos dias. Desse modo os grevistas da RATP e da SNCF conseguiram bloquearam o conjunto dos transportes da região parisiense. Foi sublinhado no encontro a presença e a solidariedade das “brigadas móveis”, sem as quais não teria sido possível resistir até hoje.

E tem razão essa avaliação, desde 2007 os trabalhadores da RATP são alvos de regulamentação particularmente repressiva das “leis Sarkozy” sobre o serviço mínimo. E de quando em quando a direção da empresa não hesita em chamar oficiais de justiça, a polícia e companhias de CRS [Companhia Republicana de Segurança, espécie de tropa de choque francesa – Nota da Tradução] para reprimir os piquetes de greve.

Isso também é por um lado uma expressão do estado febril do governo, e por outro, do medo da direção da RAPT de deixar os grevistas se organizarem e tomar consciência de sua força depois de longo período invisíveis devido às correntes das burocracias sindicais. A radicalização que se expressa nos trabalhadores da RATP é uma consequência do “efeito Coletes Amarelos” no movimento operário, o que apavora a patronal e o Estado da possibilidade de uma escalada no nível de enfrentamento no terreno da luta de classes.

Se os grevistas alcançarem fazer o governo retirar sua reforma das aposentadorias, eles terão trabalhado no caminho de recolocar a causa geral da precarização de suas condições de vida e de trabalho dentro de empresa. Nesse caso, uma vez que retornem ao trabalho o que não fariam eles com os diretores e responsáveis de recursos humanos que lhes enviaram, sem hesitação, a polícia pra os reprimir?

Desse modo, as intervenções entraram rapidamente no eco dos problemas que (re)surgiram na greve contra a reforma das aposentadorias: a problemática da precarização, de uma vida vivida para sobreviver e não para viver, de uma vida a sofrer e morrer no trabalho, de um mundo tocado por uma crise ecológica sem precedentes, atravessada por injustiças sociais bem como por desigualdades de gênero e pelo sexismo. nesse assunto, as grevistas insistiram sobre as violências e injustiças que elas sofrem enquanto mulheres, mães e trabalhadoras. A reforma da previdência, é portanto percebida como inscrita dentro de “um projeto de sociedade neoliberal que nós rechaçamos em bloco”, um projeto que promete nada à juventude e ao mundo do trabalho além de um futuro sombrio e precário, que contrasta fortemente com os privilégios, com o modo de vida dos governantes e das classes dominantes, como declarou Ahleme, professora na jurisdição 93.

Nesse sentido a aliança que começou a ser tecida entre os piquetes de grevistas, pela paralisação dos transportes, a manutenção e o controle da greve pelos grevistas, é uma aliança política. Como disse Ariane, estudante e militante, presente desde o dia 05 de dezembro nos piquetes nos pátios de ônibus de Lagny, na jurisdição 20 de Paris, a aliança entre a juventude e o movimento operário dá medo ao governo. São nos piquetes que se encontram os diferentes setores que aspiram na realidade a mudar a sociedade, para além da batalha contra uma reforma. Para responder ao chamado do governo de retornar ao trabalho no período de festas, Ariane concluiu se dirigindo aos trabalhadores grevistas presentes na sala e a aqueles que assistiam à transmissão ao vivo: “o melhor presente que vocês podem nos dar é a vitória, e ela está perto”.

O segundo round: se organizar e radicalizar o movimento para que a greve pertença aos grevistas

Uma raiva profunda se expressa na taxa de adesão dos grevistas, na greve reconduzível, nos bloqueios de pátios, na ocupação de estabelecimentos escolares, nas massivas manifestações de rua. Uma mobilização que conseguiu a saída antecipada de Jean-Paul Delevoye [alto comissário para Reforma da Previdência que renunciou dias atrás – Nota da Tradução], cujas declarações sobre a preocupação de colocar todos os regimes em igualdade com a reforma foram ridicularizadas pelas revelações de sonegação fiscal em 14 de seus mandatos, incluindo 11 que sequer tiveram declaração. Por outro lado, o projeto da reforma dele não foi retirado. Agora, depois de 15 dias de greve, Adel, operador da RATP, que emergiu como uma figura do movimento, colocou que que os dias que começam agora colocam tudo em jogo. Para ele, agora, com a demissão de Delevoye, com a aproximação do Natal, se trata do segundo round de uma luta para continuar a greve e vencer o governo. Um segundo round com os grevistas em um corner com seus números e determinação, e no outro o governo, enfraquecido mas ainda determinado em seguir com a reforma.

O que falta para conseguirem a vitória? Anasse, ferroviário e outra figura da greve, lembrou que se a vitória é possível também ninguém pode dizer que ela é fácil. Ele e Clément, ferroviário grevista de Châtillon, se dirigiram aos grevistas falando da questão da auto-organização, da necessidade de acreditar, manter, reforçar as assembleias gerais, os fundos de greve, os piquetes, os laços entre os diferentes setores, para ganhar em organização mas também para ganhar em radicalização. Eles, estão bem organizados, estão prontos para travar a greve, para pausar as solidariedades e para reprimir com todos os recursos que eles tem a sua disposição. Por isso é necessário se organizar, se coordenar entre os diferentes pátios, piquetes de greve, setores mobilizadores para enfrentar eles, a polícia, mostrar ao governo e à direção da RATP que os grevistas estão unidos contra a repressão, mas também para recusar às direções sindicais o direito que elas se concedem de em nome dos grevistas tomar assento na mesa de negociação. Para isso é preciso construir a coordenação dos grevistas da região parisiense, ter a ambição de reunir delegações de cada pátio da RATP em greve, de cada assembleia geral dos ferroviários e dos professores, decidir a continuidade do movimento e organizar ações comuns como o bloco RATP-SNCF, composto por sindicalizados e não sindicalizados, que abriu a manifestação da terça-feira dia 17 de dezembro em Paris.

Porque radicalizar a greve significa se convencer e convencer os alguns colegas de continuar em greve, de entrar novamente na greve para outro, resistir das intimidações e reforçar a medição de força com os patrões e o governo. Isso significa, como sublinhou Anasse, denunciar publicamente as posições das direções sindicais. A base recusou unanimemente as negociações e reivindica a retirada, pura e simples, da reforma. A base precisa se unir para fazer pressão e empurrar os aparelhos sindicais a chamar não a dias de ação ou dias de greve isolados, e unicamente em determinados setores, mas chamar a greve geral e que recusem clara e expressamente todas negociações.

Todas as posteriores intervenções dos grevistas que tomaram a palavra voltaram a denúncia da política e tomada de posição das direções sindicais todas propensas a negociar em um momento ou outro: “Eles não decidiram nada, a base hoje está verdadeiramente raivosa. Eles decidem por nós, mas temos que cessar que decidam por nós. Precisamos que convoquem a greve geral de todos setores”. Radicalizar a greve é declarar e decidir em cada assembleia geral que a greve pertence aos grevistas e que são os grevistas, sindicalizados ou não sindicalizados, que decidem a continuidade e término do movimento, e não as direções sindicais.

Mas radicalizar significa também alargar o movimento, particularmente no setor privado. Até o momento certos bastiões, tais como as refinarias e portos são igualmente a vanguarda do movimento, mas faz falta fazer entrar na batalha todos aqueles setores que apoiam o movimento mas não são ainda atores do mesmo. Submetidos à precarização, trabalho intermitente, e desemprego de longa duração, numerosos jovens e muitos trabalhadores e trabalhadoras do setor privado já estão excluídos do sistema de aposentadorias atual, ou só tem o direito de aposentadorias indignas. Mobilizar esses setores, envolve propor um programa pela divisão do tempo de trabalho, pela aposentadoria aos 60 anos de idade para todos, sem condicionantes dos anos de contribuição ou de nacionalidade, financiada por pagamentos patronais, e assim com esse programa permitir que o conjunto de nosso campo social se reconheça na luta.

Porque entrar em greve, lutar, bloquear um pátio, se reunir em Assembleia Geral é fazer política. É colocar a base para uma crítica da sociedade atual, da necessidade de mudar e também de começar a construir as bases de uma nova sociedade. “As verdadeiras assembleias, não como a Assembleia Nacional [O congresso francês -nota da tradução], são as assembleias gerais, são os seus piquetes, a verdadeira democracia está ali.” De fato, são nas assembleias gerais, no tempo livre graças à greve que nós podemos ter verdadeiras discussões, tomar consciência de nossa força, da capacidade de bloquear a economia bem como de controlar e organizar, nós mesmos, nossas empresas, escolas, pátios, e um dia a sociedade como um todo. Contra aqueles que querem governar e dirigir a sociedade capitalista, mantendo a exploração dos trabalhadores e da juventude, Anasse chamou a construir um partido dos trabalhadores, de todos aqueles que lutam hoje, com o objetivo comum de tomar o poder e construir uma outra sociedade livre da exploração capitalista e de todas as opressões.

É nessa perspectiva de expandir a greve que uma vez que o encontro terminou os grevistas, cheios de energia, se reuniram para enviar uma mensagem em vídeo a seus colegas e chamar à greve geral de todos os setores, privados e públicos, terminando com um espírito revolucionário e internacionalista dirigiram sua mensagem de apoio aos camaradas chilenos do Partido Revolucionário dos Trabalhadores (PTR) que enfrente a repressão, e ao camarada Dauno Totora ameaçado de prisão pelo seu engajamento no levantamento popular e por reivindicar a greve geral para derrubar o regime neoliberal de Piñera.




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