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França: A luta exemplar dos petroleiros de Grandpuits e seus protagonistas

Revolution Permanente

França: A luta exemplar dos petroleiros de Grandpuits e seus protagonistas

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Apresentamos nessa edição do Ideias de Esquerda a entrevista realizada por Adrien Cornet para a La média TV, um canal independente francês. Cornet é delegado sindical da planta de Grandpuits da Total (poderosa multinacional francesa do setor petroquímico e energético) e militante da Corrente Comunista Revolucionária do NPA (Novo Partido Anti-capitalista) parte da FT-CI. Na entrevista, Cornet desmascara a mentira da patronal, explica como vêem desenvolvendo sua luta e porque ele, como trabalhador militante político, está sendo atacado.

“Não mandamos os trabalhadores protestarem do lado de fora, mas dentro, os sindicatos lutaram como leões para conseguir esses bônus. Estamos em níveis nunca alcançados em termos de supralegal, e sem queimar um único pneu!" No dia 21 de janeiro, os comentários repletos de desprezo de classe de Stéphane Ducroq, advogado da Intersindical (CGT, Sud Chimie, FO, CFDT, UNSA, CFTC, CFE-CGC) da Bridgestone no jornal La Voix du Nord concluíam vários meses de atritos. A patronal da segunda maior empresa de pneus do mundo se gabavam de “um diálogo social contínuo e construtivo, que permitiu a criação de bases para um PSE [1] exemplar!”

Por bom motivo, então, mesmo após o anúncio da fechamento da fábrica em 16 de setembro de 2020 e apesar da forte exposição midiática que teve o acontecimento, as organizações sindicais da empresa fizeram tudo para abafar a qualquer perspectiva de luta. Símbolos dessa política, a assinatura, desde o início, de um acordo sobre métodos, comprimindo a margem de manobra dos sindicatos na luta contra o PSE e a confiança dada ao governo ou à lúgubre marcha silenciosa de 4 de outubro, que recusava símbolos sindicais, chegando mesmo a desestimular a adesão de outras companhias à greve.

Esse caminho de conciliação e a recusa de lutar pelo emprego foi, tristemente, a imagem de numerosos conflidos decorridos após o início da pandemia. Como apontava o periódico Le Monde em dezembro “os assalariados, que suportaram a dureza da recessão, parecem paralisados, apesar da onda de demissões.” Mas, contrariamente ao que dizem os analistas que veriam nessa situação uma tendencia inelutável, essa dinâmica é, também, produto da escolha dos sindicatos e de suas direções de recusarem-se a travar a batalha. Neste caso, se a Bridgestone poderia parecer como um paradigma dessa dinâmica desesperadora, a luta em curso em Grandpuits mostra que há outro caminho. Falemos de suas características

Uma luta determinada pelo emprego

Desde 4 de janeiro, os trabalhadores da refinaria de Grandpuit estão em greve majoritária e por tempo indeterminado. Eles lutam contra 700 demissões, no contexto de uma parada das atividades da refinaria e de um plano de reconversão da planta. Denunciam, ainda, a hipocrisia da petrolífera Total, que usa argumentos pseudo-ambientalistas para justificar seu ataque contra o emprego. No caso, a Total - uma gigante petrolífera responsável por inúmeras tragédias ambientais e uma das maiores poluidoras do mundo - tenta justificar sua reestruturação produtiva pautada por demissões e uma piora generalizada das condições de trabalho com a alegação de que se trataria de uma “transição ecológica”, pois a refinaria seria convertida em uma fábrica de biocarburantes.

Desde o início do conflito, os refinadores escolheram explicitamente lutar pelo emprego. Enquanto para a multinacional, trata-se de um ponto não negociável, preferindo pagar altas indenizações do que manter os postos de trabalho, os grevistas os grevistas encaram esta como o ponto fundamental. De fato, para os refinadores, são suas condições de trabalho e a sugerança do futuro que estão em jogo. “Há um plano de supressão de 200 postos de trabalho na total, além de 500 terceirizados. Isso gerou muita raiva, principalmente pois no projeto futuro há falhas no organograma e nas condições de trabalho.” Conta Adrien Cornet, delegado sindical pela CGT Grandpuits.

A essa preocupação acerca das futuras condições de trabalho, se junta a preocupação com o futuro da região e da juventude. “São nossos empregos, mas também todos os empregos do entorno. Os terceirizados, mas também os empregos indiretos: os pequenos comércios, os bares, as padarias. Nas cidades do entorno, há muita gente que trabalha na refinaria, então corremos o risco de fechamentos em massa. Lutamos por nós, mas também por todos os empregos de Seine-et-Marnais e o que há no entorno” explica Mathieu, refinador e grevista. Uma preocupação que vai de encontro à resposta individualista que pode ser gerada pela crise em curso, e na qual se apoiam as empresas para tentar dividir os grevistas.

Assembleia geral soberana e comitê de greve: a auto-organização no centro

Para além da luta pelos empregos – e precisamente porque as apostas dessa luta são altas – os grevistas de Grandpuits desde cedo se organizaram em assembleia geral para que “a greve partença aos grevistas”, uma palavra de ordem que se tornou central para os refinadores mobilizados. A partir de 4 de janeiro, a greve começou de maneira espontânea, frente à recusa de começar as operações de desmantelamento das instalações, e tem lugar uma assembleia geral, que vota a greve. Ao longo da primeira semana de mobilização, os grevistas decidem coletivamente submeter as decisões das organizações sindicais ao voto da assembleia.

Uma decisão que não se passou sem reflexos em certos sindicalistas. Na quarte feira, 27 de janeiro, uma discussão marcante teve lugar na assembleia geral: “São as organizações sindicais que negociam, que assinam, não são os empregados. Somos nós que decidimos. Desde o início é o que tenho dito” começa Jérôme, delegado da central sindical CFDT. O que gera reação da assembleia. “Não são as organizações sindicais que nos dirão o que fazer. Elas são um auxílio, é pra isso que estão aí, são eleitas por nós. A ferramenta de trabalho é nossa, dos grevistas, somos nós que trazemos o dinheiro, então se amanhã decidirmos sentar aqui, porque não conseguimos o que queremos, porque não temos emprego, então sentaremos aqui e ficaremos em greve até o fim. A greve é dos grevistas, é assim que é em Grandpuits, e é assim que deve ser em toda a França, em todo o mundo do trabalho.” Responde Sébastien, membro do comitê de greve, sob aplausos dos grevistas.

Por bom motivo, o comitê de greve, composto de delegados eleitos no seio das diferentes equipes de produção, incarna, junto à assembleia geral, a vontade de dar aos grevistas o controle de sua luta. Em ligação com a assembleia, esse comitê reflete o cotidiano do conflito, propões ações para trazer visibilidade e para aumentar o impacto da greve, coordena os apoios. Um retorno a uma tradição do movimento operário que impacta fortemente os sindicalistas e militantes políticos que vêm visitar o piquete de Grandpuits. “Em Grandpuits, eles reafirmam os valores que alguns querem enterrar. O orgulho e a solidariedade operária, os comitês de greve. Tenho orgulho do que fazem.” Conta Alexis Antonioli, delegado da central CGT, aos trabalhadores da refinaria de Gonfreville-L’Orcher, durante uma visita a Grandpuits

Leia mais: Greve da refinaria de Grandpuits: exemplo de auto-organização dos trabalhadores

E o recurso aos comitês de greve e a soberania da assembleia geral não têm nada de folclórico para os trabalhadores de Grandpuits. Desde o início, eles permitiram suportar numerosos desafios pelos quais passou a greve. Diferentemente do controle dos sindicatos, que poderiam estar tentados a assinar os acordos sem o consentimento dos grevistas, é na assembleia geral que os trabalhadores puderam superar coletivamente a manobra da Total com os terceirizados. Enquanto Manu, um funcionário da Siemo, foi à assembleia para explicar a situação com uma subcontratada que a Total ameaçou demitir se os grevistas não voltassem ao trabalho, a conversa na assembleia sobre a chantagem da multinacional é eloquente sobre as virtudes da auto-organização:

Uma voz na assembleia se ergue: “é culpa da patronal se paralisamos o trabalho! É uma solução, basta que a patronal responda às reivindicações de emprego. Ela tem os meios de pagar os terceirizados!” Outra voz sugere que os terceirizados poderiam voltar ao trabalho desmontando estruturas obsoletas, e não nas atividades de desativação da planta. “Não há o bastante”, retruca Manu. Os debates continuam até que um grevista propõe: “deixamos que entrem os terceirizados, porque está certo que possam fazer suas compras do mês, e entendemos sua angústia. Mas em troca, não deixamos uma gota sequer sair da refinaria.” É a solução que será adotada pela assembleia geral. É um alívio para os terceirizados, que agradecem unanimemente aos grevistas. "

Leia mais: 30 dias da greve dos refinadores de Grandpuits: contra as chantagens da patronal, grevistas permanecem unidos e seguem com a luta

Uma lógica de auto-organização que se estende mesmo às famílias dos grevistas. Na primeira semana de greve, um grupo de mulheres de refinadores se formou, para trocar sobre a greve e apoiar, mas também angariar recursos de comerciantes locais, fornecer alimentos aos grevistas e organizar apoio para sua luta. “Nosso objetivo inicial era criar um grupo para toda companheira de grevista que quisesse falar, mas também participar no que se passa no piquete, na organização. Estamos lá por vocês, para encorajá-los.” Conta Amélie, uma das criadoras deste projeto que encarna simbolicamente a profundidade do conflito e do engajamento dos grevistas e daqueles próximos a eles.

Numerosos apoios e uma aliança inédita com os ambientalistas

O combate exemplar de Grandpuits gerou um grande apoio. No piquete de greve, caminham ferroviários – os que no ano passado entraram em greve em Paris e que cotizam no fundo de greve de Grandpuits – trabalhadores da energia, dos correios, da gigante do comércio Monoprix, da Renault, da empresa de viagens TUI France, e refinadores vindos de toda a Françapara apoiar seus colegas em greve. Frédéric Lordon dedicou aos grevistas uma intervenção contundente, cujas palavras ainda ressoam no piquete, ao qual o filósofo prometeu voltar: “nós estamos altamente conscientes de que ao lutar por si mesmos, vocês lutam também por nós. O porque vocês estão lutando por nós, lutaremos, também, por vocês.”

De Clémentine Autain (do partido La France Insoumise) a Julien Bayou (Partido Verde) passando por Fabien Gay (Partido Comunista) e Olivier Besancenot (Novo Partido Anticapitalista), políticos igualmente responderam ao chamado, apesar dos grevistas lamentarem o silêncio de grande parte do espectro político. “Os candidatos às eleições regionais, como Valérie Pécresse (Partido Soyons Libres) ou Audrey Pulvar (Partido Socialista), e os políticos que falam constantemente da indústria, como Montebourg escolheram ignorar a greve...” comenta Adrien Cornet. A esses apoios sindicais e políticos, se somam os apoios da juventude. No piquete ou em manifestação, os capacetes dos grevistas, customizados pelos estudantes de arte impressionam. Enquanto na última sexta, militantes da juventude do NPA marcaram seu apoio aos grevistas em um ato conjunto, onde jogaram tinta verde na fachada da sede da Total, além de participarem ativamente nas coletas para o fundo de greve.

Entre todos esses apoios, o das organizações ambientalistas foi particularmente marcante no conflito. “Em Grandpuits, sindicatos e ambientalistas projetam o futuro da indústria” lia-se no jornal L’Humanité da última semana. Para Cécile Marchand do grupo Amis de la Terre, apoiar os grevistas é natural: “pode parecer paradoxal que os ambientalistas estejam do lado dos trabalhadores contra o fechamento de uma refinaria. Mas faz completo sentido, pois o plano da Total não é nem verde, nem justo. A Total faz greenwashing em um plano de demissões injusto!” diz ela, em entrevista ao jornal Révolution Permanente, publicação irmão do Esquerda Diário na França, em outubro do ano passado. Inimigos históricos da Total, as organizações ambientalistas puseram seus conhecimentos a serviço da greve, produzindo um relatório que joga luz sobre a realidade por trás do discurso da empresa sobre seu projeto em Grandpuits, denunciado há meses pelos sindicalistas.

Falando à QG sobre esse apoio, Adrien Cornet se diz feliz com a posição dos ambientalistas. “A posição do Greenpeace é de dizer ‘estamos do lado dos trabalhadores de Grandpuits, mesmo que tenhamos que lutar para preservar a refinaria durante o tempo que procuramos uma alternativa aos combustíveis fósseis, lutaremos ao seu lado’. É uma tomada de consciência forte para o movimento ambientalista”, conta. E longe de serem por acaso, esses apoios são o produto de uma estratégia consciente, fruto da vontade de se voltar para fora e evitar o isolamento absoluto de um combate que toca em questões profundas da sociedade. Estratégia que continua: Nos dias três e quatro de fevereiro, unidades da Total por todo o país participaram de uma greve em solidariedade à luta de Grandpuits. Uma iniciativa do comitê de greve, que enviou grevistas a diversos lugares (depósito de Gennevilliers, refinaria de Gonfreville-L’Orcher, refinaria de Feyzin), levando o apela à greve, também convocada pela Federação Nacional da Indústria Química, da CGT.

A vitória não está garantida, mas o método Grandpuit pode fazer escola!

Após um mês de greve, a multinacional segue se recusando a discutir o emprego, e prática chantagem com os termos das demissões, exigindo que as organizações sindicais as aprovem, sob pena de perderem qualquer benefício dos trabalhadores demitidos. Para a Total, a assinatura dos termos é fundamental, pois sem ela, a Direção Regional das Empresas, Concorrência, Consumo, Trabalho e Emprego – órgão comum dos ministérios do trabalho e da fazenda – realizarão uma auditoria do projeto da Total que exporia os problemas denunciados pelos sindicalistas, especialmente o impacto dos novos regimes de trabalho na saúde e na vida dos trabalhadores, os riscos psicossociais e os riscos de segurança.

Nesse quadro, a CGT e a FO mantém uma linha intransigente de subordinar a questão das MSA aos avanços na questão do emprego, e de deixar nas mãos dos grevistas e da assembleia geral a condução e toda decisão que diga respeito ao conflito. O comitê de greve e a assembleia são conscientes dos riscos, e ficam vigilantes para que nenhuma organização sindical se permita trair a vontade dos grevistas. Um ingrediente fundamental que mostra toda a força do “método Grandpuits”. Neste dia 2 de fevereiro, foi votado por unanimidade a continuidade da greve até nova votação, dia 11. No dia 9, dia em que uma comissão mista interna entregará seu relatório final sobre o plano da Total, uma grande manifestação em frente à sede da Total foi convocada, para manter a pressão contra a multinacional.

Tradução: Alexandre Alves Miguez

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FOOTNOTES

[1em francês, Plan de Sauvegarde de L’emploi, uma espécie de acordo coletivo, que estabelece compensações aos trabalhadores em caso de demissão coletiva

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