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França: A estratégia do medo não funciona mais: uma mobilização massiva em Paris e em toda a França

O governo francês, bastante ajudado pela mídia, não parou de agitar a estratégia de provocar tensão e medo, mas isso não parece ter funcionado. Isso é evidenciado pela mobilização em Paris e em toda a França de mais de 130.000 manifestantes, segundo os números sempre subestimados do Ministério do Interior, neste quarto sábado de protestos.

terça-feira 11 de dezembro de 2018| Edição do dia

Photo : O Phil des Contrastes.

Para o quarto sábado de protestos em Paris, o governo fez de tudo para evitar que se reproduzisse o “cenário catastrófico” da semana passada. Não por menos. O dia 1º de dezembro e suas cenas quase insurrecionais mostraram a humilhação das forças da ordem que retrocediam, completamente dominadas pela situação, mergulhando o executivo na crise mais importante desde o começo do governo de Macron.

Assim, o movimento dos Coletes Amarelos não apenas questionou a autoridade do Estado, como também obrigou Macron a seu primeiro recuo desde o início de seu mandato de 5 anos, com a anulação do aumento dos impostos dos combustíveis. Para responder à grande crise, o governo optou por uma estratégia de descomprimir a raiva dos Coletes Amarelos que não podia mais ser ignorada.

Um salto na militarização como uma extensão ao chamado de “união nacional”

Primeiro, em resposta às manifestações, o governo fez um chamado a todas as organizações sociais e políticas por uma “união nacional” em nome da “nação em perigo”, de maneira a fazer um bloco contra a violência dos Coletes Amarelos, a qual as direções sindicais não hesitaram nem um segundo em se somar, via um comunicado considerado indigno pela base dos sindicatos. Em seguida, optaram por uma estratégia para ganhar a massa dos Coletes Amarelos, agitando a anulação, bastante parcial, do aumento da taxa de combustíveis; ou ainda desenvolveram uma retórica para separar a grande massa de Coletes Amarelos dos chamados “baderneiros” ou “vândalos”.

Uma manobra na qual o governo queria se apoiar para abrir neste sábado uma ofensiva “preventiva”, com o objetivo de impedir os militantes ditos “radicais” de participarem da manifestação, e uma ofensiva nas ruas para restabelecer a autoridade do Estado, evitando ao máximo barricadas e insubordinações frente aos policiais. Às 19h, já haviam quase 1400 detenções e quase 1000 sob custódia.

Apesar da estratégia do medo: uma mobilização massiva

Durante todo o dia de sábado, a mídia não parou de comemorar que a situação estava “sob o controle das forças da ordem” e que a participação havia enfraquecido. Alguns “experts” chegaram a prever a morte do movimento, repetindo os planos e esperanças do governo.

Porém, os múltiplos atos e manifestações que se espalharam ao longo do dia pela França demonstraram claramente que a mobilização era ainda muito massiva, tendo inclusive dado um salto de radicalização e de persistência, como em Bordeaux e [Toulouse_> http://www.esquerdadiario.com.br/Barricadas-sao-levantadas-em-Toulouse-contra-a-repressao] e também em muitas cidades interioranas como Saint-Etienne e novamente em Puy-en-Velay. Segundo as forças da polícia, 125 mil pessoas se manifestaram, números sempre muito subestimados, mas que mostram uma mobilização que perdura.

Novos setores entram em jogo em Paris e, em toda a França, se reforça a mobilização

Em Paris, além da ampliação das fileiras de ferroviários da Intergare do Comitê Adama, pudemos observar, também no plano qualitativo, pela primeira vez ao lado dos Coletes Amarelos colunas de manifestantes mais estruturadas e organizadas com suas bandeiras e suas consignas, com um forte apoio de estudantes de diferentes universidades, de secundaristas, de trabalhadores e assalariados individuais, assim como dos militantes mais organizados, anteriormente ausentes da mobilização.

Além disso, durante todo o dia se multiplicaram homenagens aos 148 secundaristas de Mantes-La-Jolie em toda a França, como os ferroviários em Paris. No interior da França, vimos barricadas serem levantadas para resistir à terrível repressão policial que, em muitas cidades, provocou graves feridos, como aqueles que perderam o olho ou manifestantes totalmente pacíficos sendo atingidos por balas de flashball praticamente à queima roupa.

Para amplificar a mobilização, generalizar a raiva através da greve

Se, em Paris, o governo teve uma vitória tática quanto à questão da “manutenção da ordem”, conseguindo não ser “esmagado”, através de blindados, de uma militarização da cidade e da repressão preventiva, é claro que a operação de terror não teve o efeito esperado. Os Coletes Amarelos continuam fortemente mobilizados, além de que houve uma ampliação do movimento na França.

É neste contexto que o papel das direções sindicais que responderam ao chamado de Macron de manter a ordem contra os Coletes Amarelos foi ainda mais prejudicial. É ainda mais grave por eles terem legitimado a terrível repressão deste sábado, 8 de dezembro, contra os manifestantes. Vendo a direção virando as costas para a raiva social, muitas federações sindicais inteiras, como a CGT Chimie, e diversos militantes de base se desvincularam totalmente do comunicado da CGT [Confederação Geral do Trabalho], vendo com indigna a posição da direção em relação ao movimento dos Coletes Amarelos.

Nesse sentido, a atitude das direções do movimento operário é cada vez mais escandalosa. Além disso, após essa mobilização massiva, cabe à base, nas estruturas locais, regionais e federais, impor às direções sindicais que o dia de 14 de dezembro, que não é mais do que mais uma “jornada de ação”, seja preparado para ser um dia para generalizar a greve e para tender a uma greve geral.

E isso é tanto mais necessário porque diversas reivindicações que os Coletes Amarelos defendem, como o restabelecimento do ISF [Imposto de solidariedade sobre a fortuna], o aumento do salário mínimo ou a indexação à inflação das pensões e dos subsídios, são reivindicações que o conjunto global de trabalhadores deveria defender. A base deve desobedecer as direções confederais que se recusam a se unir com a raiva social. A melhor maneira de impor a elas nossas decisões serão os chamados à greve e à mobilização geral no dia 14 de dezembro, para preparar para a generalização da raiva pela greve, pela greve geral.




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