Internacional

CRISE DE LEGITIMIDADE EUA

Fortes tensões e divisões na classe dominante estadunidense

Há uma crise de legitimidade para o próximo mandante da Casa Branca

Juan Chingo

Paris | @JuanChingoFT

terça-feira 1º de novembro| Edição do dia

A intervenção direta da principal agência de inteligência (FBI) a alguns dias das presidenciais, é a expressão de uma profunda crise e tensão na classe dominante. Ganhe quem ganhar, EUA vai ser cada vez mais ingovernável.

A intervenção direta do FBI a alguns dias das presidenciais, é a expressão de uma profunda crise e tensão na classe dominante. A eleição desde o início esteve dominada por uma forte polarização social e sentimento antiestabelishment, e termina uma serie de lutas, ataques venenosos, repreensões, acusações (Trump disse que não reconheceria o resultado se perdesse, e inclusive que colocaria Hillary na prisão se ganhasse) não visto tinha tempo.

Ambos candidatos de direita são rechaçados por uma parte importante do eleitorado. Esta crise de representação do sistema político se expressa do lado de Trump em uma política chauvinista que busca desviar o descontentamento frente uma política racista frente aos muçulmanos e o conjunto de imigrantes em especial latinos e de forte caráter protecionista em relação a China; enquanto Hillary acusa Trump de ser um agente de Putin e da Rússia para ocultar a brutal corrupção da fundação de seu esposo e os interesses de sua política neoconservadora agressiva frente a Rússia.

A confiança no sistema político imperial está fortemente golpeada, em condições de aprofundamento da crise econômica, aumento das tensões internacionais e o aprofundamento da crise de hegemonia do imperialismo norte-americano em todo o mundo. Este último quer dizer o desastre em curso da guerra de Washington para a troca de regime da Síria, os signos de desordem de sua política de "pivô" frente a China, cuja última demonstração são as idas e voltas do presidente filipino e seus flertes com a China (a vez que mantém boas relações com o Japão) e a emergência de conflitos abertos com imperialistas "aliados" na Europa, sobretudo com a Alemanha.

A convergência destas crises está generalizando conflitos graves dentro da classe governante dos EUA sobre as políticas a seguir, aumentados pelos temores de uma crescente onda de contestação social no país, cuja expressão mais forte é o feito que durante a presidência Obama e a violenta repressão e impunidade policial a minoria negra se reativou um espírito de resistência nesta comunidade que não se via desde a época do Black Power. O trumpismo de alguma maneira é expressão do crescimento de uma reação racial a este avanço, um "nativismo" branco feroz que se identifica no atual candidato republicano.

Se já era claro o caráter excepcional da eleição, a bomba política de quinta lançada pelo diretor do FBI liquidou toda dúvida. Se sua intenção era causar um dano fatal a candidatura de Clinton, apontar as maiorias republicanas um perigo de extinção no Senado e na Câmara, ou disparar um tiro de advertência em contra de um governo de Clinton entrante, fica claro que a próxima administração estará sumida em uma crise de legitimidade desde o dia em que se assuma.

Trump há explorado a nova situação que lhe favorece, abalando agora as instituições de Washington que resultam não ser tão corruptas como pensava inicialmente, porém enfatizando que se trata de um escândalo muito pior que o de Watergate, que lhe valeu ao presidente Nixon seu afastamento.

Cinco dias antes dos últimos feitos, em uma entrevista com Chris Wallace o célebre jornalista Bob Woodward, quem exumou com garganta profunda o escândalo Watergate, havia arremetido contra a fundação Clinton como escandalosamente corrupta, obtendo milhões de dólares em promessas dos governos, empresas e indivíduos ricos, muitos de duvidosa reputação. A mesma está cheia de "affaires" como é o caso que governos como o do Qatar ou Marrocos canalizam o dinheiro através de Bill Clinton. Tanto é como Hillary ganham quantidades enormes de dinheiro em negociações desta entidade.

Porém frente a estas acusações Hillary tem permanecido impávida: todavia não se há comprometido a cortar os laços familiares a Fundação em caso de ser eleita. Pelo momento o plano é que Chelsea Clinton passe a fazer cargo de sua gestão cotidiana.

As tensões dos últimos dias, mostram frente que ponto se tem esquentado o clima político em Washington. Porém isto não cai do céu. É a expressão da aceleração de uma tendência que já se havia expressado na década de 1990 com o sexgate e as acusações parlamentarias dos republicanos contra Bill Clinton que levaram ao impeachment deste em 1998; em 2000 a corte suprema litigiou a eleição parando a recontagem dos votos do estado da Florida o que lhe deu a presidência a George W. Bush, quem havia perdido em voto popular.

A atual presidência saliente, há devido governar com um congresso "insurreto" dominado pelos republicanos que levou ao encerramento do governo estadunidense pela crise orçamentaria federal e a oposição republicana a reforma sanitária de Barack Obama ("Obamacare"). Um cenário que aflige quem quer que ganhe a próxima eleição, a primeira potência mundial estará afetada por uma crise de governabilidade signifcativa.

Uma situação de extrema gravidade para Estados Unidos e o mundo em um momento em que a ordem internacional dos últimos 70 anos se está descarrilhando, talvez inclusive desintegrando-se. Tempos turbulentos econômicos, políticos e geopolíticos que pressagiam saltos d luta de classes assim como respostas de mais em mais bonapartistas como mostra o avanço de líderes fortes com Putin na Rússia, Xi JinPing na China, Erdogan na Turquia, Orban na Hungria por lembrar os casos mais notórios de uma tendência profunda de que a de Trump é sua variante norte-americana.

Bem-vindos a instabilidade internacional que afetará de mais em mais o mundo dos negócios e a economia, uma situação totalmente distinta de quando se afirmou a ofensiva neoliberal das últimas décadas e que entrou em crise em 2007/2008. O capitalismo de forma caótica está começando a tentar novas soluções de força a sua crise histórica; é chave que os trabalhadores e oprimidos do mundo preparemos a nossa.




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