Mundo Operário

MOVIMENTO OPERÁRIO

Fortalecer uma corrente militante no movimento operário com o Esquerda Diário

Entrevistamos Bruno Gilga, representante eleito dos trabalhadores no Conselho Universitário da USP, e Felipe Guarnieri, operador de trem da Linha 1 do Metro/SP, dirigentes do MRT (Movimento Revolucionário de Trabalhadores), logo após a reunião do movimento operário no último dia 20/12 realizada pela organização em São Paulo.

sexta-feira 23 de dezembro de 2016| Edição do dia

ED- Qual foi a importância dessa reunião na atual conjuntura?

F.G.- Depois de um ano tão intenso, marcado profundamente pelo golpe institucional, com tantos ataques a classe trabalhadora, mas também com importantes fenômenos políticos de resistência, diante um agitado cenário internacional com a continuidade da crise capitalista e a eleição de Trump nos EUA que trará impactos no mundo todo, inclusive no Brasil, foi muito significativo realizar uma reunião tão representativa. Participaram dezenas de trabalhadores, representando diversas categorias onde o MRT está inserido no Estado de São Paulo: trabalhadores que compõe a recém eleita diretoria do Sindicato dos Trabalhadores da USP; metroviários que impulsionaram a Chapa 5- Nossa Classe Pela Base a qual teve diretoras eleitas para o Sindicato dos Metroviários; professores da rede pública da Zona Norte e Zona Oeste da Capital, assim como de Campinas e da região do ABC, operários da indústria da ZO e ABC, assim como trabalhadores dos Correios, do setor Aeroviário e do funcionalismo. Trabalhadores e trabalhadoras que junto a diversos independentes organizam coletivos como o Grupo de Mulheres Pão e Rosas e o Movimento Nossa Classe nos locais de trabalho. Participaram também operários da indústria de Contagem/MG, que cumpriram um papel fundamental nas reflexões.

B.G.- É motivo de muito entusiasmo e orgulho para nós ter tido uma reunião como essa. Justamente, após todos esses meses termos dado uma batalha tão importante contra a direita golpista, mas também de maneira independente do PT, sem conciliar com essa direita e os patrões. Essa reunião acontece às vésperas do natal, onde Temer e sua cúpula dão de “presente" para os trabalhadores um pacote de maldades. Anunciando uma série de medidas, por meio da mentirosa mídia golpista que suaviza como "mini reformas", cujo objetivo é acabar com os direitos trabalhistas e a CLT. Para milhares de famílias operárias o fim do ano não será um momento de comemoração, mas de incertezas.

Na USP, se não bastasse tudo isso, ainda estamos sofrendo ameaça de despejo do nosso sindicato por parte da Reitoria. Enquanto, centenas de famílias passarão privações pois sofreram com o corte de ponto, a reitoria aproveita o clima de comemoração de natal para seguir atacando os dirigentes e ativistas como ocorreu com Brandão, que há 8 anos foi demitido justamente no fim do ano.
Nesse sentido, a reunião também foi muito importante para nos prepararmos para um 2017 em que continuará sendo fundamental que a classe trabalhadora se constitua como um sujeito político independente no cenário nacional.

ED- Como avaliam que está a classe trabalhadora frente à crise política do país?

B.G.- Como disse, os ataques a classe trabalhadora são tantos, no pós golpe, que não param nem nas festas de final de ano. Em meio a tantos escândalos de corrupção do Senado e do Congresso, de um judiciário a busca de super poderes através da Lava Jato, o trabalhador é quem paga conta dos privilégios, que vivem políticos como Renan Calheiros e juízes como Sergio Moro nesse país. Diante desse cenário, o PT enfiado de cabeça também na lama da corrupção, sustenta a tese da "onda conservadora", como se não fosse possível resistir a nada, enquanto segue votando junto com a direita no congresso, e pelo aumento dos salários dos vereadores em SP, com o objetivo de tentar acordos por cima para tentar emplacar a candidatura de Lula em 2018.

F.G.- Não só ataques são o fator de tanta politização entre os trabalhadores. As lutas de resistência da juventude e das mulheres é um motor de inspiração para nós. Um companheiro, operário da indústria de Contagem, fez uma intervenção que explica muito bem essa relação. Ele disse: "Se é verdade que não há tantas lutas sindicais, também é verdade que há tempos não se via uma efervescência política tão grande e tanto espaço para as ideias revolucionárias na classe trabalhadora". Concluímos que existe hoje uma revolta contida no movimento operário. Revolta porque não há nenhum trabalhador que não esteja indignado com a casta política, e todos os ataques em curso. Contida, por conta do freio imposto pela CUT e toda a burocracia sindical, que impede que a classe seja protagonista para responder a crise. Foi nítido para todos, como foram poucos os trabalhadores que não apoiaram de forma entusiasmada as ações de revolta dos manifestantes no Prédio da FIESP nos protestos do último dia 13/12.

ED- E quais foram as principais resoluções da reunião?

B.G.- Votamos a construção de uma forte campanha política unificada de todas as frentes "Contra os ataques aos direitos trabalhistas". As medidas de Temer irão afetar a todos, em particular os trabalhadores mais precarizados, sobretudo às mulheres, que em sua grande maioria possui a dupla jornada e são as que mais sofrem com a super exploração do trabalho terceirizado. O governo atende todos os pedidos dos patrões, pondo um fim as poucas garantias da CLT, aumenta a jornada, flexibiliza os direitos, eleva a idade e tempo de trabalho com a reforma da previdência, libera os patrões para demitir isentando-os de multa (em especial na indústria onde já há milhares de demissões). Além de estados como RJ e RS, onde servidores e professores estão numa situação desesperadora com os salários atrasados. Vamos levar essa campanha na base de cada local de trabalho que estamos exigindo da CUT e demais centrais sindicais que rompam sua trégua e parem de sentar com o governo pra negociar os ataques. Ao invés disso, organizem na base paralisações reais, e em meio à mobilização chamem a convocação de uma assembleia constituinte livre e soberana. Pois a defesa dos nossos direitos, e o fim do privilégio dos políticos, não se dará mudando apenas os jogadores através das eleições diretas, mas sim alterando as regras do jogo e colocando os trabalhadores no centro da cena política.

F. G.- Outra resolução importante da reunião foi a integração completa do trabalho de base com o site Esquerda Diário. Os mais de 750 mil acessos do portal em um mês, que integra uma rede internacional de diários em vários países, possibilitou um forte avanço político no movimento operário. As notícias, matérias, artigos e colunas publicadas nessa mídia independente, sem rabo preso com os patrões e a mídia tradicional, e sem o petismo envergonhado ou explícito das outras mídias alternativas, estabelece condições concretas de gerir um novo tipo de sindicalismo, o qual as reivindicações sindicais se ligam ao debate da grande política dia a dia com os trabalhadores, e não somente nos momentos de eleição como geralmente faz a maior parte da esquerda. A nova Sessão Mundo Operário no site trará colunas semanais dos principais ativistas e lideranças, matérias atualizadas, vídeos, história do movimento operário e crônicas que retratam o cotidiano do trabalhador. Além disso, manteremos a edição quinzenal da versão impressa do jornal, com um novo formato mais voltado aos locais de trabalho, e que já se tornou uma importante referência nas panfletagens de várias portas de fábricas.




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