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Formação VinteUm apresentou “A exceção e a regra” de Brecht na Casa Marx em São Paulo

Com um público de dezenas de pessoas entre trabalhadores de distintas categorias, estudantes e artistas, a Formação VinteUm da Escola Livre de Teatro (ELT) de Santo André, sob direção da professora Laura Brauer, apresentou a peça de Bertolt Brecht “A exceção e a regra” na Casa Marx de São Paulo. Veja como foi.

quinta-feira 7 de novembro| Edição do dia

Foto: Felipe Dantas

A Casa Marx recebeu um público de dezenas de pessoas para assistir e debater a montagem da peça de Brecht na noite do último domingo, 3. Os estudantes da ELT que compõem parte da Formação VinteUm compuseram o elenco, dirigido pela professora Laura Brauer, que há anos se dedica ao estudo da obra de Brecht procurando resgatar seu sentido mais profundo: o de um teatro ligado à classe trabalhadora que se proponha a ajudá-la a refletir, compreender a sociedade capitalista dividida em classes e se organizar politicamente para transformá-la. Ou, como diz o texto final da peça, onde se reconhecer o abuso, encontrar o remédio.

Assim, operários que assistiram a peça transformaram-na em tema de suas conversas no dia seguinte, reconhecendo nas questões encenadas os dilemas cotidianos de suas próprias vidas e da classe à qual pertencem. No carregador, um trabalhador precarizado e ultra-explorado que aparece na obra, viram o retrato dos trabalhadores precarizados, terceirizados e sem direitos que hoje se contam aos milhões em nosso país. Viram no teatro de Brecht uma ferramenta de reflexão.

Após a peça, houve uma conversa entre o público e os integrantes do elenco:


Foto: Paula Almeida

Jonatha Ferreira, ator que interpretou esse carregador, deu seu depoimento ao Esquerda Diário sobre a experiência da montagem na Casa Marx:

“Ontem foi a pré estreia na Casa Marx e de uma forma estranha estávamos calmos e calmas, olhava nos olhos dos companheiros de cena e me tranquilizava. Com a chegada do público sentíamos a vibração e aquele frio na barriga se fez presente, não porque queríamos que tudo desse certo, não deu, isso é utópico, principalmente numa pré estreia, mas principalmente porque sentimos o peso que é apresentar o conteúdo da peça para pessoas politizadas e que assim como nós debatem e lutam por seus direitos, o que também me faz pensar: por que não senti esse peso de responsabilidade quando apresentei para pessoas que não estão em espaços de discussão sobre a politica? Não deveria ter o mesmo peso ou até maior entendendo que a peça nos ajuda a elucidar a luta de classes? Essa história, que foi escrita há muito tempo mas que fala sobre muita coisa de hoje, nasceu mais uma versão da peça “A Exceção e a Regra”. No fim da apresentação tivemos a roda de conversa e foi avassaladora a resposta do público, avassaladora no sentido de que o público viu o que fizemos, e isso é ótimo para nós. Apresentar na Casa Marx, um espaço novo para muitos de nós atores e atrizes foi um aprendizado que não pode ser mensurado, as reações que sentíamos a cada ação que denunciava uma exploração do trabalhador foram fortes o bastante pra nos fazer rever a peça em diversos pontos; essa peça que me parece não ter um fim de produção, ela estará sempre em busca de novas perspectivas e leituras, pois ela se dá no plano da troca entre público e elenco.”

Também falou ao Esquerda Diário sobre a experiência a diretora da montagem, Laura Brauer:

“A apresentação na Casa Marx foi muito importante para o nosso processo pois o material -já desde sua concepção nos anos ’30 – pretende trazer a discussão sobre o tema para um público que justamente esteja tentando organizar um pensamento sobre a sociedade e esteja querendo discutir sobre ela para entender como agir. Esse é sem dúvida o caso do público que veio no domingo.

A conversa posterior e a forma em que o público agiu, nos permitiu ver que o material - ainda que em processo de construção - conseguiu fazer legíveis as relações de classe, evidenciar as estratégias da classe dominante e o lugar da justiça, entre outras coisas, e confirmou a atualidade e a importância de fazer hoje este texto e este teatro com este propósito politico para este público.

Esperamos mesmo que este seja apenas o começo de um diálogo frutífero que considere o teatro um espaço para a discussão sobre esta e outras questões urgentes, assim como B. Brecht propôs que fosse."

A peça seguirá em cartaz, na próxima terça-feira, 12, às 19h na sede da Companhia do Feijão (com montagem de dois elencos da turma sendo apresentados em seguida), e posteriormente no Teatro Municipal de Santo André.

FICHA TÉCNICA
Texto: Bertolt Brecht | Direção: Laura Brauer | Assistência de direção: Mariana Sapienza Bianchi | Treinamento para processo de pesquisa e criação: Cuca Bolaffi | Orientação musical: Jean Pierre Kaletrianos | Orientação teórica: Judson Cabral | Produção executiva: Igor Luís e Jonatha Ferreira | Produção artística: Jennifer Garcia e Juliana Mentros | Sonoplastia, cenário e figurino: O elenco | Pesquisa e criação: Turma 21 do Núcleo de Formação de Atores e Atrizes da Escola Livre de Teatro de Santo André.




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