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Forma-se um truste no mercado educacional brasileiro

Abril Educação e Saraiva Educação são vendidas a grupo de investimentos estrangeiro e esperam aprovação do Cade para anunciar a fusão com novo nome: grupo SOMOS Educação.

quarta-feira 30 de setembro de 2015| Edição do dia

A venda da Abril Educação a um grupo de investimentos norte-americano

Em fevereiro, o Grupo Abril vendeu a totalidade das ações da Abril Educação para fundos de investimento da gestora Tarpon[1], em uma operação avaliada em R$ 1,3 bilhão. O presidente executivo da Tarpon, Eduardo Mufarrej, assumiu o posto de presidente da Abril Educação.

A venda do negócio de educação é mais um passo no processo de enxugamento que vem sendo implementado no grupo Abril desde a morte do empresário Roberto Civita, filho do fundador do grupo, Victor Civita, em maio de 2013.

Em 2013 a empresa demitiu 150 funcionários e descontinuou quatro títulos próprios ("Alfa", "Bravo", "Gloss" e "Lola"), vendeu as frequências da MTV e transferiu dez títulos para a Editora Caras. Esse ano, nova demissão em massa: mais de 200 trabalhadores na rua e com o fechamento de 2 títulos ("Capricho" e "Exame PME") e venda de sete revistas à editora Caras ("Placar", "Anamaria", "Arquitetura & Construção", "Contigo", "Tititi", "Você RH" e "Você S/A"). Novas demissões estão a caminho: segundo o Sindicato dos Jornalistas Profissionais no Estado de São Paulo, o grupo Abril se recusou a fechar um acordo no qual não houvesse demissão em massa nos seguintes três meses.

O grupo Tarpon tem 34,1% de suas ações negociadas na Bolsa, e conta ainda com o governo de Cingapura (18,5%) e o fundo Constellation [2] (6,6%) de sócios.

A venda da Saraiva Educação e a criação do grupo SOMOS Educação

O processo de compra da Abril Educação pelo grupo Tarpon ocorreu da mesma maneira com que este negocia agora com a Saraiva Educação. Dentre os dois segmentos de atuação do Grupo Saraiva (varejo e educação), o segundo talvez seja mais promissor, porque o varejo de livros enfrenta desafios maiores, como o comércio eletrônico e a mudança de hábitos para a leitura digital. Segundo a empresa "a editora é um segmento melhor, mas a transação veio como uma boa forma de resolver o problema de alavancagem da companhia, que era alta. Vinha ficando mais difícil fazer a rolagem da dívida, principalmente com a alta dos juros."[3]

De janeiro a setembro de 2014, o faturamento da Abril Educação foi a R$ 753,7 milhões, alta de 32,6% ante igual período do ano anterior. O faturamento mais alto do grupo neste período. Porém, no início de 2015, o Grupo Abril saiu do negócio educacional com a venda da Abril Educação à Tarpon, que agora pretende adquirir também todos os direitos sobre a Saraiva Educação. O grupo de investimentos estrangeiro detém em suas mãos, a partir da concretização dessa transação, a quase totalidade da produção de material didático produzido no país.

Com a realização da fusão, Abril Educação deixa de existir e entra em cena então um novo grupo, formado pela junção das duas empresas (Abril Educação e Saraiva Educação), chamado SOMOS Educação. Ainda antes da definição do novo nome, foi anunciada a compra da totalidade da operação editorial e educacional do Grupo Saraiva, um dos principais competidores do mercado editorial brasileiro.

A transação, avaliada em R$ 725 milhões, está sob análise do Cade (órgão competente) e após aprovado dará à SOMOS Educação os direitos sobre o catálogo de livros didáticos e paradidáticos, literatura e obras de referência da Educação Básica ao Ensino superior da Saraiva Educação, constituída pelos selos: Saraiva, Atual, Benvirá, Sistema de Ensino Ético e Editora Erica. O amplo portfólio de soluções educacionais e de marcas da Saraiva Educação soma-se ao já enorme catálogo da antiga Abril Educação: Ática, Scipione, Anglo, pH sistema de ensino, Ser, GEO, Maxi, Farias Brito, Motivo, Alfacon, Centro Educacional Sigma, Edumob, O líder em mim, Canal Educar, etb (ensino técnico e profissionalizante no Brasil), WizeUp e RedBaloon.

"O que nos levou a avançar na transação foram pontos como o reforço da nossa presença em escolas, que é parte do objetivo da Abril Educação, e cada vez mais desenvolver relação muito próxima com donos de escolas, professores, alunos, famílias e gestores" [3], disse o atual presidente do grupo, Eduardo Mufarrej, ao Jornal Folha de São Paulo.

Essa operação de ampliação da empresa e criação do grupo SOMOS Educação amplia a capacidade da editora de servir ao mercado educacional, tanto privado – através da venda de livros didáticos a escolas particulares (o grupo conta com um enorme setor de vendas) e dos sistemas de ensino – quanto público - através do PNLD -, detendo uma quase totalidade da participação nesses segmentos.
Atualmente, a empresa atende, com produtos ou serviços, mais de 130 mil escolas e cerca de 30 milhões de alunos no país. Segundo Mufarrej, a meta é aproveitar os portfólios complementares para alcançar uma "atuação mais relevante em todos os segmentos da educação nacional"[3].

Domínio de todos os segmentos da educação nacional

O grupo SOMOS, que já atuava nos ramos editorial e gráfico, agora investe também em colégios próprios. O colégio Doze de Outubro, em São Paulo, foi adquirido pelo grupo, e em 2016 se tornará a primeira unidade própria do Colégio Anglo, oferendo todos os segmentos de Educação Básica, onde serão aplicados todos os serviços e materiais do Sistema Anglo de Ensino – produzido pelo mesmo grupo.

A formação de um Truste

Em “O Imperialismo, etapa superior do capitalismo” [4], Lenin discute como a livre concorrência, transformou-se em monopólio, criando a grande produção, que elimina a pequena, criando uma grande produção ainda maior; os cartéis; os trustes; e fundindo-se com eles, o capital de uma escassa dezena de bancos que manipulam milhares de milhões de fundos.

É preciso afirmar que as associações de monopolistas capitalistas - cartéis, trustes - partilham entre si, em primeiro lugar, o mercado interno, apoderando-se mais ou menos completamente da produção do seu país. O grupo SOMOS Educação é o braço educacional do grupo de investimentos Tarpon, que movimenta capitais e vê na educação um mercado promissor ao investimento. A partir da fusão que se realiza entre duas grandes editoras do setor de didáticos, paradidáticos e sistemas de ensino, somado ao investimento em colégios próprios, o grupo SOMOS detém grande parte da produção desse segmento.

O grupo Abril e o grupo Saraiva, que se encontram com dificuldades financeiras em decorrência do cenário econômico nacional, vendem o seu braço editorial voltado à educação para um grupo de investimentos disposto a fazer dinheiro render. Além disso, num momento em que as pequenas editoras se desesperam sem saber como pagar os próximos vencimentos, as grandes encontram na crise destas uma forma de “crescer”. Sobre isso, Lenin coloca:

“as crises (as crises de toda espécie, sobretudo as crises econômicas, mas não só estas) aumentam em fortes proporções a tendência para a concentração e para o monopólio. [LENIN, 1916]”

O grupo SOMOS pretende atuar em diferentes fases do processo produtivo da cadeia educacional: editorial, gráfico, escolar. Sobre as grandes empresas que atuam em vários ramos relacionados do mesmo segmento, Lenin considera:

“uma particularidade extremamente importante do capitalismo, chegado ao seu mais alto grau de desenvolvimento, é a chamada integração, isto é, a reunião numa única empresa de diferentes ramos da indústria que possam abranger fases sucessivas. [LENIN, 1916]”

O fato de que o fundo tem investido seu capital numa fábrica de ensinar em vez de numa fábrica de salsicha pouco importa, como diria Marx, buscam apenas aumentar suas taxas de lucro.

Controle do meio de produção de ideias

A particularidade que tem uma editora, em relação a uma indústria de produtos alimentícios, de cimento ou de aço é o elemento de aparelho ideológico que o setor editorial voltado à educação possui. Um meio grandiosíssimo de produção e difusão de ideologia. Nesse caso, o grupo SOMOS concentra em suas mãos uma enorme fatia dos meios de produção, difusão e internalização dessas ideias desde a formação dos cidadãos a partir do ensino.

O monopólio dos meios de produção ideológica é uma forma da burguesia dominar a produção de ideias e fazer com que suas ideias sejam dominantes. O grupo SOMOS investe visando o lucro e visando disseminar ideias, através do controle de aparelhos ideológicos.

Ou seja, um grupo com interesses políticos e econômicos dentro e fora do país, que tem como único objetivo de existência maximizar os lucros de seus acionistas, produz o material que será usado no ensino das escolas e na formação das crianças do país. Impulsionado por seu poder financeiro, e sem nenhum interesse social que o legitime, impede, na prática, que se produzam ideias concorrentes, ainda que na teoria qualquer um possa fazer.

Democratização dos meios de produção e difusão de ideias

Nos meios de difusão e produção de ideias, devemos defender que eles sejam divididos de forma democrática a partir dos organismos da sociedade civil, por exemplo: cada partido, sindicato ou grupo que reúna determinado número de pessoas tenha o meio para difusão de suas ideias.

É extremamente nocivo que um grupo de interesse qualquer tenha poder para decidir quais ideias serão difundidas através da educação. Porque além de já existir o currículo Nacional e Estadual ao qual o conteúdo que é ensinado ao aluno está subordinado, temos mais uma instância de controle ideológico que intermedeia o contato do aluno com a aprendizagem. Quando o interesse desse grupo é o lucro, ganha essa capacidade de preparar a geração futura como mercado consumidor e cria grandes obstáculos para a libertação da lógica alienante à qual a própria exploração do trabalho nos submete a todos.




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