Educação

USP

Folha defende em editorial a mercantilização da educação e da pesquisa

Em editorial publicado no dia 3 de fevereiro, intitulado “Docentes em fuga”, a Folha de São Paulo defendeu cobrança de mensalidades e acordos com a iniciativa privada para financiar o aumento do teto salarial da Universidade de São Paulo (USP).

Patricia Galvão

Trabalhadora da USP e integrante da Secretaria de Mulheres do SINTUSP

quinta-feira 6 de fevereiro| Edição do dia

Que a Folha de São Paulo esteja alinhada aos empresários para atacar a universidade pública não é muita surpresa. No passado chegou a acusar os funcionários de corporativismo por defendermos a universidade pública a serviço da população contra a lógica privatista e lutarmos contra demissões e por mais contratações de funcionários efetivos.

No seu editorial, a folha deixou bem claro o que pensa: Pensa que educação é mercadoria para poucos e que uma minoria deve se beneficiar em detrimento da maioria.

Em recente reportagem, de 28 de janeiro, a Folha denunciou que na USP em 3 anos mais de 70 professores pediram exoneração e outros 70 pediram licenças não remuneradas, para se dedicarem a pesquisa ou à docência em outras universidades. Um número alto se comparado com os anos anteriores. Entre os motivos para a saída da estão oportunidades melhores em outras universidades além dos cortes na pesquisa e a situação do país sob o governo Bolsonaro. E de acordo com a mesma reportagem o motivo principal alegado pelos docentes é falta de apoio institucional e problemas de infraestrutura, além dos rumos que a educação tem tomado no país. Com Weintraub no comando do Ministério da Educação, a preocupação com os rumos da educação não é um mero detalhe.

No entanto, os reitores das universidades estaduais parecem acreditar que o problema principal, e talvez o único para os docentes é o aumento do teto salarial. O que os reitores – que são os mais interessados no aumento do teto que pode significar um aumento salarial de até 16 mil reais(!) – não dizem é que uma ínfima minoria de burocratas, que já abandonaram há anos a pesquisa e cuja única dedicação tem sido atualmente planejar o desmonte a privatização da USP, serão os beneficiados.

A Folha de São Paulo também constata, a partir de todos esses dados e ignorando as denúncias de precarização da universidade e da educação do país, que o problema é o teto salarial (que era de 23 mil e passará a ser de 39 mil reais graças ao STF). E a solução para o suposto impasse, pasmem, é a cobrança de mensalidades e abertura da universidade para a iniciativa privada!

Supostamente preocupada com a “fuga” de cérebros da USP, a Folha esquece de dizer que a Universidade de São Paulo tenta contratar pós-doutorandos, pesquisadores ultra qualificados, por cerda de R$ 1.200,00 mensais. Um pouco mais que um salário mínimo! Os novos cérebros da USP estão sendo sistematicamente precarizados na mais importante universidade do país. A USP não repõe os docentes que se aposentam ou pedem exoneração e há falta de professores em vários cursos. Na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas a situação é dramática a cada nova matrícula. Professores sobrecarregados, salas lotadas, e alunos tendo que concorrer desesperadamente por vagas em disciplinas para que possam se graduar.

Com o corte de bolsas promovido pelo governo federal, diversos programas de pós-graduação não conseguirão oferecer bolsas de estudo para os ingressantes no mestrado e doutorado. Assim, o futuro pesquisador tem que se desdobrar para conseguir dar conta da sua pesquisa e se sustentar. Imaginem se esse estudante ainda tiver que pagar mensalidade!

Chega a ser absurda a defesa do jornal de uma discussão séria e sem preconceitos sobre mensalidades e iniciativa privada. Oras, se é para ser sério e sem preconceitos, tratemos de abrir a universidade para a população. De valorizar a pesquisa que possa beneficiar os milhões de trabalhadores que sofrem com problemas tão simples de serem resolvidos como saneamento básico, saúde e acesso à educação. De ampliar as vagas na universidade para que todos que queiram possam estudar sem pagar mensalidades e sem a necessidade do filtro social, que é o vestibular. Tratemos de estatizar os grandes monopólios da educação como a Kroton e a Anhanguera que lucram milhares de reais às custas de precarizar o trabalho docente e extorquir milhões de estudantes com cobrança de mensalidades pelo direito de estudar! Assim, novos cérebros vão surgir aos montes e a pesquisa tomará novos rumos e ajudará a toda à população, que sustenta a universidade.

Ao invés de tentar favorecer uma ínfima minoria, num país onde o salário mínimo é de R$ 1.045,00, que é o salário base de milhares de trabalhadores terceirizados da USP, a preocupação do jornal deveria ser em derrubar os muros simbólicos da universidade, colocando-a a serviço da população e ampliando suas vagas para que mais e mais estudantes possam participar da pesquisa e tenham políticas de permanência, com bolsas dignas, para que possam se desenvolver plenamente.




Tópicos relacionados

Educação   /    USP

Comentários

Comentar