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Folha de SP e Renan aderem a frente PSTU-Luciana Genro por “eleições gerais”

Por que o PSTU e o MES não rechaçam o golpismo institucional e defendem em comum o programa de "eleições gerais"?

Daniel Matos

São Paulo | @DanielMatos1917

quinta-feira 7 de abril de 2016| Edição do dia

Antes de qualquer coisa queria agradecer às 1.846 curtidas no artigo em que perguntei se o PSTU e Luciana Genro se uniriam em um mesmo partido em função de sua confluência no programa de “eleições gerais” para responder à grave crise que atravessa o país. Aos 50 comentários de companheiros do PSTU e do MES (corrente de Luciana Genro dentro do PSOL) que não gostaram da pergunta, peço por favor que não se sintam ofendidos. Ao invés de se ofenderem seria mais útil se respondessem então por que confluem nesse programa, ao qual nos últimos dias aderiram também a Folha de São Paulo e Renan Calheiros.

Um elogio à “democracia” das UPPs

O PSTU, o MES e a Folha de SP tratam as tentativas atuais de destituir Dilma através do parlamento ou do poder judiciário como métodos normais da democracia burguesa, uma mudança legítima de governo dentro dos marcos de um mesmo regime.Para eles, existem apenas dois extremos: ou golpe militar apoiando-se sobre as forças armadas ou métodos “normais” da democracia burguesa. Deixemos de lado o cinismo “democrático” da Folha de SP, que usou seus carros de entrega de jornal para conduzir as forças repressivas durante a ditadura militar; e também coloquemos à parte a recente vocação “democrática” de Renan Calheiros.

Parece que os companheiros do PSTU e do MES se esqueceram ou não querem ver que os métodos da Lava Jato são os mesmos que garantem a “estabilidade democrática” nas favelas do país. Delação premiada, prisão preventiva por tempo indeterminado, depoimento coercitivo, busca e apreensão, escutas ilegais, mais “autonomia”para a Polícia etc. Esses são os métodos sem os quais a Lava Jato e Sérgio Moro – com a ajuda da Rede Globo – não poderiam ter se alçado como novos “heróis nacionais”. São também os métodos que sustentam um sistema jurídico e carcerário onde 40% dos presos (em sua maioria negros e pobres) estão atrás das grades há anos sem qualquer condenação. Sem regras “democráticas” como essas não existiriam as UPPs, o Bope, a Rota e seus congêneres em cada estado. Sem essas instituições tão caras à “democracia” brasileira as classes dominantes não poderiam reprimir e “administrar” a violência social inerente à miséria estrutural que reina nas favelas do país. Ao não rechaçar o golpismo institucional, o PSTU e Luciana Genro estão contribuindo para a legitimidade desses métodos.

Por mais que se critiquem os “excessos” de Moro (MES) e se declame frases esquerdistas contra a “justiça burguesa” (PSTU), defender “eleições gerais” significa fazer coro com a política da Folha de São Paulo e de Marina Silva. Corresponde a atribuir aos juízes do Tribunal Superior Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal o poder de decidir quem governa o país em base às investigações da Lava Jato; ou delegar a um punhado de deputados como Collor, Aécio, Bolsonaro, Paulinho, Cunha, Renan etc. o poder de mudar as leis passando por cima do voto de dezenas de milhões. Um elogio a juízes que recebem mais de 80 mil reais por mês, têm mil laços com as multinacionais imperialistas ou são treinados pelo Departamento de Estado norte-americano. Ou um elogio à constituição pactuada com os militares em 1988, seus penduricalhos neoliberais e esse Congresso do petrolão.

Parece inacreditável, mas é como se o PSTU e o MES estivessem defendendo os métodos da “democracia da bala” que vigora nas favelas como legítimos para que as classes dominantes possam “limpar” a “democracia do suborno”.

O PSTU e o MES negam que existam usos crescentes de métodos bonapartistas que não necessariamente implicam no uso das forças armadas. Fecham os olhos para o fato de que em todo o mundo distintos setores do imperialismo se apoiam no poder judiciário para “remover” governos ou sistemas de partidos disfuncionais a seus interesses que substituí-los por outros mais servis (vide Mãos Limpas na Itália). Se negam a ver que com o desgaste provocado pelas ditaduras militares nos anos 70 e enquanto o a classe operária ainda não é uma ameaça que exija o uso das forças armadas para freá-la, o imperialismo e seus agentes nativos têm muitos outros mecanismos para reforçar seu poder nos países democrático burgueses. Em meio a essa cegueira, terminam não somente fazendo coro com interesses e métodos imperialistas e da direita ao mesmo tempo em que abandonam a luta em defesa das liberdades democráticas mais elementares, cuja conquista não foi produto de nenhuma “bondade” das classes dominantes, mas sim de muitas lutas operárias e populares ao longo da história.

É tão direitista a reivindicação que o PSTU e o MES (junto com a Folha de SP) fazem dos métodos “normais” que estão sendo utilizados pela Lava Jato para alentar a destituição de Dilma que me pergunto se seus militantes têm consciência das consequências do que dizem. Tenho essa dúvida mesmo sabendo que até hoje o PSTU nunca fez qualquer autocrítica pública por ter defendido no Egito que a junta militar seguidora de Mubarak prendesse (mas não matasse!) os militantes da Irmandade Muçulmana. Pois talvez defender delírios em países tão distantes e onde não se tenha nenhum militante seja mais fácil que em países onde se sente as consequências estão um pouco mais próximas. Mesmo no caso do MES de Luciana Genro e de sua juventude “Juntos!”, apesar de elevarem Sérgio Moro e sua Lava Jato à categoria de novos heróis nacionais, me pergunto se a sede de votos e o eleitoralismo desenfreado não pode ser a base dessa cegueira.

Se quiserem fazer jus não ao trotskismo ou ao marxismo que reivindicam, mas ao mais mínimo sentido de solidariedade com a classe operária, deveriam levar em conta que quanto maior for a legitimidade desses métodos da Lava Jato, mais os sindicatos e a esquerda estarão vulneráveis às arbitrariedades do Estado burguês. Trata-se de uma questão de princípios elementar. Ou, para dizer numa linguagem mais simples, de auto preservação!

Uma defesa antecipada do programa da traição

Em recente artigo, o PSTU afirmou que o MRT, ao rechaçar o golpismo institucional, estaria na verdade capitulando à “frente popular” dirigida pelo PT. Há que destacar que esse é um argumento polêmico que até agora não haviam utilizado. Entretanto, pedimos que os companheiros do PSTU esclareçam uma confusão inerente à tese:

Vocês dizem que o PSDB e o PT são dois bandos burgueses que devem ser tratados como iguais, e que toda diferenciação entre eles não passa de uma falsa polarização para enganar as massas. Pois bem.

Peço que expliquem então se vocês agora passaram a considerar a direita encabeçada pelo PSDB como uma “frente popular”.

Talvez essa seja a nova “teorização” que se esconde por detrás da política que vocês levantam como quinta roda do carro da direita, buscando ver algo de “contraditório” nas manifestações reacionárias do dia 13 de março, como expressou no jornal Opinião Socialista.

Mas deixemos de lado esse “detalhe” de caracterização para concentrarmos na essência da “política” que vocês defendem.

Suponhamos por um segundo que seja possível a fantasia defendida pelo PSTU. Entremos em seu “país das maravilhas” e imaginemos um movimento de massas (uma greve geral!) pelo “Fora todos, eleições gerais” que não seja pela direita, mas sim pela esquerda (ver editorial Opinião Socialista n 514, de 31 de março a 14 de abril). Esqueçamos por um instante o apoio da São Paulo ao programa de eleições gerais e da FIESP a toda campanha destituinte do governo. Fantasiemos que um movimento como esse poderia ser impulsionado de forma “independente” pelos sindicatos e oposições sindicais dirigidas pelo PSTU e por Luciana Genro. Eu sei que é difícil de imaginar que o ato de um punhado de sindicalistas na General Motors de São José dos Campos e de 800 na Paulista possa “hegemonizar” as centenas de milhares (ou segundo alguns milhões) que saíram às ruas no dia 13. Entendo que seja ainda mais difícil de imaginar como o “Fora todos, eleições gerais” pode se transformar em algo de esquerda na medida em que cada vez mais esse programa se autonomiza da luta contra os ajustes e ataques do governo e da patronal, que curiosamente teve muito pouco peso na agitação do ato do dia 1º de abril. Mas ainda assim façamos um esforço imaginativo para debater com os companheiros do PSTU aonde levaria sua política:

O que teríamos nessa fantasia é o PSTU e Luciana Genro encabeçando o programa de traição e desvio de uma mobilização de massas, o qual seguramente seria apoiado por todas as direções burguesas minimamente inteligentes, que prefeririam ceder os anéis para não perder os dedos.

Um eventual movimento de massas que levante como programa eleições gerais teria como objetivo desviar esse processo para dentro dos marcos da institucionalidade burguesa, renovando a casta de políticos que administram o país para legitimar maiores ataques à classe trabalhadora. Hoje por hoje, muito provavelmente com Marina Silva à cabeça.

É difícil de entender como o PSTU pode defender que uma “greve geral pelo Fora todos” culmine em eleições gerais que legitime as instituições da democracia dos ricos em que vivemos. É uma vulgarização completa do conteúdo de “greve geral” na tradição marxista, que coloca de fato a questão de “quem governa o país” (Trotsky) e prepara as condições para a insurreição. Por tanto, se não é pensado seriamente ligado ao armamento das massas para a auto defesa frente aos ataques da reação, trata-se de uma completa irresponsabilidade.

Se de fato surgisse uma tendência à greve geral política, o correto seria defender não “eleições gerais” mas sim a luta pela tomada do poder pela classe operária.

Mesmo se o PSTU estiver vulgarizando o nome de greve geral para pintar mais à esquerda uma proposta de paralisação nacional contra os ajustes (não os “dias de luta” que não incomodam ninguém mas sim a entrada em ação dos principais bastiões da classe operária), defender que uma ação de massas da classe operária levante como programa “eleições gerais” é colocar essa ação a reboque do golpismo institucional. Uma paralisação nacional que responda aos ataques econômicos, para ganhar os setores progressistas das classes médias e do povo pobre da cidade e do campo deveria levantar como bandeira uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Uma Assembleia que ataque a impunidade pela raiz impondo que todos os políticos sejam revogáveis e ganhem o mesmo que um trabalhador médio, que todos os juízes sejam eleitos por voto direto e que os juris populares se estendam aos crimes de corrupção; que barre os ataques capitalistas instituindo uma lei que proíba as demissões; e que rompa com a subordinação ao imperialismo cancelando o pagamento da dívida pública para destinar esses recursos à educação e à saúde. Nesse marco, a luta por uma Constituinte contribuiria para que as massas façam uma experiência com a democracia burguesa e avancem na consciência da necessidade de construir organismos de duplo poder para a revolução.

Mas não. O PSTU e o MES preferem defender “eleições gerais” nos marcos dessa “democracia” que no ano passado fez uma reforma da legislação eleitoral para restringir ainda mais os direitos democráticos de partidos como o PSTU e o PSOL nas eleições.

A única forma de explicar tal estranheza é com a paixão que o PSTU e o MES têm em comum pela “teoria” da revolução democrática que marca a origem e o modo de pensar de todos os morenistas, que apesar de constituírem distintas organizações políticas têm uma mesma origem na diáspora da corrente fundada pelo argentino Nahuel Moreno.

Uma “teoria da revolução democrática” que legitima métodos bonapartistas

A “teoria” da revolução democrática elaborada por Nahuel Moreno separa as demandas democrático formais (que dizem respeito às formas de governo) das demandas democrático-estruturais (que dizem respeito à estrutura econômico-social) e das demandas operárias (que dizem respeito ao choque de interesses entre a classe trabalhadora e os capitalistas), para afirmar que a queda de um regime ditatorial seria um revolução democrática independentemente do sujeito que a derrube. Ou seja: não importa se quem a derruba é a ação independente do proletariado ligando a luta pela derrubada da ditadura com o combate anticapitalista ao imperialismo e seus agentes nacionais; ou se quem a derruba é um uma direção burguesa ou pequeno-burguesa que se contrapõe a medidas anti-imperialistas e anticapitalistas, assentando as bases para uma transição controlada a um regime democrático burguês que aborta uma revolução proletária em desenvolvimento.

Nessa medida, Moreno rasga e joga no lixo uma das lições mais importantes dos processos revolucionários do século XX: somente a classe operária tendo à sua frente um partido revolucionário e apoiando-se sobre organismos de tipo soviético para hegemonizar com seu programa os interesses democráticos de todos os setores oprimidos e da pequena burguesia pode ser capaz de levar até o final as tarefas da revolução democrática, estabelecendo uma dinâmica inseparável entre essas batalhas e a revolução socialista. Quando isso não aconteceu, ou foram revoluções derrotadas ou deram lugar a Estados operários monstruosamente burocratizados que posteriormente restauraram o capitalismo.

Por mais que essa revisão de Moreno deixasse a porta aberta para que a mesma lógica fosse aplicada em meras mudanças de governo dentro dos marcos da democracia burguesa, foi o PSTU quem “teorizou” esse passo ao afirmar que a queda de Collor foi uma “revolução democrática” triunfante (vide livro Esquinas Perigosas da História, de Valério Arcary).

Com esse passo, o PSTU passa a conceber que qualquer derrubada de qualquer governo é uma “revolução democrática” triunfante, independente de se ele é derrubado por uma ação independente das massas ou por métodos bonapartistas judiciais e parlamentares que manipulam movimentos de massa progressivos ou reacionários.

No caso do Fora Collor, tratou-se da manipulação de um movimento progressista das massas, em que o impeachment foi utilizado como mecanismo de desvio para impedir que o governo fosse derrubado pela ação independente das massas em uma greve geral, e a partir daí costurar a continuidade da ofensiva neoliberal. O PT e a CUT, ao negarem-se a convocar uma greve geral pela derrubada do governo e uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana para atacar a impunidade pela raiz e enfrentar a ofensiva neoliberal, foi essencial para esse desvio, por mais que tenha se mantido posteriormente como oposição aos governos de Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso.

No caso do movimento dos “esquálidos” para derrubar Chávez na Venezuela, ou do que hoje tenta derrubar Dilma no Brasil, trata-se da manipulação de movimentos de massa claramente reacionários.

Em seu confucionismo morenista, o polemista Alejandro Iturbe chega a afirmar que um golpe militar significa um retrocesso “na independência dos três poderes da democracia burguesa”. É incrível como o revisionismo teórico joga por terra bases elementares do marxismo. A “independência” dos três poderes não é uma conquista democrática! Os soviets unificam o poder executivo e parlamentar! Na constituição norte-americana, a separação de poderes serve justamente para criar o mecanismo de “checks and balances” (freios e contrapesos) serve justamente para permitir que as classes dominantes usem o arbítrio de um dos poderes sobre os demais para resolver as crises políticas expropriando a vontade popular, deixando as massas por fora das decisões fundamentais. A atuação bonapartista do poder judiciário e o mecanismo de impeachment são mecanismos de expropriação do sufrágio universal.

Essa confusão é justamente parte da cegueira que fez a direção do PSTU comparar a crise atual com as eleições presidenciais de 2014, como se votar nulo frente a candidaturas que representam projetos burgueses (como nós do MRT fizemos não somente em 2014, mas também em 2002 quando o PSTU chamou o voto em Lula) correspondesse a não rechaçar o golpismo institucional atual. É inacreditável como a cegueira frente aos mecanismos bonapartistas da democracia burguesa leva a não conseguir diferenciar o sufrágio universal de uma negação do mesmo.

É difícil entender por que os militantes do PSTU nunca se rebelaram contra as delirantes comparações entre o Fora Collor e o fevereiro de 1917 na Rússia. Deveria ser digno de pelo menos certo incômodo a comparação entre os jovens de preto e a CUT pelo impeachment de Collor por um lado e por outro os soldados e operários bolcheviques armados e construindo soviets. Mas mesmo deixando de lado os delírios acadêmicos que não precisam prestar muitas contas com a realidade, é difícil de tragar que depois de toda a ofensiva neoliberal que seguiu ao impeachment nunca questionaram que a queda de Collor tenha sido o triunfo de uma “revolução democrática”.

Assim, o mundo para os morenistas passa a ser dividido entre “governo” e “oposição” (PSTU) a agora inclusive entre “honestos” e “desonestos” (MES). O critério de valor para determinar o caráter dos fenômenos político-sociais não é mais de classe. Passam a defender “uma revolução qualquer com uma direção qualquer”. E nesse caminho terminam defendendo “revoluções democráticas” que acabam por legitimar os métodos das UPPs, novas ditaduras e novas ofensivas neoliberais.

Por mais que reivindiquem a classe trabalhadora em discursos dogmáticos e ortodoxos, terminam colocando-a como massa de manobra de setores burguês opositores.

Todo militante do PSTU que se sente incomodado com o fato de que seu partido hoje esteja tão colado à Fiesp e à Folha de São Paulo deveria buscar a relação entre isso e o apoio que sua corrente internacional emprestou aos gusanos que protestavam contra a ditadura de Castro em Cuba; aos esquálidos que protestaram contra o governo Chávez na Venezuela; ou a todas as burguesias opositoras nos distintos processos da Primavera Árabe, ao ponto de defender a “unidade na ação” com as bombas e tropas especiais da OTAN em seu apoio à oposição contra Kadafi na Líbia. Essa é a consequência das revisões que Moreno e o PSTU fizeram na Teoria da Revolução Permanente de Trotsky. É uma revisão que impede a fusão entre o marxismo revolucionário e as tendências mais à esquerda do movimento de massas.

A arte de mudar de tema para não responder às críticas teórico-políticas

Ao esconder as lutas políticas que nós do MRT fazemos contra o discurso e às ações através das quais o PT utiliza o rechaço ao golpismo institucional para legitimar um governo Lula-Dilma, ao nos atacar como defensores do “Fica Dilma”, o PSTU se esforça para mudar de tema e não ter que responder às críticas teórico-políticas que lhes fazemos.

Agora, em sua última polêmica, o PSTU lança uma nova manobra distracionista. Diz que o MRT é eleitoralista e oportunista porque quis entrar no PSOL e que para tal destacava os 1,6 milhões de votos recebidos de Luciana Genro. Aqui, novamente, escondem que nossa proposta de entrada sempre esteve subordinada à luta pela construção de uma corrente revolucionária no interior desse partido e escondem todas as lutas políticas que demos contra as adaptações do PSOL e de Luciana Genro ao PT antes desta última dar uma guinada à direita junto com o PSTU.

Claro que para fazer essa crítica o PSTU tem que contar com a débil memória das pessoas que não se lembram quando nos primeiros anos do PSOL eles cantavam: “Ô Heloísa, eu quero ver, novo partido socialista com você”. Depois, em 2006, para se colar nos votos de Heloísa Helena, tratavam como uma “divergência tática” o fato da “socialista” se colocar naquele momento contra o direito ao aborto, em defesa da “lei” contra o MST e a favor de subsídios à patronal da Volks que demitia em massa. Para evitar fazer a discussão teórico-política, negam o caráter antidemocrático da legislação eleitoral que dificulta a legalização de organizações operárias como o MRT. Ao mesmo tempo em que tratam de maneira não muito democrática qualquer militante do PSTU que faça críticas à direção minimamente semelhantes às nossas.

Infantilidade ou estreiteza nacional?

Em sua última polêmica, o PSTU afirma que o suposto “eleitoralismo” do MRT seria uma “contaminação” de tendências do mesmo tipo que estariam dominando nosso partido irmão na argentina, o PTS. Com isso, dão um atestado de infantilidade ou de estreiteza nacional ignorante. Sabemos que os companheiros do PSTU têm uma organização irmã homônima na Argentina. Talvez seus companheiros do país vizinho, por serem um pequeno grupo, não acompanhem muito a política de seu país. Mas sugiro que os companheiros do PSTU brasileiro acompanhem minimamente a imprensa argentina para fazer um debate sério no terreno internacional.

Se o fizessem, seguramente sentirão orgulho de que tem um país da América Latina onde a esquerda trotskista tem um peso real na vida política nacional, ainda que minoritário. O PTS na Frente de Esquerda, com Nicolás Del Caño e Myriam Bregman à cabeça, estão praticamente todos os dias nos principais meios de comunicação, e aparecem para setores de massas como a representação superestrutural da esquerda que se propõe a resistir com os métodos da luta de classes dos trabalhadores aos ataques do governo Macri. Localização essa que só pode ser conquistada porque se trata de um partido que se delimita claramente da oposição pequeno-burguesa dos kirchneristas, que através dos estados em que governa e por suas promíscuas relações com o aparato peronista e a burocracia sindical termina legitimando os ataques ou deixando-os passar sem luta.

Sobretudo, os companheiros do PSTU ficarão impressionados em ver que não são somente os deputados e o candidato a presidente pelo PTS na Frente de Esquerda que têm uma importante projeção nacional. Verão também que os principais referentes operários do PTS aparecem nos principais meios de comunicação de massas a cada acontecimento político ou da luta de classes de transcendência nacional. Cláudio Dellecarbonara, dirigente sindical do Metrô, reconhecido como uma das duas ou três principais lideranças sindicais combativas da Argentina. Raul Godoy, dirigente da emblemática Zanon, fábrica de cerâmica ocupada sob controle operário, hoje deputado novamente estadual de Neuquén, e que após seu primeiro mandato retornou ao chão de fábrica junto a seus companheiros de trabalho. Madygraf (ex-Donnelley), multinacional ocupada e sob controle operário no coração da zona norte da Grande Buenos Aires, principal concentração operária do país. Os cortes da Panamericana junto à comissão interna de Pepsico e oposição de Kraft, algumas das maiores fábricas de alimentos do país. Juntamente com os operários saboneteiros, os trabalhos operários do PTS hoje constituem as principais chapas classistas e combativas (no caso de gráficos disputando com o Partido Obrero) das eleições sindicais em curso nessas semanas.


Piquete na rodovia Panamericana na luta contra as demissões em Lear

O PTS não conquistou esse peso superestrutural assimilando as bandeiras da direita para tentar aparecer em seus meios de comunicação, como vem fazendo o PSTU. Tampouco conquistou esse peso no movimento operário adaptando-se às burocracias sindicais, como sempre fez o PSTU.

Essa localização foi conquistada porque nas estruturas do movimento operário em que o PTS tem peso de direção, este trava grandes batalhas de classe que ganham repercussão nacional, transformando esses dirigentes operários em referências públicas do classismo combativo.

Para que se entenda bem claramente do que estamos falando: quando foram demitidos centenas de ativistas combativos na metalúrgica Lear, tendo apenas um membro da comissão interna da fábrica, o PTS colocou de pé uma enorme batalha que durou mais de 7 meses, com dezenas de bloqueios da rodovia Panamericana (principal do país), acampamento da porta da fábrica, enfrentamento com a polícia, a gendarmeria e os serviços de inteligência, seguindo a luta enquanto os demitidos estivessem dispostos a combater, mesmo com todas demais correntes da esquerda havendo decretado a derrota e abandonado os operários à própria sorte nos primeiros meses. Uma batalha que foi classificada pela imprensa burguesa como o principal conflito de 2014, envolvendo inclusive a embaixada norteamericana. Bem diferente das derrotas sem luta que o PSTU constrói na GM de São José dos Campos, como vemos agora na demissão de centenas de trabalhadores que já era prevista há 5 meses sem que este partido tenha feito nenhuma campanha nacional. Num lugar onde dirigem um dos principais sindicatos metalúrgicos do país e num momento em que estranhamente esse mesmo partido e esse mesmo sindicato diz que os operários querem fazer uma “greve geral pelo Fora todos e as eleições gerais”.

Companheiro Alejandro Iturbe, o fato do PSTU ter recebido apenas 91 mil votos nas últimas eleições (0,09%, caindo vertiginosamente dos 440 mil votos que chegou a receber em 2002) não significa que todas as correntes que têm sucessos eleitorais sejam por isso “eleitoralistas”.

Ao invés de dar mostras de estreiteza ou ignorância nacional, vocês deveriam buscar conhecer um pouco mais sobre o PTS na Frente de Esquerda, seguramente a organização trotskista hoje que combina a maior projeção superestrutural com a maior inserção do movimento operário. Uma localização da esquerda trotskista que nunca houve na Argentina nem na América Latina (salvo na projeção que o trotskismo teve na revolução boliviana de 1952).

Mas para nós essa posição conquistada é completamente insuficiente. Ao contrário da estreiteza nacional do PSTU, o PTS enviou uma carta ao Partido Obrero, com quem compartilha a Frente de Esquerda, fazendo um chamado para impulsionarem em comum uma Conferência latinoamericana da esquerda revolucionária: “não podemos ficar sem iniciativas frente aos acontecimentos que se vivenciados em nosso subcontinente (a passagem de governos burgueses de contenção a governos de ataque direto ao nível de vida das massas operárias e populares). O declínio de todo o ‘processo’ de governos nacionalistas ou centroesquerdistas e o cenário de lutas e choques abertos entre as classes que se vislumbra no próximo período em países como Brasil e Argentina obriga a esquerda revolucionária a ter um posicionamento e uma intervenção comum. A Fração Trotskista (a corrente internacional à qual pertencemos) tem importantes grupos no Brasil, Chile e México, além de organizações na Bolívia, Uruguai e Venezuela, com a quais podemos trabalhar a concretização desta Conferência para ser realizada em meados deste ano”.

Entretanto, para fazer parte desse chamado, o PSTU deveria abandonar sua política funcional ao golpismo institucional no Brasil.




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