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Fogo bolsonarista e foco imperialista na Amazônia

Ricardo Sanchez

Fogo bolsonarista e foco imperialista na Amazônia

Ricardo Sanchez

A Amazônia arde sob o impacto do agronegócio, sistematicamente incentivado por Bolsonaro. Trump blinda e aplaude seu pupilo tropical. Macron se veste de defensor do meio-ambiente e cospe um renovado colonialismo. A divisão dos interesses imperialistas escancaram diferentes projetos capitalistas para a Amazônia e a renovada importância da região em meio ao acirramento de disputas entre imperialismos e potências.

Imagem: Isabela Rocha

Por um lado, Bolsonaro jogou gasolina nas chamas do agronegócio e da mineração predatória. O resultado é público: devastação ambiental, pessoas mortas, noite às 15h em São Paulo, crise de saúde em Rio Branco, constantemente tomada por fumaça. Desmatando, cria-se da noite para o dia fortunas: centenas de milhões de reais com madeiras ilegais, terras desmatadas podem ser vendidas mais caro, expande-se a área para pastagem e abre-se caminho para que os pastos do Cerrado e da Amazônia Mato-Grossense sejam inteiramente convertidos para a soja e o algodão.

Por outro lado, atendendo a múltiplos interesses, Macron ergueu uma renovada retórica colonialista. Quer um estatuto internacional para a Amazônia, esvaziando a soberania dos países sobre seu território. Faltou citar, mas sua fala repete artigo publicado duas semanas antes na revista americana afinada aos democratas Foreign Policy: “Quem invadirá o Brasil e salvará a Amazônia?”.

Macron escancara interesses comerciais dos agricultores franceses, potenciais perdedores do acordo UE-Mercosul, busca localizar-se politicamente no emergente tema ambiental que gera politização, mobilização e deu muitos votos aos “verdes” na Europa. Mas há outros e profundos interesses imperialistas em jogo. Dedicamos o artigo a entender o lado menos conhecido dos interesses na Amazônia e como essa crise mostra uma mudança de localização da região amazônica e da América do Sul na crescente disputa entre imperialismos e potência em meio à guerra comercial.

Bastidores dos atritos Macron-Bolsonaro

O incidente inicial com Bolsonaro desmarcando reunião com o premiê francês para cortar o cabelo e fazer uma live em insulto da memória do militante assassinado pela ditadura, Santa Cruz, ocorreu exatamente no mesmo dia que Wilbur Ross, chefe da Secretaria de Comércio dos EUA estava no Brasil. Ele veio para começar a negociar um tratado comercial com o gigante do norte. O americano foi à imprensa nacional avisar que o acordo UE-Mercosul complicava para o Brasil o acordo com os EUA, pois haveria, segundo ele, padrões tecnológicos em diversas indústrias que seriam díspares, e o Brasil teria que escolher o padrão americano ou o europeu. Esse tipo de recado americano costuma ser dirigido principalmente à China e avisos das retaliações ao Brasil se optar pelo 5G da chinesa Huawei.

A Alemanha que tem sido uma importante perdedora da Guerra Comercial EUA-China, tem intenso interesse em dispor de um mercado para escoar suas máquinas, seus carros e seus produtos químicos. A relação do Brasil com a Alemanha é amplamente favorável àquele imperialismo. Com o acordo UE-Mercosul, isso pode aumentar muito, por essa razão, Merkel “centralizou” Macron. O avanço das relações com a Alemanha é um potencial para aquele país e ao mesmo tempo do desenvolvimento futuro de uma tripla dependência brasileira (por enquanto há uma dupla: da China e dos EUA).

O fato que já é possível sublinhar é que o Brasil, e por extensão o Mercosul, cujas economias, sobretudo suas indústrias, estão parcialmente atadas a nosso país, configura-se como palco de disputa entre União Europeia (e seus diferentes e conflitantes interesses, com primazia para a Alemanha), EUA e China. E o conflito amazônico mostra a mudança dos ventos colocando o país e a região como alvo de disputa. Potenciais danos ao agronegócio brasileiro, antes um ganhador dos atritos EUA-China, pode começar a configurar o país como um dos perdedores das crescentes tensões.

A Amazônia e dois projetos de saque dos recursos do país

Grosso modo, há dois grandes projetos capitalistas para a Amazônia: um de manejo de suas riquezas biológicas em prol de um “capitalismo verde”, que perpassa a produção de madeira certificada, produtos da região, controle (e não eliminação) de desmatamento, remuneração de créditos de carbono, turismo ecológico, algum nível de autonomia aos povos indígenas e, em meio a tudo isso, gigantescas fortunas em patentes para a indústria farmacêutica e de cosméticos. Uma indústria em que o capital europeu e, particularmente, o francês é preponderante.

Esse projeto toma de barato algum nível importante de desmatamento, desde que seu ritmo seja lento, acordado e submetido a pareceres internacionais. É um projeto que aceita expansão do agronegócio sobre a região, mas exige limites e negociações, garantindo, ao mesmo tempo, extensas reservas indígenas e naturais. Um bom exemplo de como esse projeto naturaliza certo nível de desmatamento pode ser visto na chamada “moratória da soja” implementada pelas traders da soja que se comprometem a não comprar soja de terras que tinham cobertura florestal em 2008.

Qual o resultado? Terras devastadas em 2008, porém usadas para pastagem passam, passam a ser usadas para a soja. E novos desmatamentos são necessários para o gado. A resultante é mensurável não somente com satélites para mostrar desmatamento, mas também nas estatísticas que mostram um aumento gigantesco no rebanho bovino no Pará e em Rondônia – 21 e 14 milhões de cabeças, respectivamente.

Há, ainda, um outro projeto. Um avanço mais qualitativo do agronegócio, de extração de riquezas minerais e hidráulicas da região às custas dessa conservação ambiental e direitos dos povos originários e de populações tradicionais.

O segundo projeto é mais claramente associado a Bolsonaro e aos militares. Nenhum dos dois é um tipo-ideal; há intersecções, mas fica claro como o lulismo esteve atravessado por ambos, com certo predomínio do segundo, como se vê nas catástrofes ambientais promovidas com as mega-hidrelétricas. Mas era uma tentativa de solução de compromisso, de equilibrar ambos os projetos, localizando-os de forma distinta espacialmente. Enquanto no sul amazônico, em Rondônia e Mato Grosso a política predominante era essa “tipo Bolsonaro”, em Roraima e na estratégica região da “Cabeça de Cachorro”, havia relativo predomínio da outra política.

Interesses imperialistas em cada projeto

Há interesses imperialistas distintos que se avolumam em cada um dos projetos. Diferentes empresas e frações imperialistas se preparam para lucrar nos dois lados da moeda.

É assim que se entende que a França é um dos grandes atores mundiais do agronegócio com o banco Crédit Agricole e a gigante Dreyfuss, que a Alemanha e a Noruega, campeãs retóricas do “capitalismo verde”, são também campeãs em vendas de agrotóxicos e fertilizantes através da BayerCropscience e a Yara. O que também é verdade é o que capitalismo europeu tem um predomínio mundial no mercado de fármacos e cosméticos (Roche, Bayer, GlaxoSmithKline, Novartis, L’Oreal, Unilever, para nomear algumas). Para essas gigantes, o manejo de uma Amazônia relativamente verde é a garantia de patentes e lucros intermináveis.

O outro lado da moeda é que Trump é um ativo porta-voz de interesses do petróleo e da mineração americana. E Bolsonaro já tinha deixado claro em Abril que uma diretriz-chave de seu governo era “explorar a região amazônica em parceria com os Estados Unidos”. Referia-se especialmente a minérios em Roraima e ao petróleo. Outra riqueza pouco conhecida da Amazônia são as “terras raras” (umas das razões que motivou Trump a querer comprar a Groenlândia).

Controle de matérias primas em tempo de crescentes disputas imperialistas

Em tempos de disputa comercial entre imperialismos, há renovada importância do controle das matérias-primas. Lênin remarcava que uma das principais tendências do imperialismo passava pelo domínio de matérias-primas. Tendência essa que parecia menos relevante quando predominavam nas relações internacionais a ofensiva neoliberal e a abertura das fronteiras para as mercadorias e capitais. Isso começa a estar em questão quando vemos que cada discussão de “guerra comercial” inclui disputas tecnológicas, mas também do acesso a terras raras.

O revolucionário russo afirmava em Imperialismo, fase superior do capitalismo:

A particularidade fundamental do capitalismo moderno consiste na dominação exercida pelas associações monopolistas dos grandes patrões. Esses monopólios adquirem a máxima solidez quando reúnem nas suas mãos todas as fontes de matérias-primas, e já vimos com que ardor as associações internacionais de capitalistas se esforçam por retirar ao adversário toda a possibilidade de concorrência, por adquirir, por exemplo, as terras que contêm minério de ferro, os jazigos de petróleo, etc. A posse de colônias é a única coisa que garante de maneira completa o êxito do monopólio contra todas as contingências da luta com o adversário, mesmo quando este procura defender-se mediante uma lei que implante o monopólio do Estado. Quanto mais desenvolvido está o capitalismo, quanto mais sensível se toma a insuficiência de matérias-primas, quanto mais dura é a concorrência e a procura de fontes de matérias-primas em todo o mundo, tanto mais encarniçada é a luta pela aquisição de colônias.

Em meio à guerra comercial, não é um tema nada irrelevante nas preocupações imperialistas e das potências o domínio de matérias-primas. O continente sul-americano é particularmente rico nelas e torná-lo sua esfera de influência exclusiva pode ser decisivo lá na frente, daí que estamos diante de movimentos preparatórios.

A China tem hoje um predomínio mundial na exportação de terras raras e tentativa de criar monopólios de seus compostos. Trata-se de minerais cruciais para novas tecnologias, inclusive de armas. Essa é uma arma chinesa na guerra comercial com os EUA, é objeto da retaliação japonesa na sua disputa com a Coreia do Sul. Não à toa, há medidas de Trump para aumentar a produção nos EUA, sua tentativa de compra da Groenlândia, o Japão se prepara para aumentar sua produção desses minerais extraídos da profundezas dos Oceanos e a Austrália também toma medidas para ofertar o item aos EUA.

Bolsonaro fala muito do nióbio. Também não é à toa: 98% das reservas mundiais desse mineral raro importante para produzir “superaço” para satélites e foguetes localizam-se no Brasil e, particularmente, na região da Amazônia conhecida como “Cabeça de Cachorro” e no adjacente Pico da Neblina, atravessando as Fronteiras de Brasil, Colômbia e Venezuela. Ocorre que essas terras nos estados do Amazonas e de Roraima são Terras Indígenas e fonte da gritaria bolsonarista e do Exército, pois não podem ser lavradas. O Exército Brasileiro tem um de seus maiores contingentes nacionais no município onde o nióbio se concentra: São Gabriel da Cachoeira. Há estudos de que a Amazônia e essa região teriam as ainda mais cobiçadas terras raras.

Tanto pela origem social de sua oficialidade, a pequena burguesia rural, quanto pelo seu peso objetivo em toda a Amazônia, os interesses militares na região dizem respeito não a uma suposta defesa da soberania, o que é mais evidentemente falso quando assinam embaixo de todas as privatizações, promovem a inédita cooperação militar com os EUA, apoiam a entrega de território nacional na base aeroespacial na fronteira leste da Amazônia, a base de Alcântara no Maranhão. Para os oficiais do Exército, trata-se de se associar a burgueses ou diretamente se transformarem em proprietários de terras na região. Buscam promover garimpos, ser sócios de empresas junto ao imperialismo, e no flanco sul da Amazônia em ser parte da ofensiva de desmatamento para o agronegócio. Em muitas localidades há fusão dos interesses fundiários, do oficialato e dos caciques políticos locais.

Em todo o norte do Amazonas brasileiro, há pesados interesses de mineração, como também se vê no Amapá e no assassinato de liderança indígena pelo garimpo de ouro – isso sem falar da região de Carajás, responsável por uma grande porcentagem de todo o ferro do mundo.
No arco oeste da Amazônia, da fronteira com o Peru até Marajó, passando por Manaus, há estudos que mostram a possibilidade de conter algumas da principais reservas de shale gas [gás de xisto] do mundo, o que poderia ser obtido usando a monstruosamente poluente técnica de faturamento hidráulico (“fracking”) que gera rios inflamáveis nos EUA e na Austrália, mas levou a barateamento do custo energético no país de Trump. A Agência Nacional de Petróleo diz que essa produção, junto da Bacia de Parecis (entre Mato Grosso e Rondônia) e a do tight oil do Parnaíba poderiam fazer do Brasil uma potência mundial em produção de gás natural. A agência estima que em 2050 o país produziria 156 trilhões de pés cúbicos de gás (ou 5 vezes a produção americana em 2019.

O agronegócio, a Amazônia e suas divisões como reflexo das disputas internacionais

No sul e leste Amazônicos, aumenta a conhecida penetração do agronegócio com suas criminosas queimadas para abrir caminho a pastagens e à soja. Os incêndios na Amazônia revelaram uma divisão no agronegócio que ainda não era visível. A oposição entre os interesses dos monopólios da logística, processamento e comercialização (os “traders”), de um lado, e, de outro, os latifundiários produtores.

Assim, representando os traders, Blairo Maggi, ex-governador do Mato Grosso, proprietário da trader Amaggi atacou duramente a política ambiental de Bolsonaro.
Já a patronal da produção da soja, a Aprosoja – o outro lado –, posicionou-se afirmando que os produtores rurais não produzem esses crimes e declarando apoio a Bolsonaro. Antes disso, a Aprosoja já tinha publicado uma “Carta de Palmas” em resposta à Declaração de Amsterdã, que é um compromisso de diversas multinacionais com o desmatamento zero no Cerrado. A “Carta de Palmas” critica publicamente a americana Cargill, a principal sócia da Amaggi em bilionária ferrovia em construção para escoar soja.

O latifúndio defende o desmatamento legal, ou seja que uma porcentagem de cada latifúndio seja desmatado. Esse programa é publicamente defendido pelo ministro do meio-ambiente Salles e o mais brutal agente do latifúndio no Ministério da Agricultura, o ex-presidente da hiper-reacionária União Democrática Ruralista, Nabhan Garcia. A ministra da Agricultura, Teresa Cristina, tal como a entidade que ela presidia, a Confederação Nacional da Agricultura, tenta costurar os agora divergentes interesses dos latifundiários produtores e dos monopólios. Até no agronegócio o imperialismo convulsiona relações e interesses.

O lugar da Amazônia em disputas estratégicas

Esse panorama de algumas matérias-primas na Amazônia Brasileira colocam outra luz aos posicionamentos dos diferentes imperialismos sobre a região e a crescente presença americana, seja nos exercícios militares conjuntos Brasil-Colômbia-Peru, seja no alinhamento pró-americano da Colômbia, mas também do governo peruano depois da Lava Jato local.

A assinatura do acordo EUA-Brasil entregando um pedaço do Maranhão (com voto favorável do PCdoB na Câmara) ataca interesses comerciais da ArianeSpace (subsidiária da gigante francesa Airbus) e estratégicos da França. Afeta a concorrente base de Kourou na Guiana, que vinha se desenvolvendo como principal local de lançamento comercial de satélites.

A América do Sul, em geral, e a Amazônia, em particular, fazem parte de uma relocalização estratégica dos EUA para fortalecer seu “pátio traseiro”. A partir de sua dominação no hemisfério continuar projetando seu poder global e, assim, preparar-se para a competição com a China. A definição de fazer da China adversária estratégica já vem do pensamento militar americano desde Bush e foi sob Obama que entrou em todos documentos estratégicos que os EUA deveriam efetuar um “pivô à Ásia”. Essa preparação estratégica e conflitos decorrentes continuariam sob um eventual governo democrata. A intenção americana de expandir seu controle sob o Cone Sul passou pela recriação da Quarta Frota e do Comando Militar do Sul, que agora inclui um militar brasileiro em sua estrutura como comprovação da subordinação. Políticas de “guerra híbrida” desenvolveram-se sob Obama, sanções econômicas e outras formas de pressão no continente também se fazem sentir desde antes de Trump. A Lava Jato que convulsionou os regimes políticos do Brasil e do Peru nasceu sob os democratas. A agressiva política de Trump contra a Venezuela contou com apoio democrata até mesmo dos autodeclarados socialistas democráticos Bernie Sanders e Ocasio-Cortez. Guardadas as diferenças entre republicanos e democratas, há uma política do Estado imperialista que atravessa seus governos.

Além disso, a inserção da China e da Rússia na Venezuela ganham luz não somente como algo para frear os EUA, em geral, mas como parte de se localizar melhor diante dessas cruciais reservas de variadas matérias-primas, que incluem a disputa com a Guiana Inglesa pela enorme reserva de petróleo da Guiana Essequiba.

Essa disputa entre diferentes imperialismos e potências, passa, por um lado, pela posse colonial da Guiana pela França, pelas bases americanas na Colômbia e agora no Maranhão, e por outro lado pela base “aeroespacial” chinesa em Neuquén, na Argentina, como parte de toda uma movimentação econômica, mas crescentemente preparatória de cada potência em busca de matérias-primas, influência política e como usar uma região (e países) a serviço de seu acúmulo em um mundo onde a competição se faz mais intensa.

Fora os EUA, a Europa tem alto estoque de capitais investidos na América do Sul e no Brasil, em particular. A tendência à maior disputa interimperialista, coloca cada monopólio e cada imperialismo a atuar na lógica de “farinha pouca, meu pirão primeiro”. Não menos importante, o conflito amazônico perpassa e tem como um de seus panos de fundo a expansão das exportações brasileiras de soja e carne à China. E também a China, tem o Brasil como o quarto maior destino mundial de seus capitais.

O Brasil e a Amazônia tornam-se alvos das mais intensas disputas internacionais, em que o que menos importa é o meio ambiente e os povos.
Fugindo do fogo bolsonarista e seu oxigênio trompista não podemos cair nas armadilhas “globalistas” e hipócritas de Macron e a extensa influência via ONGs e mídia liberal burguesa. Uma resposta de fundo, que leve a um outro metabolismo dos seres humanos consigo mesmos, livrando-se da exploração, bem como dos seres humanos com a natureza só pode ser dada pela classe trabalhadora e um programa anticapitalista e anti-imperialista.

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Ricardo Sanchez

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