Internacional

UM HOMEM DAS EMPRESAS

Fillon: Um Thatcher à francesa?

Recordamos uma trajetória política pouco conhecida, a de uma figura que pouco aparecia e que soube agir como um encarregado a serviço do patrão durante quarenta anos de carreira política.

quinta-feira 24 de novembro| Edição do dia

1981-1993: um encaixe inicial na política local

A carreira política de François Fillon teve seu início graças aoscontatosde sua família. Nascido na região de Sarthe, Fillon vem de uma família muito rica. Antes de cumprir seu desejo de exercer as funções de jornalista, se acomodou sob as asas do deputado de Sarthe, Joël Le Theule, antigo amigo de seus pais, e se transformou em seu assessor parlamentar. Com a morte de Theule, Fillon o substituiu como deputado de Sarthe em 1981, transformando-se, com vinte e seis anos, no deputado mais jovem da Assembleia Nacional. Dois anos mais tarde, conquistou a cidade de Sablé-sur-Sarthe, que viria a ser seu feudo eleitoral.

Durante a década de oitenta e o princípio da década de noventa, Fillon buscou ascensão política no partido “Reagrupamento para a República” (RPR). Entretanto, a ideologia tradicional como ala direita do gaullismo se transformaria em um obstáculo para ele. Seus valores reacionários com relação à questão social na construção europeia não correspondiam com o espírito da burguesia francesa, que, no contexto da restauração neoliberal, devia decidir entre situar-se na era da globalização ou fazer algumas concessões parciais no terreno social, com a possibilidade de alguns conflitos internos. Em 1982, nega-se a legalizar a homossexualidade e vota contra o Pacto Civil de Solidariedade, já em 1989. Em 1992, participou da campanha pelo “não” ao Tratado de Maastricht (Tratado da União Europeia).

1993-2005: a repressão a serviço do patrão

Sua fixação gaullista, excessivamente tradicionalista para uma direita que buscava uma imagem “moderna”, foi o bastante para que lhe fosse negado um cargo no Ministério da Defesa, mas sua influência em Sarthe lhe permitiria provar a intensidade de seus ataques antissociais. Em 1993, nomeado Ministro da Educação, desenvolveu um ataque brutal com base em uma “autonomia” das universidades francesas. Uma medida, ao mesmo tempo retrógrada para a época, e muito prejudicial para os interesses da burguesia francesa, que teve de matizar alguns artigos perante o Tribunal Constitucional.

Contudo, sua reputação como homem de negócios tem sua origem em 1995, quando conseguiu liberalizar e privatizar as telecomunicações e a venda de capitais da estatal “France Télécom”. Uma agressão que assentará as bases de uma vitória para a classe patronal do país e que provocará a famosa onda de suicídios de trabalhadores da empresa durante os anos 2000. A partir desse momento, passa a ser a arma indispensável dos patrões, até que em 2005 se transforma na arma dos governos da direita. Em 2003, é chamado para ocupar a carteira ministerial de Serviços Sociais e Trabalho para flexibilizar a jornada de trinta e cinco horas, reformar parcialmente a Lei de Modernização Social de 2002 e reformar as pensões dos aposentados. Então demonstrou seu “knowhow” [saber fazer] a pesar da mobilização massiva dos trabalhadores, apoiando-se, também, na repressão por parte da burocracia sindical. Por um lado, se voltasse ao governo, sob a recomendação de Nicole Notat, antiga dirigente da Confederação Democrática do Trabalho (CFDT), feita Presidenta Geral, podia “bater com os dentes na quina” [fracassar]. Em abril, diante da paralização de instituições de ensino, cada vez mais numerosas, enviou a Tropa de Choque e declarou: “para cada bloqueio de umainstituição, haverá um desbloqueio”.

Entretanto, há uma rejeição por parte de Jacques Chirac por conta da rejeição dos professores e estudantes, especialmente após sua reforma falida doBaccalauréat [qualificação acadêmica francesa para ingresso à educação superior]. Homem dos bastidores, mais de “saber fazer” que “fazer saber”, segundo ele mesmo, sua figura de exterminador austero e de rigor privativo fez com que se transformasse em uma referência da UMP. Em conflito aberto com Chirac por conta de sua expulsão, declarou: “ao fazer o balanço de Chirac, não nos lembramos de nada, salvo de minhas reformas. [...] Vou investir a fundo na UMP, preparar os futuros investimentos para Nicolas Sarkozy em 2007.No governo, fizeram de mim um diretor de campanha antes da hora”.

2007-2016: a revanche do “colaborador”

Essas diretrizes prévias o transformaram em um dos principais homens dos bastidores na vitória de Sarkozy, um mérito que o presidente reconhece e que lhe permitiu transformar-se em primeiro ministro de seu governo. Entretanto, uma vez mais, a situação muda longe dos meios de comunicação, e Sarkozy o considera “um simples colaborador”. O fato se transforma em uma nova afronta que acaba com a paciência do deputado de Sarthe, e que aumenta sua sede por reconhecimento. Ademais, por trás de sua costumeira aparência, não deseja permanecer ao lado de Sarkozy. Em 2010, confessou sob uma grande pressão midiática haver sido convidado pelo presidente egípcio, Hosni Mubarak, a passar uma semana de férias de Natal com toda a sua família, pagas pelo Estado egípcio.

Desde então, Fillon busca colocar-se à frente do partido. Sua trajetória e disposição revanchista se traduzem em diversos enclaves, como as eleições legislativas de 2012, em que não conseguiu ser candidato no segundo distrito, que poderia impulsioná-lo às eleições da prefeitura de Paris, em 2014. Ao mesmo tempo, tenta recolher as rendas da UMP, mas seu rival, Jean-François Copé consegue impedi-lo sob acusações de encano e calúnias. Por fim, consegue se impor nas primárias da direita no mês de dezembro, o que o coloca na primeira colocação com folga.

Vendo Sarkozy obrigado a votar por seu antigo “colaborador” no segundo turno das primárias, Fillon se encontra em uma busca pela glória e pelo reconhecimento, tendo, para tanto, servido com obediência e disciplina nos bastidores da classe patronal francesa. Mas, por trás desse conflito de orgulho, o objetivo de Fillon se traduz também no retorno de uma direita muito mais tradicional que lembra a direita perdedora das lutas internas entre os anos de 1990 e 2000. Entre os mecanismos de decomposição da democracia burguesa, um setor da classe dominante começou a desenvolver uma estratégia “thatcheriana”, abertamente reacionária, autoritária e que espera impor as contrarreformas. Uma posição encarnada por Fillon no decorrer da campanha das primárias, e também expressada ao longo de sua carreira política.

Eis o currículo de um dos maiores escudeiros e encarregados da classe patronal
francesa e que bastou para fazer esquecer seu status de pequeno burocrata provincial. Frente a ele estará um dos defensores radicais do imperialismo francês, Alain Juppé, para quem o discurso imperialista franco-africano constitui por si só um argumento sagrado para justificar sua candidatura.

Tradução de Eduardo Prachedes




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