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CORONAVÍRUS

Filhas e filhos de empregadas domésticas lançam manifesto pelas vidas de suas mães

Desde o portal Periferia em Movimento, filhas e filhos de empregadas domésticas e diaristas escreveram um Manifesto denunciando a “precariedade e vulnerabilidade” dessas trabalhadoras, bem como a exposição que se encontram tendo que utilizar transportes públicos.

sexta-feira 20 de março| Edição do dia

Casos como o do casal que obrigou a empregada doméstica a ir trabalhar ou então da doméstica que morreu por conta da infecção pelo coronavírus são mostras de como para essas trabalhadoras precarizadas não é possível haver quarentena.

O Manifesto denuncia a exposição ao vírus de todos e todas aquelas que exercem algum tipo de serviço doméstico como jardineiros, caseiros, empregadas domésticas e diaristas. Exigindo a dispensa remunerada imediata de carteira assinada ou informais, e de diaristas, além do adiantamento das férias parcial e ou total e caso a empregada more na casa do empregador que ela não seja exposta a nenhuma situação de risco como ir ao mercado, shopping, farmácias, etc.

Como aparece no Manifesto, são 6,3 milhões de trabalhadores que prestam serviços domésticos. Todos esses profissionais estão economicamente ativos no País. Desses, 1,5 milhão trabalham com carteira assinada. Outros 2,3 milhões de trabalhadores atuam sem carteira assinada e 2,5 milhões são diaristas. Dados alarmosos que escancaram a falta de direitos aos trabalhadores, que sabemos que é o plano de Bolsonaro e Guedes com seus inúmeros ataques para a maioria das mulheres negras que ocupam esses postos.

No manifesto são colocados também relatos das filhas e filhos, como foi o de Yane Mendes, 28 Anos- Totó-Recife PE:

"Mainha é diarista todo dia uma casa diferente, nesta segunda feira quando explodiu o lance do coronavírus meu irmão me manda um zap dizendo que a nossa mãe não queria entrar em casa pois a patroa teria dito a ela que estava com febre e que era para minha mãe ficar atenta. Esse episódio fez mainha tomar um banho de álcool em gel, não por desinformação era por DESESPERO de alguém que ela ama dentro de casa pegar o coronavírus."

Na verdade, casos como esse das empregadas domésticas e diaristas que são obrigadas a trabalhar pelos seus patrões, sendo expostos durante o percurso ao seu trabalho nos transportes públicos ao coronavírus e expondo também seus familiares em casa, deixa escancarado os limites da quarenta e do isolamento domiciliar que é a principal forma que os governantes encontram para conter o alastramento do vírus.

Se faz necessário a massificação de testes para as empregadas e diaristas, seus familiares e também para os empregadores, para saber se elas puderam ter sido contaminadas em seu ambiente de trabalho e se seus empregadores são ou não vetores de transmissão do vírus. Em segundo lugar, é um absurdo que se mantenha empregadas domésticas trabalhando em pleno surto do coronavírus, em sua maioria mulheres negras que moram em áreas periféricas da cidade não podem de forma alguma estar expostas a contaminação e ser um vetor de transmissão da doença.

Já denunciamos aqui que em diversos lugares falta água, não tem o mínimo de saneamento básico, quem dirá álcool em gel e máscaras disponíveis para conterem a disseminação do coronavírus.

Veja mais: 8 medidas de urgência para combater o coronavírus nas favelas e periferias

Não podemos nos esquecer também que estamos falando de governantes extremamente racistas que pouco importam com as condições de trabalho e a vida de mulheres negras, não à toa o Manifesto critica a precariedade do trabalho doméstico sob essa perspectiva: “Há anos nossas mães, avós, tias e primas dedicam suas vidas a outras famílias somos todas (os) afetadas (os) por essa ‘relação trabalhista’ de retrocesso e modos escravista.”

A medida que aprofunda a pandemia do coronavírus que vem deixando seus primeiros mortos no Brasil, também se aprofunda o racismo estrutural, pois não apenas os capitalistas se mostram ineficazes para combater o alastramento do vírus, mas também que a vida dos negros, sobretudo das mulheres negras, não valem de nada e elas desde já vão pagando por uma crise que de longe não foram elas que começaram.

A liberação dessas trabalhadoras com todos os direitos é o mínimo que pode ser feito frente à situação alarmosa do coronavírus. Sabemos que os patrões só pensarão no seu bem estar, mas agora é a hora dos trabalhadores tomarem a frente da situação para dar uma saída que busque de fato salvar a vida da maioria.




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