Opinião

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Fidel e minha história política

Entrei na vida política admirando a Cuba socialista e seus líderes, Fidel e Che. Abraçamos a causa da luta pela revolução mundial e uma sociedade sem explorados e exploradores, admirando sentimentalmente o processo cubano.

terça-feira 29 de novembro| Edição do dia

Tinha acontecido a revolução nicaraguense em 1979. Nós que despertávamos para a vida política na mais terna adolescência, pensávamos e desejávamos que a Nicarágua fosse outra Cuba. Mas Fidel recomendou, sugeriu, levantou que de nenhuma maneira os sandistas deveriam seguir o caminho da expropriação da burguesia. Primeira grande decepção e começo de uma delimitação política. O mesmo aconteceu com as guerrilhas da FMLN de El Salvador, que eu também admirava, mas que tinham um programa reformista que, como diziam os trotskistas com os quais eu conversava, terminaram totalmente assimilados ao Estado e ao regime burguês. A valentia de dezenas de milhares que entregaram suas vidas para derrotar a burguesia, se entregava em uma mesa de negociações das que o povo trabalhador não conseguia nada.

Logo, as leituras me levaram a ver como foi o processo revolucionário em Cuba. As discussões entre Che e Fidel sobre a industrialização ou não da ilha. A opção de Fidel por abraçar os burocratas da então URSS, mantendo Cuba como um país essencialmente cultivador da cana de açúcar. A decisão de Che de dar sua vida pela revolução aonde fosse, na África e na América Latina (um dois, três Vietnãs), algo que me tomava como um todo, embora com uma estratégia foquista que vai contra a auto-organização das massas exploradas e oprimidas. Logo Fidel apoia a invasão de tanques russos para sufocar o grande levantamento operário e popular na Checoslováquia: a “Primavera de Praga”.

Entre 1985 e 1986 se faz uma conferencia latino-americana das juventudes políticas em Havana. Meu irmão mais velho viajou. Com ele tínhamos um grande acordo desde o princípio dos anos 1980: o não pagamento da dívida externa. Traz vários livros e em um deles, conversas com Fidel, o Comandante defende que deveria se pagar a dívida. Já não era uma decepção, mas sim uma confirmação de uma orientação burocrática seguidista das burguesias latino-americanas (eu já me considerava trotskista e militava no velho MAS).

Cai a URSS e o povo cubano passa a sofrer a pior década de sua história (o “período especial”) pagando por ser um país monocultor, cercado criminosamente pelo imperialismo ianque. Padura em seu livro “O homem que amava os cachorros”, faz uma crônica austera sobre os cortes de luz diárias, a falta de elementos de higiene e uma alimentação básica e elementar. O povo cubano, uma vez mais, bancou o réu.

Hoje Bergoglio e Obama avançaram muito em amplificar a plataforma econômica, social e política para avançar a restauração capitalista na querida Cuba, com o aval de Raúl e toda a cúpula do PC cubano.

Os únicos que temos um programa e uma orientação para defender as conquistas da revolução somos os trotskistas, doa a quem doer. Mas paradoxalmente, enquanto as igrejas avançam por todos os bairros de Havana, Santiago e as principais cidades da ilha, enquanto a embaixada ianque pode voltar a abrir suas portas, o trotskismo é totalmente ilegal e proibido em Cuba.

Hoje estou comovido. A morte dói. Não tenho nada a festejar, como tem o troglodita Trump e os gusanos de Miami.

Aqueles partidários de Fidel que amam a revolução devem entender que é de vida ou morte levantar um programa contra a restauração capitalista e a burocracia privilegiada, pela defesa das conquistas da revolução, pela autodeterminação e liberdade de tendências políticas para os operários e camponeses cubanos.

VIVA A REVOLUÇÃO CUBANA!

“Aprendemos a querer-te, desde a histórica altura, onde o sol de tua bravura, o pôs perto da morte”.




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