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#FeesMustFall2016: retorna a luta dos estudantes sul-africanos pela educação gratuita

O anúncio do aumento das taxas de matrícula universitária, despertou novamente o movimento estudantil. Os estudantes reivindicam a gratuidade da educação universitária.

quarta-feira 21 de setembro| Edição do dia

Quando nesta segunda feira o Ministro de Educação sul-africano, Blade Nzimande, anunciou o possível aumento nas taxas de matrícula universitária se acendeu, novamente, as chamas da rebelião estudantil. Nzimande autorizou às universidades do país a aumentar em até 8 por cento as taxas que pagam os estudantes, apresentando o incremento como uma ação oficial para evitar o aumento abusivo. Mas os estudantes que vem reclamando que “ as taxas devem cair” (#FessMustFall é o lema do movimento) veem as explicações do ministro, seguidas de um anúncio sobre o plano de ajuda para os estudantes com menos recursos, como uma nova recusa por parte do governo à demanda dos estudantes por uma educação gratuita.

Após poucas horas do anúncio sobre os aumentos, os protestos estudantis que se mantinham latentes, produto da perseguição, sanções e inclusive repressão aos ativistas nas universidades, voltaram a explodir. Ocupações de campi, instalações universitárias, além de cortes de ruas e outros acessos às mesmas, ocorreram nas principais instituições do país.

Os estudantes da Universidade de Cidade do Cabo, de Witwatersrand, de Pretoria, de KwaZulu-Natal, de Free State, de Stellenbosch, da Nelson Mandela Metropolitan University, da Tecnológica de Tshwane, e da Universidade do Noroeste se manifestaram esta terça feira.

Na Universidade de Witwatersrand de Johannesburgo, um dos epicentros das mobilizações, 31 estudantes foram detidos enquanto tentavam cortar os acessos ao campus principal e a Polícia dispersou outro grupo que interrompia o tráfego com balas de borracha.

#FeesMustFalll e a demanda pela educação gratuita

As assembleias e conselhos de estudantes das universidades pedem que seja suspensa o aumento sobre as matrículas para 2017, até que o governo declare gratuito o ensino superior. Os estudantes asseguram que não permitirão que se retomem as aulas até que o ministro revogue pelo segundo ano consecutivo o aumento das taxas.

Ao fim de 2015, a maior onda de protestos estudantis desde a queda do Apartheid, levou o Governo a abandonar seu plano de incrementar as taxas universitárias em 6 por cento.

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Com esse antecedente ainda latente, o Ministério da Educação e os reitores de várias universidades já advertiram do risco de falência se não sejam incrementadas as taxas ou o Governo injeta mais dinheiro para arcar. A advertência, é claro, atua como uma chantagem contra o protesto dos estudantes buscando lhes opor aos docentes, trabalhadores das universidades e estudantes que vejam ameaçada a continuidade de suas carreiras. Mas o forte começo dos protestos parece indicar que não será fácil para o governo contornar os protestos.

Uma juventude que se levanta contra a herança do Apartheid

O movimento estudantil sul-africano não reivindica apenas o acesso gratuito às universidades, a campanha e mobilização por #RhodesMustFall (“Rhodes deve cair”), uma campanha para retirar uma estátua de Cecil John Rhodes (empresário colonialista e grande defensor do imperialismo britânico) da explanada da Universidade de Cidade do Cabo (UCT), uma das mais prestigiadas da África do Sul. O movimento que estendeu a outras universidades representou a batalha contra o que os estudantes veem como continuidade do Apartheid nas universidades, em especial as grandes diferenças de acesso e possibilidade de continuar seus estudos que seguem sendo muito demarcadas entre estudantes brancos e negros.

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Esta luta da juventude contra a desigualdade e o racismo que, a mais de duas décadas da queda do Apartheid, continuam na África do Sul não ocorre apenas nas universidades. No começo deste mês de setembro, o protesto de uma jovem negra de 13 anos despertou um movimento contra os regulamentos racistas nas escolas de ensino médio em várias regiões do país.

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Décadas atrás o CNA, liderado por Mandela, evitou a queda do regime colonialista pela mobilização. Suas promessas de uma república multirracial e da igualdade social e econômica entre brancos e negros após a queda do Apartheid se desvanecem ante a discriminação e desigualdades que dia a dia vivem milhões de negros na África do Sul. As ações dos estudantes são a expressão de uma insatisfação muito mais ampla com respeito a política do governo da CNA que longe de conseguir direitos iguais para todos, beneficiou somente a uma pequena elite negra que atua como gerente dos negócios das multinacionais.




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