NOTAS SOBRE A FEBRE AMARELA n.2

Febre amarela: o empoderamento do mosquito e os três erros estratégicos do governo

Gilson Dantas

Brasília

quarta-feira 24 de janeiro| Edição do dia

Suponhamos que você foi picado pelo mosquito portador do vírus da febre amarela. O que vem a seguir?

Durante 3 a 4 dias, você não apresentará sintoma algum; pode ser que até se desloque de um estado para o outro, do campo para a cidade ou fique na mesma cidade; mais eis que no quarto ou até quinto dia você se sente desconfortável: aparece aquela febre não muito forte, dores musculares, dores nas costas, enjoo, náusea, vômitos, enfim sintomas genéricos de qualquer quadro gripal. provavelmente aparecem fraqueza e calafrios.

Só que no seu caso não era uma gripe e sim o início de um quadro clínico de infecção pelo vírus da febre amarela.

Neste caso, você terá uma melhora, durante 1-2 dias, pensará que se recuperou da “gripe” e aí – em 20% dos infectados pelo vírus – vem a piora brutal: voltam todos aqueles sintomas iniciais, agora acompanhados de ataque ao fígado [hepatite], isto é, aparece a cor amarelada [icterícia] na pele e no branco do olho; insuficiência renal, também hepática e hemorragias [nesta etapa você deve evitar a aspirina: ela poderá piorar a hemorragia].

Uma vez instalada esta forma grave da febre amarela [o que se dá, usualmente, como foi dito, em apenas 1/5 do total das pessoas infectadas por aquele vírus], teremos um alto risco de morte. Não há tratamento, apenas se procura combater os sintomas.

Metade dos que evoluem para a forma grave podem morrer. Vai depender, novamente, aqui e sempre, da resistência biológica pessoal, sempre vinculada ao status nutricional, hepático e tireoidiano da pessoa.

Isso se for febre amarela, que é apenas uma das “doenças do mosquito”.
Na verdade, graças à falta de política do governo em termos de saúde pública, de atenção primária e, sobretudo, ao mau estado nutricional e imunológico de boa parte das pessoas – os mais pobres seguramente -, muita gente vem morrendo, de uma morte desnecessária, com as “doenças do mosquito”.

Dessas “doenças negligenciadas”, as autoridades governamentais não gostam de falar muito. São doenças que, de conjunto, nunca são prioridade e que continuam, se reunimos todas elas, crescendo; o que sugere um "empoderamento" do mosquito, um inseto cada vez mais à vontade para atacar a classe trabalhadora e seus familiares provocando mortes todo o tempo, como se fosse uma roleta russa.

Portanto não se trata apenas da febre amarela, que em 2017 provocou dezenas de mortes em quase mil casos contabilizados, segundo dados oficiais.

Mas existem as demais doenças: a verdade é que você pode ser picado por um mosquito, no campo ou na cidade, e desenvolver todo um leque de doenças. Todas elas invisibilizadas ou negligenciadas pelo Estado burguês; são as “doenças que não contam” e que estão aí, a cada ano, todos os anos, matando livremente milhares e milhares de brasileiros, em sua esmagadora maioria pobres, explorados e, de alguma forma, subnutridos, em condição forçosa de risco imunológico.

Algumas dão manchete, outras não.

Vejamos algumas dessas “doenças do mosquito”, lembrando que muitas delas estão “ressurgindo”, ao mesmo tempo em que outras são emergentes e massivas [como a dengue, a zica, a chicugunha].

Por exemplo, a malfadada malária, transmitida pelo mosquito Anopheles: ele pica e injeta um protozoário na nossa corrente sanguínea, o Plasmodium. Tivemos mais de 10 mil mortos entre 2011-2012, no Brasil. E mais de 154 mil casos só na metade dos anos 1990, grande maioria na região norte, mas também no nordeste. As vítimas em sua maioria pobres, de regiões empobrecidas. Na década dos 1970 chegamos a meio milhão de casos de malária, por ano. Menos que antes, mas ela continua matando atualmente, e, sobretudo continua havendo potencial para novos surtos.

Temos o outro mosquito, silvestre, que passa pelo cão, e também é vetor de uma doença gravíssima e que atinge entre 2 a 4 mil pessoas por ano com 200 mortes a depender do ano. É a leishmaniose visceral, chamada de Calazar, que está entrando em grandes capitais. Grave – e promovendo dezenas de milhares de mortes no mundo por ano – ela provoca apatia, perda de peso, febre e anemia. Também esse mosquito depende de focos de degradação urbana para procriar. Nunca será demais ressaltar: uma cidade limpa, esgoto tratado, água pluvial drenada, água fluvial limpa, zero água parada, uma cidade assim não permite que o mosquito se estabeleça, aliás, nenhum mosquito...

[Não falaremos aqui de outras doenças transmissíveis – igualmente negligenciadas porque atingem amplamente aos pobres – , doenças que não chegam pelo mosquito mas que estão sempre presentes e/ou aumentando, como a hepatite, a tuberculose; e no caso desta, com os medicamentos cada vez fazendo menos efeito e o tratamento mais demorado]. Todas elas, a hanseníase, a doença de Chagas e outras, todas seguem matando brasileiros, e nenhuma delas é prioridade da pesquisa científica. Muito menos da big pharma].

Se voltarmos à febre amarela, o mesmo mosquito também é vetor de transmissão da dengue hemorrágica [1,5 milhão de casos de dengue em 2015], da zica [cujos grandes surtos datam de 2014, junto com a chicugunha, esta a doença que dá fortes dores nas articulações por meses e possui sua forma hemorrágica como a dengue].

O mosquito não para por aí.

Há outras doenças transmitidas por ele e, apenas como exemplo, podemos citar a encefalite St Louis, o rocio e o oropouche e que podem ser confundidas com a dengue. Transmitidas dentre outros, pelo mesmo Aedes e também pelo Culex.

Para nenhuma delas o governo possui kit laboratorial de diagnóstico rápido.
E qualquer uma delas tem potencial para virar uma epidemia.

Todas elas, como foi mencionado na primeira nota, antes de serem “doenças do mosquito” são doenças da degradação urbana, ambiental, da água não tratada, dos esgotos idem e da concepção, bem típica dos capitalistas brasileiros e suas autoridades de Estado, de tratar os rios como latrinas e depósito de todo tipo de dejeto. E claro: também derivam da não solução do problema habitacional no país das favelas [15% da população vive em favelas]; e da má alimentação.
E o governo só fala em vacina.

Vacina que tem riscos ao ponto de sequer poder ser usada em crianças de menos de nove meses, gestantes de uma maneira geral, por quem usa corticoide, por quem faz tratamento de câncer [ou apenas tem câncer], por pacientes com transplante de órgãos, alérgicos a ovo, por pessoas com artrite reumatoide, lúpus e doenças autoimunes em geral, além de idosos e pessoas com baixa imunidade [HIV é apenas um exemplo]. Ou seja, sem uma imunidade própria razoável a vacina traz seus riscos.

Por isso há quem argumente que é muito cômodo o governo e seus ideólogos reduzirem o debate à vacina e, dessa forma, deixam intocada a pauta social que é a “mãe de todos os problemas”, o elemento que efetivamente empodera o mosquito. Junto com a falta de investimento estatal sério para oferecer exames de rápido diagnóstico de cada uma dessas doenças e também de repelentes e larvicidas biológicos eficientes e universalmente distribuídos, além de cortinados e telas antimosquito. Uma prioridade elementar imediata seria não deixar o mosquito picar. O dano posterior pode ser irreversível como no caso do óbito, mas também da microcefalia.

Na prática, o que termina acontecendo é que com sua impotência e seu discurso reduzido à vacina - que não é inocente- , o governo empodera o mosquito cada dia mais. E na direção de várias doenças, como foi acima citado.

[Sim, o desmatamento desordenado e ilimitado, o aquecimento global do planeta – massivamente promovido pelas grandes corporações capitalistas – e a circulação global de pessoas, tudo isso tem a ver com a maior eclosão e circulação dos mosquitos; afora outros vírus e bactérias, como a da cólera etc, que também circulam por outras vias, mas não são nosso tema aqui.

Mas no que aqui nos interessa o governo é decisivamente a mão que balança o mosquito.

Por que? Por conta dos seus três erros estratégicos básicos.

O primeiro deles foi citado, ele não impede a picada do mosquito: não toma medidas sequer as mais elementares, em escala de massa, para impedir que o mosquito pique nosso povo.

Não passa pela cabeça das autoridades sanitárias, seriamente, tampouco, a pesquisa e distribuição gratuita e para cada família trabalhadora de larvicidas e repelentes biológicos. Nunca. E são produtos hoje caros para a família trabalhadora.

Mesmo com a absurda e monótona repetição anual de surtos de pragas transmitidas pelos mosquitos [bem piores quando chega a estação chuvosa e quente], de mortes, o governo não distribui, massivamente, nem repelentes, nem telas antimosquito, nem cortinados impregnados de repelente biológico, meiões e camisas de manga comprida e assim por diante para a população em zonas de risco. Nem contrata brigadas de jovens no próprio bairro para ir de casa em casa, não para lançar o veneno do “fumacê”, mas para orientar as pessoas e cuidar diretamente de cada foco pontual de água parada.

O segundo erro estratégico: o governo não tem política para desterrar o mosquito das cidades, leia-se, para acabar com as sumamente conhecidas zonas de degradação urbana, ambiental, garantir habitação decente para os trabalhadores e tratar água, esgoto e rios; e garantir que os rios e lagoas jamais recebam dejeto de tipo algum [portanto, que rios e lagoas voltem a ser rios e lagoas]; além, dentre outras medidas ambientais como a de assegurar total proteção das nascentes e mananciais, estatizando-as, construindo reservas florestais por ali.

Finalmente: pleno emprego e o salário mínimo do DIEESE – lado a lado com restaurantes públicos baratos em todo lado – para que cada brasileiro possa consumir diariamente ovos, leite, queijo, carnes e frutos do mar de qualidade. Isto é, passe a ter resistência biológica a qualquer vírus, como ocorria com os macacos na selva virgem, sem estresse dos grileiros e afins, com a mata rica em frutas alimentos próprios para os macacos e tudo o mais: macacos eram picados mas não morriam, eles simplesmente desenvolviam resistência ao vírus...

Somente com medidas daquele tipo, que nossa classe dominante jamais tomou nem é possível imaginar que venha a tomar, e que devem ser tomadas pela classe trabalhadora e seus organismos - finalmente desbancando politicamente essa república dos ricos -, somente por essa via se poderia fazer com que o mosquito voltasse à sua insignificância, do ponto de vista da saúde pública, lá dentro das reservas florestais.




Tópicos relacionados

febre amarela   /    medicina do capital   /    Saúde

Comentários

Comentar