NOTAS SOBRE A FEBRE AMARELA

Febre amarela: a estratégia do mosquito e a capitulação do governo

Gilson Dantas

Brasília

sábado 20 de janeiro| Edição do dia

As mortes pelo vírus da febre amarela não param de acontecer, em um total de 20 só em Minas Gerais, contando desde dezembro do ano passado também estão surgindo mortes pela vacina e já há várias zonas de emergência por conta da doença.

Especialistas já falam abertamente que o risco de um surto urbano da febre amarela é alto e argumentam que o surpreendente em tudo isso é que ele ainda não tenha ocorrido, especialmente considerando a circulação das pessoas da zona silvestre e de ecoturismo para as cidades e também a presença do mosquito em todas as grandes cidades e quase todas as pequenas no Brasil [o Aedes aegypti].

Um estudioso do assunto – o epidemiologista da USP, E. Massad – declarou em entrevista ao IHU online, dia 12 deste mês, que “ainda é um desafio entender como a febre amarela não voltou para os centros urbanos, já que temos um grande número de pessoas que vão a áreas endêmicas para turismo ou a trabalho e voltam para cidades infestadas de Aedes aegypti”.

A estratégia de sobrevivência dos mosquitos é muito clara e ofensiva: [ao menos na região centro-sul e sudeste]: o seu habitat das matas foi sendo reduzido – e com isso também a população de macacos – e forçados por um mecanismo imperioso de sobrevivência – via seleção biológica – vão se adaptando às cidades e ao sangue dos humanos.

Naturalmente os mosquitos - como parte essencial de sua estratégia de sobrevivência – necessitam de ter onde por seus ovos e que estes tenham condições de virar larvas. Nem toda cidade garante isso. O mosquito jamais se adaptaria a qualquer cidade que não lhe ofereça condições favoráveis. Biologicamente falando, sua estratégia fracassaria diante de uma cidade que não contasse com condições pró-mosquito, com focos para sua reprodução; portanto, com zonas de degradação urbana, do ambiente urbano.

É neste ponto que os sucessivos governos brasileiros estão abrindo portas e mais portas para o mosquito, aliás, para o mesmo mosquito que transmite aquelas quatro pragas: zica, dengue, chicugunha e febre amarela. E certamente para outros, a exemplo do mosquito da malária [Anopheles].

Para que a estratégia do mosquito seja bem sucedida, ela precisa, portanto, contar com a capitulação do governo diante do que seria seu dever: proteger a população, os humanos, impedir a degradação urbana.

E justamente o governo federal – lado a lado com os governos estaduais e prefeitos – tem agido de tal forma que, no final de contas, sua política termina sendo muitíssimo mais em prol do mosquito e sua estratégia, do que da preservação da população. A prova disso é que as mortes continuam aumentando [em MG, SP etc] e o mosquito já se adaptou a quase 100% das cidades brasileiras. Há muito tempo estamos literalmente “dormindo com o inimigo”. Ou, nas palavras do pesquisador da UFPE, Carlos Brito, “se em 30 anos de dengue batemos recordes de números de casos em 2015 e 2016, não é porque a população brasileira cresceu. Isso mostra que perdemos o controle do mosquito”[IHU online de 12/1/18].

E os governos capitulam precisamente nos quatro pontos em que dos quais o mosquito depende para se urbanizar e para nos atacar.
Vejamos.

São conhecidos e são estudados em toda escola de saúde pública e de medicina: política de águas, políticas de lixos e dejetos urbanos, política de esgoto e seu tratamento e política das águas pluviais e seu escoamento.

Em todos esses itens essa república dos ricos tem capitulado: o resultado está aí à vista, com as crescentes explosões de zica, de dengue e de chicugunha. E agora também de febre amarela. Comecemos pelos dejetos urbanos: quem não sabe que os lixões ou terrenos baldios com entulho se acumulam em vários pontos de cada cidade? Quem não sabe que o saneamento básico – seja pela oferta de água potável, seja pelo adequado escoamento dos esgotos – não funciona para grande parte dos brasileiros?

Quem não sabe que, de parte do governo, a concepção de rio, de riacho e vias de água nas nossas capitais é puramente de cloaca, de local para despejo de todo tipo de lixo, começando pelos esgotos e lixos industriais? Nossos governos não tratam o rio como rio, mas como depósito de todo tipo de dejeto. E a exploração da classe trabalhadora pelos donos das empresas garante que os ricos fiquem em sua zona de conforto e a família trabalhadora nas mãos de todas as pragas urbanas, da degradação urbana, a começar da mãe de todas elas: a elite burguesa que enriquece com nosso trabalho e vive de costas para a saúde pública.

Ora, o mosquito necessita dessas zonas de degradação urbana, necessita invariavelmente de água parada ou até de esgoto não-tratado para se reproduzir. E isso o governo tem garantido, aliás todos esses governos que - um após o outro - representam o Estado dos opressores, da patronal.

E, no final, depois de permitir áreas degradadas próprias para criadouro de mosquitos, depois de desterrar a classe trabalhadora para zonas distantes do seu emprego, para zonas sem saneamento, as próprias autoridades acusam a população de ter um vaso de planta ou um pneu com mosquitos no seu quintal. Com isso procuram encobrir sua impotência em termos de políticas públicas, de falta de saneamento e do bom manejo de dejetos e águas. Mas mesmo aquele pneu no quintal reflete uma falta de atenção do governo: por que não contratar brigadas de jovens no próprio bairro, com salário decente, para funcionarem como agentes comunitários, de casa em casa, ajudando a debelar aqueles focos pontuais de mosquitos?

Primeiro, portanto, o governo dos ricos não promove uma real política anti-mosquito e, em seguida vem com o veneno [o “fumacê”] e também com as vacinas para tapar a discussão de fundo que vem a ser a própria prostração do governo, sempre a serviço do grande capital e, ironicamente, do mosquito.

É absolutamente necessário de parte do movimento sindical e de bairro se levantar contra essa ordem que termina sendo funcional para o vetor [o mosquito] e causa de tanta morte de inocentes e lutar para tratar de colocar de pé um SUS realmente universal, gratuito, totalmente estatal e sob controle dos funcionários e usuários; e garantir, através do Estado, a produção massiva e gratuita de larvicidas, repelentes biológicos, cortinados impregnados de repelentes biológicos, e telas de proteção para toda a população trabalhadora. Sempre lembrando que tais doenças atacam mais aqueles de mais baixa resistência biológica, o que tem tudo a ver com uma nutrição mais vulnerável.

Somente a força das massas mobilizadas pode reverter esse quadro desastroso, com um programa de ocupação de toda casa e cada edifício vazio, saneamento básico e decente para toda família trabalhadora, nenhuma água nenhum esgoto lançado em córrego ou lagoa, habitação decente imediata para quem more em zona de risco, toda água e esgoto tratados e, finalmente, restaurantes coletivos e gratuitos por todo lado assegurando – com ovos, queijo, carnes, frutos do mar etc - a resistência biológica dos mais vulneráveis contra aquelas doenças.

Somente a classe trabalhadora pode liquidar com a estratégia do mosquito e devolvê-lo para o seu devido lugar.




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