FAVELAS E CORONAVÍRUS

Favelas de São Paulo criam estratégias de combate a Covid-19: uma resposta ao descaso dos governos

Paraisópolis, na Zona Sul de São Paulo, transforma escolas em casas de apoio e vizinhos em monitores para tentar combater o vírus na comunidade.

quinta-feira 16 de abril| Edição do dia

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O Comitê da Favela de Paraisópolis, criado para conter as consequências da pandemia da comunidade, desde março tenta combater a crise na região. A primeira iniciativa foi a implementação do “Presidente da Rua”, que designa o cargo a um morador voluntário a cada 50 casas, que vai ficar responsável por coordenar doações, acompanhar, conscientizar e informar aquelas famílias. Outra estratégia, que deve estar funcionando até quinta-feira, é a criação de Centros de Apoio na favela.

Os centros de acolhimento e isolamento foram montados em duas escolas, que não estão em funcionamento devido a suspensão das aulas, e contará com uma infraestrutura de abrigo com acesso especial a cuidados necessários para os moradores diagnosticados com o COVID-19, em especial aqueles que vivem com grupos de risco. Três ambulâncias e uma equipe de médicos, enfermeiros e cuidadores foi contratada para dar suporte às estruturas que estarão disponíveis 24h.

O líder da comunidade, Gilson Rodrigues, conta que as casas foram montadas com o dinheiro de doações e tem capacidade para até 260 pessoas cada, número que infelizmente pode vir a ser insuficiente, mas o plano é surgirem mais. Segundo Gilson, a iniciativa tenta suprir a falta de um hospital na região, que conta com cerca de 100 mil habitantes, onde, inclusive, muitas vezes o próprio SAMU se recusa a entrar. Ressalta ainda a falta de política para as favelas durante essa crise, ao contrário dos bancos, shoppings e interesses dos capitalistas.

A maior favela de São Paulo também tenta fugir do vírus: Heliópolis produz máscaras para os moradores

Na favela de Heliópolis, também na Zona Sul de SP, 64 costureiras da comunidade começaram a produzir máscaras para os moradores da comunidade com a intenção de conter o contágio. A iniciativa parte da Unas (União de Núcleos, Associações dos Moradores de Heliópolis e Região) em conjunto do Movimento Heróis Usam Máscaras, movimento impulsionado por bancos privados e com o apoio do Instituto BEI e do Centro Paula Souza. As costureiras são divididas em uma carreta especial de produção na Etec Heliópolis e em diversas casas pelo regime home office. Essas trabalhadoras recebem R$ 100 por dia pelo trabalho e uma meta de 48 máscaras por dia cada uma.

Outras ações também estão sendo implementadas na maior favela da cidade, principalmente pela Associação Ação Comunitária Nova Heliópolis, como a distribuição de kits, cestas básicas, alertas por carros de som, e foi até fechado o "Baile do Helipa", um dos mais famosos bailes funk de São Paulo.

As iniciativas, de certa forma, são importantes exemplos ao demonstrarem o potencial da organização da população e dos trabalhadores, mas também não podem tirar a responsabilidade dos governantes. A resposta para a pandemia não é individual. O monitoramento e acolhimento dos casos suspeitos e demais não deveriam ser responsabilidade de um voluntário sem treinamento, tão como as pessoas infectadas e grupos de risco deveriam ter uma maior estrutura, mas é de conhecimento geral também como é a realidade nas favelas e como é sempre o corpo do trabalhador, do negro e do favelado que mais sofre quando a crise chega no seu ápice. A crise não é novidade para os brasileiros, mas a pandemia escancara ainda mais como as vidas dos mais pobres não valem nada para os capitalistas e governantes, que só se preocupam com seus lucros e bolsos.

É imprescindível que hajam testes massivos para os casos suspeitos e trabalhadores da saúde para que haja uma quarentena eficaz, suporte sanitário e estrutural para os moradores, e é necessário que as políticas contra o novo COVID-19 cheguem nas favelas!




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