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GOVERNADORES DO PT

Fátima Bezerra (PT) apoia novo ministro de Bolsonaro, oligarca do RN e genro de Silvio Santos

A governadora do estado do Rio Grande do Norte parabenizou em um tweet a posse de Fábio Faria, deputado federal pelo PSD, ao assumir o cargo do novo Ministério das Comunicações do governo Bolsonaro. Além de casado com uma das filhas do dono da SBT, Sílvio Santos, os Faria são uma das principais oligarquias do Rio Grande do Norte. O apoio de Fátima a sua posse explicita também a política dos governadores do PT, que apostam na estabilização do governo Bolsonaro para favorecer seus interesses regionais em acordo com o governo central.

quinta-feira 18 de junho| Edição do dia

A recriação do Ministério de Comunicação, foi uma jogada do governo Bolsonaro, orquestrada pelos militares do seu governo, para aproximar setores do Centrão aos seus interesses.

Sujeitam a Secom (Secretaria Especial de Comunicação do Governo, sede do chamado gabinete do ódio, chefiado por Fábio Wajngarten) ao comando de um político vindo do Centrão, Fábio Faria do PSD-RN, inclusive amigo de Rodrigo Maia, alvo de inúmeros conflitos com Bolsonaro.

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O objetivo dos militares é de trabalhar pela estabilidade do governo, garantindo uma base no Congresso para aprovação de projetos, e especialmente para travar qualquer pedido de impeachment que passe pelo Legislativo. Fazem isso usando da velha política de loteamento de cargos ministeriais, recuando na promessa de Bolsonaro de redução do número de ministérios. Ao mesmo tempo, com o afastamento do general Rego Barros da porta-voz do governo, buscavam também evitar a identificação dos generais da ativa com Bolsonaro, mostrando que não estão completamente alinhados com seu governo

Como apontamos nesse artigo, sendo Fábio esposo de Patrícia Abravanel, uma das filhas de Sílvio Santos, essa nomeação pode querer expressar um sinal de Bolsonaro para o setor de comunicação de que estaria disposto a estabelecer articulações para além do canal SBT. Lembrando que Sílvio Santos é abertamente bolsonarista, já realizou parcerias para fazer propaganda a favor da reforma da previdência e recusou a transmitir o vídeo da reunião ministerial de 23 de maio.

Diante desse panorama por trás da nomeação de Fábio, chama a atenção que a governadora do Rio Grande do Norte, Fátima Bezerra do PT, tenha louvado a sua posse no seu Twitter.

Um tweet que diz algumas coisas sobre a política dos governadores do PT e de Fátima em particular.

Começando pela governadora, ela faz um aceno favorável à colaboração de um dos herdeiros de uma das maiores oligarquias do seu estado, os Faria. Seu pai, último governador do Rio Grande do Norte, Robinson Faria, comanda a sigla do PSD no estado, uma das que saiu do Arena pós-ditadura. Fábio Farias foi um dos principais deputados do Rio Grande do Norte a apoiarem o golpe institucional contra Dilma em 2016.

São donos desde 1997 da Agreste Comunicações Ltda., que controla canais de rádio e televisão no semiárido potiguar. Declarou ao TSE nas últimas eleições um patrimônio de R$ 10,59 milhões e possuir catorze propriedades rurais, 330 cabeças bovinas, dono da empresa Cial S/A Com. e Ind de Alimentos.

Sua família cresceu patrimônio com a política. Em 1998 o patrimônio de Robinson era de R$ 697 mil e saltou para os atuais R$ 10,59 milhões em 2018. O de Fábio, seu filho, de R$ 260 mil em 2006, quando eleito pela primeira vez deputado federal, cresceu para R$ 6,5 milhões em 2018, vinte e cinco vezes mais.

Ao assumir a pasta da Comunicação de Bolsonaro, essa oligarquia fortalece também seus interesses na região ao assumir protagonismo na política reacionária do governo. Fátima e a militância petista afirmaram terem derrotado as oligarquias quando chegaram ao governo do estado, desde então só tem demonstrado que sua política é de conciliação com estes interesses coronelistas.

Já não seria a primeira vez que a governadora petista parabeniza um potiguar por adentrar o governo Bolsonaro, o fez quando Rogério Marinho, relator da Reforma da Previdência de Bolsonaro, assumiu o comando do Ministério de Desenvolvimento Regional.

O que expressa de fundo nesse apoio de Fátima à posse de Fábio é também um apoio à iniciativa (dos militares) de estabilizar o governo Bolsonaro. Esse apoio à estabilidade é compartilhado por todos os governadores do PT do Nordeste, como mostrou Camilo Santana, governador do Ceará, ao justificar que era contra o pedido de impeachment porque traria muita instabilidade nesse momento.

Não apoiamos que a luta para derrubar Bolsonaro seja por qualquer meio, como o impeachment comandado pelos reacionários do Congresso que daria posse a Mourão, ou cassando a chapa via julgamento autoritário do STF. São pedidas que não fortalecem a luta dos trabalhadores para por abaixo todo esse regime autoritário e escravista junto com cada ataque ao emprego, à saúde, à vida do povo negro que se levanta no mundo.

Porém, a declaração de Camilo mostra que os governadores nem sequer apoiam a luta pelo Fora Bolsonaro. Isso não é de agora, desde o começo da pandemia deixavam para que governadores reacionários como Dória e Witzel aparecessem como mais enfrentados ao negacionismo bolsonarista, ficando calados a todo momento, negociando o perdão da dívida dos estados e maiores repasses da União aos seus governos.

Querem nada mais do que a estabilidade política, ou seja, sem luta de classes, e recursos para aparecerem nos seus estados como “responsáveis”, usando os recursos para dar soluções parciais que não toquem nos lucros dos empresários e das oligarquias dos seus estados, como a dos Faria. Na prática estão administrando o crescente número de mortes, de desempregados, de negros assassinados pela polícia, como vimos com o assassinato de Geovane Gabriel no RN, aumentando o endividamento, se submetendo a eventuais ajustes fiscais, como o corte de salário de servidores, assim como já fizeram com a reforma da Previdência.

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Essa estabilidade do governo Bolsonaro é fundamental para a sua condução de uma abertura econômica paulatina, quando a saúde nesses estados está na eminencia de colapsar, que não conduza a maiores explorações sociais. Mas também tem a ver com os objetivos comuns dentro do PT de vencer Bolsonaro pela via das eleições de 2022, deixando que ele se desgaste cada vez mais.

Por mais que Lula e os parlamentares do PT, defendendo o impeachment, façam um discurso mais enfrentado, apostando na polarização com Bolsonaro, e os governadores tem interesse em se colar diretamente nos setores autoritários do STF, da Globo pra ser parte da reabilitação de um “centro político”, configurada na proposta de Frente Ampla com Cid Gomes, FHC e outros setores da direita, ambos apostam nas eleições para derrotar Bolsonaro.

Ambos os caminhos se apoiam nas centrais sindicais para manter paralisados os setores de trabalhadores que estão sofrendo demissões, corte de salários e suspensões e sendo obrigados a produzir durante a pandemia, ao invés de confluir a luta anti-racista e anti-fascista com uma luta de massas dos trabalhadores para enfrentar Bolsonaro, os militares, as oligarquias, e todo esse regime autoritário que o STF, o Centrão e a Globo se apoiam.

No máximo querem que essas manifestações sejam pequenas e controladas como instrumento de desgaste do governo, quando não fazem como Camilo Santana, que reprimiu brutalmente no Ceará a manifestação do domingo, 7 de Junho.

Nesse sentido, Fátima é expressão de como o PT quer governar esse mesmo regime pós-golpe institucional: mantendo todo o seu legado econômico de ajustes fiscais, reforma trabalhista, da previdência, fortalecimento do aparato repressivo de policiais e de militares, em harmonia com atores autoritários do STF.

Longe dessa estratégia do PT, a única via de derrotar Bolsonaro é massificar a luta nas ruas, exigindo das centrais sindicais que ponha de pé uma frente única dos trabalhadores para enfrentar esses ataques, o racismo da polícia e do Estado, e por medidas reais de resposta à pandemia e de sobrevivência de setores mais precários da população. Mas também para que essa luta se coloque pelo Fora Bolsonaro, Mourão e os militares, não para dar saídas por dentro desse mesmo regime como impeachment, cassação da chapa ou eleições gerais, mas para impor uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana que mude não apenas os jogadores, mas todas as regras do jogo desse regime escravista. Assim podemos apontar um caminho para demolir o domínio das oligarquias regionais, dos empresários escravistas e apontar uma perspectiva de um governo de fato dos trabalhadores, apontando para um futuro socialista que o PT nunca defendeu.




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