Economia

CRISE ECONÔMICA

FMI sinaliza que recessão será ainda maior que a esperada

Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, disse que as previsões para a economia mundial devem ser revisadas para valores ainda menores, e deve atingir em especial as economias emergentes.

quarta-feira 13 de maio| Edição do dia

O FMI previa uma contração de 3% para a economia mundial neste ano, que já seria a maior desde a Grande Depressão de 1929, e seria significativamente maior que a da crise de 2008.

Mas nesta terça-feira (12/05), Kristalina Georgieva, diretora-gerente do FMI, anunciou, em evento do jornal Financial Times, que as previsões podem ser revisadas para baixo. Ressaltou também que as economias emergentes podem ser bastante atingidas pela fuga de capitais, podendo ter problemas de liquidez, e que irão precisar de mais do que os US$ 2,5 trilhões previstos inicialmente para combater os efeitos econômicos da pandemia.

Nos últimos dias, Georgieva já havia dito que é difícil fazer previsões no cenário atual devido ao comportamento do vírus e que mesmo a recuperação que o FMI prevê para 2021 não é certa, dependendo do curso da pandemia.

Aproveitou também para fazer sua demagogia, afirmando que os países devem ver a crise como uma oportunidade de reconstruir suas economias a partir de políticas capazes de enfrentar os desafios atuais, como a desigualdade.

Se já era sensível a crise econômica, os dados que vão sendo liberados a cada mês, mostrando os resultados dos indicadores, sejam mensais ou trimestrais, mostram quão profunda ela já é.

Os próprios órgãos da burguesia, que ainda batem na tecla de que vamos nos recuperar rapidamente no ano que vem, começam a reconhecer que a crise talvez seja mais profunda do que eles achavam inicialmente e que estamos mais próximos de 1929 do que de 2008.

No meio disso, são os trabalhadores que já pagam pela crise. Nos Estados Unidos, o desemprego saltou de 3,6% em janeiro para 14,7% em abril. No Brasil, são milhões os autônomos que perderam suas fontes de renda e que dependem de um auxílio insuficiente de 600 reais para sobreviver, além de trabalhadores, inclusive os da saúde, com salários atrasados há meses. Os dados fornecidos pelo Ministério da Economia no Brasil mostram um aumento de 22% no auxílio de seguro-desemprego, em relação a abril do ano passado. Além do aumento do desemprego uma parcela dos trabalhadores brasileiros também está com redução de salários pela via da suspensão de contrato com a aplicação das últimas MPs. No caso do Brasil, inclusive, existem previsões mostrando que poderemos ter a maior recessão de nossa história.

A “ajuda” que o FMI já deu para 50 países nessa pandemia virá, como sempre, com suas contrapartidas. Reformas econômicas que vão atacar ainda mais os serviços públicos e agravar a situação de pobreza da população.

O que nos difere de 2008?

A situação atual se mostra mais grave que a situação em 2008. Mesmo antes da pandemia, a crise já era gestada. Em 2019, já havia uma desaceleração do crescimento do PIB mundial, que cresceu apenas 2,9%, segundo o FMI. Muitos economistas já avisavam sobre a possibilidade de uma desaceleração ainda maior e de recessão em diversos países.

Existem ainda outras debilidades. As dívidas hoje, tanto as dívidas públicas quanto as dívidas privadas, são muito maiores do que eram então. Nas economias desenvolvidas, a dívida pública líquida em 2007 era de 48,7% do PIB, enquanto em 2019 chegava a 76,6% do PIB, com previsão de crescer ainda mais em 2020, segundo dados do FMI.

Isto amplia a fragilidade fiscal destes países, fazendo com que seja necessário um maior comprometimento do orçamento com o pagamento da dívida, em detrimento de investimentos sociais. Com a queda de arrecadação decorrente do isolamento social, a situação se torna ainda mais grave. Somado a isso, a maior fragilidade fiscal, o que leva a uma diminuição dos ratings de suas dívidas, faz com que se torne mais caro também para se conseguir novos empréstimos.

Grande parte destas dívidas, inclusive, foi contraída para realizar os programas de salvamento dos bancos privados.

E esse crescimento se estende também aos países sub-desenvolvidos e emergentes. Segundo dados do Banco Mundial, a dívida total (pública e privada) destes países chegava a 170% do PIB em 2018, um aumento de 54 pontos percentuais em relação a 2010.

A dívida privada também tem estourado no mundo. A dívida total do mundo hoje é de US$ 253 trilhões, ou 322% do PIB global, o maior nível da história. Segundo estudo da OCDE, 16% das empresas de capital aberto nos Estados Unidos, e 10% na Europa, já eram “empresas zumbis” (que funcionam apenas para pagar suas dívidas) antes da pandemia.

Existem outras questões também. O comércio internacional, ainda hoje, não retornou aos seus níveis pré-2008. A volta dos nacionalismos e do protecionismo, que atinge sua expressão máxima na guerra comercial entre Estados Unidos e China, atrapalham que o comércio cresça. Os preços das commodities, inclusive o petróleo, seguem em baixa, e este tinha sido um fator que havia garantido uma sobrevida a certos países em 2008.

O baixo preço das commodities e as fugas de capitais dos países periféricos, que neste ano atingem níveis históricos, fazem com que muitos países possam enfrentar problemas para pagar suas dívidas externas. Pode-se ressaltar a situação da Argentina, que recebeu o maior resgate do FMI da história, e agora está de novo às voltas com seus credores.

Dessa maneira, vê-se que a situação atual, em que adentramos a crise, é mais grave que a situação pré-crise de 2008. E as próprias previsões vão neste sentido, com projeções de quedas históricas do PIB tanto para a economia mundial, quanto para diversos países.

Neste momento, em que a comparação que se faz é com a crise de 1929, tem-se que traçar também diferenças. O aumento da integração econômica mundial, inclusive financeira, faz com que as correias de transmissão hoje tenham um peso muito maior, de maneira que uma crise localizada se espalhe muito mais rápido e com muito mais força para o resto do mundo.

Por isso, é necessário um programa que faça que não sejam os trabalhadores que paguem pela crise, como o não pagamento da dívida pública, proibição de demissões e de diminuição de salários.

Veja também: Diante do coronavírus e da crise da saúde pública: nossas vidas valem mais que os lucros deles!

Para que isso aconteça, somente com uma luta da classe trabalhadora, independente de qualquer setor da burguesia e de maneira internacional.




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