Opinião

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Existe alternativa ao lockdown?

Trancar tudo não serve para nada, diz o bolsonarismo; ainda é melhor do que não fazer nada, dizem os governadores e prefeitos. E assim nos aproximamos das duas mil mortes diárias e do colapso do sistema de saúde em várias regiões.

Thiago Flamé

São Paulo

quarta-feira 3 de março| Edição do dia

Dito em inglês parece coisa moderna e atualíssima. Lockdown. Conta-se que em Veneza, assolada ao longo de anos por sucessivas epidemias de peste bubônica, resolveu-se construir uma catedral para conter a peste. O método pouco efetivo de apelar a deus, como tentam muitos bolsonaristas e recomendam muitos pastores, era complementado por outro, um tanto mais eficiente, a quarentena.

Centenas de anos depois e cá estamos, nos debatendo entre as duas alternativas para conter o surto epidêmico que nos ameaça. A nova cepa manauara, altamente contagiosa, que é capaz de reinfectar quem já se infectou antes e que, segundo os primeiros estudos, tem grande possibilidade de driblar as vacinas, sequer foi descoberta no Brasil. Por sorte, um grupo de japoneses visitou Manaus e, quando regressaram, foi descoberta a nova cepa.

A vacina seria a grande esperança da medicina moderna para superar os tradicionais e medievais métodos venezianos de combate à epidemia. Os recursos das gigantes do setor, como por exemplo a Johnson & Johnson que fatura mais por ano que o PIB do Uruguai, foram todos investidos do desenvolvimento recorde da vacina. Cada grande do setor tem uma vacina para chamar de sua. Essas descobertas, porém, não chegaram a tempo de conter a catástrofe que vivemos no Brasil. Os países imperialistas estocam vacina, em alguns casos mais do que suficiente para sua população toda, com o objetivo de especular com o desespero dos demais. E desespero há de sobra nos tempos que correm. Enquanto o vírus continuar circulando, ele seguirá se modificando, exigindo novas vacinas e adaptações, deverão ser criadas, patenteadas, vendidas... e estocadas. Esse circulo infernal vai prolongar ainda mais a epidemia, para a alegria dos acionistas.

Não é, no entanto, a limitação da técnica e do estagio atual da ciência que nos colocam essas disjuntivas. Lockdown até chegar a vacina (cruzando os dedos para servir contra a cepa manauara), ou não fazer nada e seguir adiante ignorando os cadáveres. É o sistema social baseado no lucro que impõe essas limitações, que nos impede de recorrer a técnica e aos conhecimentos mais avançados que a humanidade acumulou. É a existência das patentes, por exemplo, que nos obriga a esperar as remessas de insumos da China, que poderiam estar salvando dezenas de milhares de vidas.

Mas a vacina é, ou seria se o que temos em vista são medidas de emergência para conter a explosão epidêmica no Brasil, uma das alternativas possíveis. A quarentena e o lockdown como alternativa têm, na verdade, um caráter de classe, hipócrita e pouco efetivo. Protege os ricos, a classe média alta que pode ficar em casa. Enquanto a maioria da classe trabalhadora, que trabalha no sistema de saúde, nas entregas, nos serviços de limpeza, nos callcenters, na indústria, nos transportes, continua se apertando nos transportes lotados independente de lockdown ou toque de recolher (o lockdown mais cínico que se pode imaginar, como se o vírus respeitasse quem vai trabalhar e só infectasse quem está circulando por lazer). Toque de recolher e um lockdown significam para as periferias mais repressão estatal, além de não oferecer proteção nenhuma para quem segue trabalhando, . Boa parte da esquerda institucional que clama pelo lockdown mais estrito, parece se esquecer dessa verdade elementar – temos que continuar comendo, tomando água, usando energia elétrica, internet etc. Mas existe alternativa?

Elas existem, estão ao alcance da mão e poderiam estancar a epidemia e evitar as milhares de mortes, mas a condição para a aplicação delas seria enfrentar os interesses das grandes empresas. Em primeiro lugar seria preciso implementar o que podemos chamar de quarentena ou isolamento racional. Ou seja, combinar a técnica medieval com a técnica mais avançada. Testagem massiva e incansável para identificar as rotas do vírus. Quarentena estrita para os infectados e para quem entrou em contato com o vírus – o que passaria por colocar os quartos da rede hoteleira a disposição do sistema de saúde, pois todos sabemos que nas condições de moradia das periferias das grandes cidades é impossível “se isolar” se fechando em casa. Contratação emergencial de profissionais da saúde para ampliar a rede de atendimento e capacidade de testagem. Reconversão da indústria para a produção de testes, respiradouros e outros insumos vitais para o combate a pandemia. Liberdade e incentivo a pesquisa de tratamentos – menos lucrativos para a indústria do que as vacinas - entre as dezenas de substâncias que já mostraram alguma efetividade, além do soro desenvolvido pelo Butantan, do qual não se fala.

Esse caminho no entanto, só será possível através da mobilização e da organização da classe trabalhadora e do movimento de massas. Como a esquerda institucional parece temer mais a massa organizada e em movimento que qualquer outra coisa e não oferece uma alternativa ficamos assim. Enquanto a vacina chinesa ou inglesa não chega, entre lockdowns, toques de recolher e bandeiras coloridas, a marcha fúnebre prossegue.




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