Cultura

ARTE E RACISMO

Exhibit B: uma crítica aprofundada sobre arte e os perigos do programa de censura

quinta-feira 25 de fevereiro de 2016| Edição do dia

Após uma série de debates em torno dos símbolos possivelmente racistas utilizados por Brett Bailey em sua instalação-performática intitulada “Exhibit B”, que chegou inclusive a ser barrada por movimentos negros em sua estréia na Inglaterra, ao tomarmos conhecimento que a performance está agendada para ser apresentada no Brasil e tendo lido denúncias profundas onde se faz perceber um conteúdo profundamente ofensivo à população negra, escrevi um artigo me opondo à sua exibição no Brasil. O objetivo desse artigo é corrigir erros políticos presentes no artigo escrito por mim anteriormente, assim como possibilitar uma reflexão à crítica da arte que possa romper com visões formalistas ou utilitaristas da arte.

As análises presentes em debate e a proposta de uma crítica marxista da arte

É importante que se saiba: Exhibit B é uma instalação-performática com um conteúdo passível de diversas interpretações. Em sua grande maioria, aqueles que afirmam que a performance não é racista, estão ligados diretamente à produção dela – como os performers negros contratados para encená-la – ou são críticos de artes, em geral brancos, que consideram a possibilidade de que a performance possa gerar um desconforto e um escancaramento da condição de escravidão histórica e moderna às quais foram e são submetidas negras e negros na Europa.

Os que se posicionam no lado “oposto” da crítica, reconhecendo os aspectos racistas presentes na obra, em geral são membros do movimento negro, sociólogos e artistas, também negros. Estes assumem a possibilidade de que exista, no uso dos símbolos escolhidos por Brett Bailey, uma espécie de sensacionalismo sádico, que exporia novamente os negros em uma condição de opressão, desrespeito e violência, recebendo como resposta do público, o silêncio.

Mas, afinal, do que se trata a performance/exposição?

De acordo com a performer Stella Odunlami, “Em Exhibit B, os performers foram treinados para comunicar sentimentos pelos olhos a partir de suas posições de paralisia. O silêncio do local é contrabalanceado pelas belas vozes de um coral, criando uma atmosfera de reflexão e reverência. O último espaço da instalação é a sala da reflexão na qual os espectadores podem ler as ideias dos atores e suas motivações para participar do ato e pensar em suas próprias respostas para essas perguntas” (tradução minha). Segundo nota publicada em 14 de dezembro de 2014 pela Corrente Comunista Revolucionária, da França – um dos locais onde Exhibit B foi exposto – a performance se estrutura da seguinte maneira: “Depois de entrar na instalação, o espectador logo percebe que este não é um "zoológico humano", mas doze quadros do racismo. O primeiro seria um "zoológico humano" sequestrado. Nele, o artista incluiu dois pigmeus cercados por cabeças de animais empalhados e apresentados como ’troféus trazidos de volta para a Europa do Congo francês’”.

A performance faz isso, a performance faz aquilo, etc, etc etc. A verdade é, de um ponto de vista marxista, a crítica da arte não pode se localizar exclusivamente na análise da “obra pronta”. Assim como quando olhamos para o mundo material e a burguesia nos obriga a ver apenas objetos prontos, o mesmo faz com a arte. Do mundo material e do mundo da arte, a burguesia cria um mecanismo ideológico importante de ocultar o trabalho presente na existência de todas as coisas. Da mesma forma que esse mecanismo cria uma relação alienada com o mundo – onde não nos apropriamos do resultado de nosso próprio trabalho, nem do de outrem, pois não vemos os objetos como resultado de trabalho humano – o fazemos no campo da arte, isolando o objeto artístico de sua produção e circulação, olhando apenas sobre o objeto pronto. O próprio imperativo anti-fetichista de explicitação do processo de trabalho nas obras foi um dos programas realizados pela arte moderna, teorizado por Baudelaire e posto em prática a partir de Manet.

Isso significa que não se pode analisar a arte pelo seu objeto pronto? Não. Mas olhar apenas para esse aspecto significa que todo o resto não importa e que, independente da forma como a obra é produzida, ela vai sofrer críticas positivas, negativas, etc. Um exemplo disso é a exaltação pela crítica do filme “O Iluminado”, de Stanley Kubrick, apesar do conhecido fato de que, para apresentar-se traumatizada, a atriz Shelley Duvall foi realmente traumatizada pelo brilhante diretor. Sabe-se que, após a filmagem, Shelley Duvall terminou física e psicologicamente doente, resultado da situação de frequentes gritos, perseguição e agressão verbal que sofreu do diretor.

Casos semelhantes aparecem na prática de direção de Hitchcock, Coppola e até mesmo grandes produções, como o filme “Titanic”, que obrigou a atriz Kate Winslet a seguir as cenas em águas frias mesmo enquanto se tratava de uma pneumonia, adquirida no mesmo contexto. Para poder tratar sua pneumonia, Kate foi obrigada a entrar com um processo trabalhista contra James Cameron, diretor e produtor deste filme que recebeu 13 indicações ao Oscar e ganhou 11 delas.

Por uma proposta marxista de análise parte I: o modo de produção

A instalação “Exhibit B” não recebeu, até agora, denúncias desse tipo, mas nem por isso está passível de uma análise em torno de seu “modo de produção”. Imaginemos: uma produção deste tamanho jamais conseguiria se financiar tranquilamente não fossem os esforços financeiros de algum punhado de empresários e do próprio Bailey, que, diga-se de passagem, sempre contou com uma fortuna pessoal a favor de sua arte. Imaginemos mais ainda: esse artista, com uma boa quantidade de dinheiro e um projeto na cabeça convoca um elenco, apresenta o projeto, informa que nada pode ser alterado, informa o valor a ser pago. Esse elenco tem uma exigência única: devem ser negros.

Assim, criam-se duas posições estanques: de um lado o contratante, branco, de outro o contratado negro. O primeiro lado detém o poder de projeto – de mando, neste caso – e o segundo detém o poder exclusivo de decidir participar ou não. Seria esse um modo “antirracista” de produzir uma instalação? Quantos performers negros foram desclassificados da performance por não achar que fosse adequada para seu propósito? Quantos puderam opinar nas suas linhas e estruturas para que atendesse o olhar do negro sobre a escravidão?

Isso tampouco significa que o artista branco esteja proibido de tratar sobre a opressão do negro. A escravidão não foi um processo de anulação da humanidade do africano, senão da anulação da humanidade de todos os homens e, apesar de alguns homens brancos terem sido notavelmente beneficiados por esse crime, a grande maioria da humanidade perdeu a possibilidade de realizar um contato cultural enriquecedor, de amar e ser amado livremente por pessoas diferentes, de aprender sobre línguas e religiões que nesse processo, foram extinguidas e eternamente esquecidas. Muitos outros homens e mulheres brancos, séculos depois, viram-se com seus salários e modo de vida brutalmente rebaixados por uma prática que os “nivela por baixo” com os homens e mulheres negros, que servem como uma intensa ameaça de perder seu emprego porque, afinal “tem uma fila de gente querendo o lugar que você está por um salário muito menor que o seu”.

Entretanto, é preciso que toda a intelectualidade e círculos artísticos brancos reconheçam que o seu olhar sobre a situação histórica e moderna do negro pode estar profundamente afetada pelos privilégios que receberam durante sua vida, e que ter um ouvido e uma mente aberta para as possíveis críticas que possam sofrer é parte constitutiva de lutar contra o racismo, assumindo que nossa opinião importa, que nós somos os melhores porta-vozes de nossa opinião e que não há razão em elaborar uma instalação antirracista que pressupõe uma estrutura produtiva que repete o racismo institucional onde o homem branco contrata e idealiza e o homem/mulher negrx obedecem.

Por uma proposta marxista de análise parte II: o espaço de circulação da obra

Nas entrevistas nas quais Brett Bailey foi questionado sobre o caráter racista de sua obra, ele responde: “Ela é sobre amor, respeito e atrocidade. Aqueles que fizeram Exhibit B ser fechada dizem que o trabalho é racista. Eles desafiaram meu direito, como um branco Sul Africano, de falar sobre o racismo do jeito que eu falo. Eles me acusam de explorar meus performers. Eles insistem que minha crítica aos zoológicos humanos e o olhar fixo sobre a objetificação, a desumanização colonial/racista não é nada mais que a recriação daqueles espetáculos de humilhação e controle. A grande maioria deles não foram ao trabalho.”

De fato, muitos dos críticos do trabalho como racista não estiveram lá. Mas porque será? A grande maioria dos críticos são negros, inclusive uma boa parte das centenas daqueles que protestaram em frente ao importante centro teatral de Londres, o Barbican, também o são. Sabemos que, em todo o mundo, os negros recebem os menores salários, são vítimas de fortíssima opressão xenófoba e racial, o que em grande medida os afasta da apreciação artística nos grandes centros onde vivem e trabalham.

Apesar de falar sobre os negros, usar artistas negros e se propor a questionar o racismo colonial e atual, Bailey escolheu como espaço de exibição um dos muitos lugares que a grande maioria dos negros não pode acessar! O Barbican, assim como os conhecidos teatros elitizados brasileiros, cobra valores de entrada absurdos, de cerca de 60 libras, o equivalente a R$300.

O espaço de circulação, no caso da arte e de toda produção humana, é determinante e influi diretamente em seu conteúdo. O sujeito capaz de pagar fortunas para apreciar obras de arte é provavelmente o sujeito que se beneficia historicamente da escravidão e do racismo, é inclusive o herdeiro dos zoológicos humanos e o praticante atual dos tours na África, de onde voltam com seus souvenirs animais, materiais e humanos (pasmem!) como é prática de alguns “humanistas” famosos como Angelina Jolie. O ambiente favorável a essa presença é o ambiente oposto ao espaço preenchido pelos verdadeiros sujeitos do combate ao racismo, que são os negros e os trabalhadores, brancos e negros, oprimidos pela mesma classe – composta, ela também, por brancos e negros.

Expô-la nesse espaço nos parece um privilégio ao sadismo em lugar do combate a ele, o que se confirma com a aceitação de Bailey de que a instalação fosse cancelada por “medo da insegurança” gerada pelos manifestantes que se colocavam à frente do Barbican no dia de sua estréia. Um artista antirracista que tem medo dos negros não me parece assim tão antirracista.

Por uma proposta marxista de análise parte III: a questão dos símbolos e de quem se fala

Ao se tratar do uso de símbolos – que são, em última instância, a análise do resultado final de todo esse trabalho ao qual me referi acima – deve também ser questionada, e privilegiados os olhares daqueles que são cotidianamente vítimas dessa mesma opressão, seja simbólica, seja física.

Minha opinião, enquanto negra, é que me cansei de ver minha raça e a história de meu povo marcada exclusivamente pelo sofrimento, pela dor e pela miséria. E este é, inegavelmente, o olhar preferido da elite branca e da burguesia. Isto porque preferem que sigamos ocupando essa posição e que siga nos sendo negado o direito à humanidade, pela qual lutamos, incansavelmente, durante todos os anos durante os quais sofremos com a escravidão, o tráfico humano. Seguimos lutando, também contra as consequências e reproduções atuais dessa mesma opressão.
Pergunto-me: porque Brett Bailey escolheu esses símbolos? Porque foi fortemente financiado para utilizá-los? Porque as grandes galerias o acolhem? Afinal de contas, o que há por trás de tudo isso?

Algumas outras perguntas também não saem da minha cabeça: onde está, na grande mídia, os que se utilizam de outros símbolos? Porque os artistas negros que falam sobre os negros não estão nas grandes galerias? Porque, por trás deles, não há nada a não ser a perseguição permanente da miséria e a vida dupla de ser artista apenas no “tempo livre”?

Isso faz com que se possa dizer que Brett Bailey é racista e sua instalação também? Não. Isso faz com que possamos ter uma opinião sobre isso, assumindo que a tradição reivindicada por Bailey – reivindicada, mas que certamente não é seguida à risca, com toda a radicalidade política que implica – preconizou os objetos artísticos como um campo de disputa e o artista como um propositor, ao invés daquele que dá a palavra final sobre o assunto. Para tal tradição, devidamente reformulada pelo mercado financeiro e pela burguesia vinculada às atividades artísticas, a arte não pode ser pensada apenas como representação, mas como uma arena na qual o engajamento subjetivo e político do público é decisivo. Deste programa artístico, reivindicado pelo artista em questão, deduz-se que a obra é necessariamente incompleta e não produz nenhum tipo de verdade sem a presença do público. Ou seja, o dispositivo artístico em questão, a instalação performática, funciona não a partir da representação, mas do diálogo simbólico e subjetivo com cada um dos indivíduos expostos a ela.

A controvérsia moral de uma obra de arte e seu direito à circulação

Considerando os aspectos apontados acima, especialmente no que diz respeito à incompletude estrutural da instalação, que demanda a reação do público, é preciso que sejam feitas algumas pontuações.

A primeira delas, de que não podem ser considerados racistas aqueles que apreciaram a obra, e que, como consequência do fato que existe uma controvérsia sobre o seu conteúdo, não é possível que seja considerado um detalhe o direito que reivindicam, performers e artista, de poderem circular, ou seja, de poderem ter sua obra exposta ao público.

A segunda delas, de que o mesmo direito que artistas tem de circular sua obra, tem o público “alvo” de interferir nela, inclusive de impedir sua realização, caso se sintam ofendidos por seu conteúdo e que, no caso discutido, o fato disso ter ocorrido expressa claramente que Bailey não conseguiu atingir seu objetivo de produzir uma obra antirracista, pois os próprios negros se incomodaram com ela.

E, finalmente: independente do conteúdo de uma obra de arte, não é possível que possamos confiar no Estado brasileiro – racista por sua própria natureza – para que cancele, impeça, proíba ou interfira de qualquer maneira na circulação da instalação. Todas essas palavras são apenas variações linguísticas mais leves para seu significado real que é censura, algo que o Estado brasileiro é especialista, pois fez uso dela na maior parte de sua história como Estado independente, sempre em defesa dos interesses da burguesia nacional e internacional, inclusive levando à morte ao desaparecimento de artistas, intelectuais que, junto a milhares de trabalhadores e militantes, compõe as listas dos que sofreram as brutalidades das ditaduras militares.

Assumo aqui que, no último texto que escrevi sobre o mesmo tema, incorri no erro de defender um programa dúbio que poderia gerar uma interpretação favorável à censura, que remarco como um programa necessariamente burguês, oposto aos interesses dos mais oprimidos, que leva a um aprofundamento do direito do Estado de definir o que será ou não circulado no campo da arte, e que a realização de um programa como esse só pode gerar mais ataques contra os trabalhadores, os negros, as mulheres e os LGBTs.




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